Donald Trump voltou a colocar a Gronelândia no centro da agenda internacional nesta sexta-feira, ao ameaçar impor tarifas alfandegárias a países que não apoiem o seu plano para assumir o controlo do território autónomo dinamarquês. A informação foi avançada pelo The Guardian e surge numa semana marcada por forte tensão diplomática e militar no Árctico, com vários países da NATO a reforçarem a presença na ilha.
Durante um discurso na Casa Branca, o Presidente norte-americano afirmou que poderá penalizar economicamente países que não “acompanhem” Washington, alegando que a Gronelândia é essencial para a segurança dos Estados Unidos. Trump admitiu mesmo que a tomada do território poderá ocorrer pela força, se necessário, e comparou a estratégia à que já usou noutras disputas comerciais com aliados europeus.
Segundo o líder republicano, a Dinamarca poderá ser tratada da mesma forma que a França ou a Alemanha, países que já ameaçou com tarifas de 25%, para os pressionar a aumentar os preços dos medicamentos. “Podemos fazer o mesmo com a Gronelândia”, disse. A ameaça de Trump esbarra, no entanto, na impossibilidade jurídica de impor individualmente tarifas aos países da União Europeia.
As declarações coincidiram com a visita a Copenhaga de uma delegação bipartidária do Congresso norte-americano, composta por 11 membros da Câmara dos Representantes e do Senado, numa demonstração de apoio à Dinamarca e à Gronelândia face às ameaças de intervenção militar. Entre os congressistas estavam os republicanos Thom Tillis e Lisa Murkowski e o democrata Chris Coons.
Ao mesmo tempo, Jeff Landry, enviado especial de Trump para a Gronelândia, afirmou que um acordo para a aquisição do território “deverá e vai acontecer”. Em declarações à Fox News, garantiu que o Presidente “está determinado” e que as exigências já foram comunicadas a Copenhaga, cabendo agora ao secretário de Estado, Marco Rubio, e ao vice-presidente, J.D. Vance, negociar os termos.
Durante a visita oficial, os congressistas reuniram-se com a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, e com o primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen. A bandeira gronelandesa foi hasteada no parlamento dinamarquês, num gesto simbólico de solidariedade. À chegada a um encontro com empresários, o democrata Steny Hoyer afirmou à televisão dinamarquesa que o país “não está sozinho”.
Num encontro com a imprensa, Chris Coons agradeceu à Dinamarca “225 anos de uma relação sólida e de confiança” com os Estados Unidos e tentou relativizar o impacto das declarações de Trump, dizendo que em Washington “há muita retórica e pouca realidade”. Lisa Murkowski foi mais directa, afirmando que a maioria dos norte-americanos não apoia a anexação da Gronelândia e que o território deve ser encarado como um aliado, não como um activo estratégico.
A tensão chega ao quotidiano em Nuuk
Enquanto decorrem as trocas diplomáticas, o clima no terreno é de apreensão. Em Nuuk, habitantes disseram ao The Guardian que têm vigiado o espaço aéreo e o mar por conta própria, receando uma acção militar norte-americana. Muitos afirmam não ter recebido orientações claras da parte das autoridades e dizem ter sido obrigados a preparar planos de emergência por iniciativa própria.
A Dinamarca anunciou entretanto um reforço do apoio à preparação de emergência da Gronelândia. O ministro dinamarquês da Segurança Pública, Torsten Schack Pedersen, sublinhou a necessidade de unidade, enquanto o ministro gronelandês Peter Borg agradeceu o apoio para reforçar a capacidade de resposta do território.
A confusão aumentou após uma reunião de alto perfil entre Marco Rubio, J.D. Vance e os ministros dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca e da Gronelândia. A Casa Branca afirmou que teria havido acordo para continuar conversações técnicas sobre a aquisição da Gronelândia, mas essa versão foi desmentida por Copenhaga e Nuuk. O ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, esclareceu que apenas foi criado um grupo de trabalho para analisar de que forma as preocupações de segurança acerca da presença dos EUA no Árctico poderiam ser acomodadas.
A ministra dos Negócios Estrangeiros gronelandesa, Vivian Motzfeldt, afirmou ao jornal Sermitsiaq que a situação continua incerta, embora exista agora um canal directo de diálogo. Já Mette Frederiksen declarou que a defesa da Gronelândia é uma preocupação partilhada por toda a NATO, numa altura em que tropas internacionais começaram a chegar ao território. A Alemanha confirmou uma missão de reconhecimento para avaliar a eventual presença de aviões Eurofighter, sublinhando que o objectivo é garantir a segurança do Árctico em coordenação com os aliados.