Um dos “cameos” memoráveis do cinema, e um dos elementos mais curiosos da obra de Spielberg, chegou aos ecrãs norte-americanos a 16 de novembro de 1977. Agora, quase 50 anos depois, terá oportunidade de o (re)ver este domingo, pelas 22h50, no Canal Hollywood.

Em “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, o icónico cineasta da Nouvelle Vague, François Truffaut, interpreta Claude Lacombe, o ufólogo francês que conduz a investigação científica sobre os OVNIs. Tudo começa durante um voo comercial, quando um avião se cruza com um objeto brilhante que o piloto não consegue descrever.

Depois, vários aviões, dados como desaparecidos em 1945, surgem de repente no deserto de Mojave. A seguir, Roy Neary (Richard Dreyfuss), um eletricista que trabalha de noite, tem um encontro com um estranho objeto voador, vindo não se sabe de onde. Esta série de acontecimentos inexplicáveis irá culminar num espetacular encontro de humanos com extraterrestres. 

Após aquele contacto fugaz, Roy desenvolve uma obsessão com o OVNI, o que acabará por destruir a sua a vida doméstica. Uma das grandes forças do filme reside no choque entre o caos muito concreto da vida familiar, — dos gritos dos miúdos, às discussões do casal e à desordem, — e a tranquilidade silenciosa das aparições no céu.  

Ao contrário da ficção científica contemporânea, que tende a encarar o “outro” como ameaça, Spielberg apostou na empatia e na compreensão. Os alienígenas não chegam como invasores, mas como interlocutores curiosos. E Lacombe, o personagem de Truffaut, é o elemento da equipa científica que insiste em decifrar o “diálogo” alienígena através da música, — uma ideia que remete para a própria filosofia do realizador francês, que considerava o cinema uma linguagem universal, capaz de transcender barreiras culturais.

Enquanto os generais norte-americanos debatem estratégias de contenção dos visitantes e os técnicos medem frequências, Lacombe opta pela comunicação, estratégia que é também uma metáfora do próprio cameo. A escolha de Spielberg foi arriscada: Truffaut não era ator profissional, e teve de aprender as falas em inglês com um coach. No final, o sotaque marcante do francês acabou por trazer uma autenticidade genuína ao papel.

Contudo, os “Encontros Imediatos do Terceiro Grau“ não acabam bem. Roy abandona a família para seguir os visitantes, decisão final que ainda hoje é considerada um dos pontos mais provocadores do filme. Spielberg defendeu o desfecho do personagem como “a necessidade de responder a um chamamento interior”, em vez de um ímpeto egoísta com duras consequências para a família.

Este é apenas um dos filmes que poderá ver ou rever este fim de semana, se não quiser sair do sofá com a previsão da chegada de uma massa de ar polar ao País. Outro dos destaques cinematográficos para ver na televisão nos próximos dias vai para “Plano de Fuga”, que marca a primeira vez que Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger se juntaram para desempenhar os papéis principais — e ambos do mesmo lado da barricada.

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