Em pouco mais de uma semana, Minneapolis, no estado do Minnesota, assistiu à morte de uma mulher às mãos de um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), a um segundo tiroteio que envolveu um cidadão venezuelano e a uma escalada de protestos que levou o Presidente norte-americano, Donald Trump, a ameaçar a invocação da Lei da Insurreição para justificar a presença de tropas na cidade para impor a ordem.

Seis anos após os confrontos que marcaram Minneapolis, na sequência da morte de George Floyd, o clima de tensão volta agora a agravar-se com a presença massiva de agentes do ICE e da Patrulha de Fronteiras. Para muitos habitantes, a sensação é de ocupação e medo. Para Washington, trata-se de uma operação de aplicação da lei.

Os acontecimentos que mergulharam Minneapolis no caos começaram na quarta-feira, dia 7 de janeiro, quando Renee Nicole Good, uma cidadã norte-americana de 37 anos, foi mortalmente baleada por um agente do ICE durante uma operação de imigração no sul da cidade. A mulher terá tentado impedir a operação no meio da estrada.

A ordem para parar, o carro a arrancar e as últimas palavras de Renee. O vídeo gravado pelo agente do ICE que matou uma condutora

De acordo com o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla inglesa), Good teria usado o seu carro “como arma”, tentando atropelar agentes federais. A norte-americana, segundo esta autoridade, “perseguiu e impediu” os agentes de trabalhar durante o dia, tendo um agente “usado o treino recebido para salvar a sua própria vida e a dos colegas”.

A versão é contestada por familiares, ativistas e pelas próprias autoridades locais, que acusam o serviço de imigração de provocar o “caos” e tornar as comunidades “menos seguras”. O presidente da câmara de Minneapolis, Jacob Frey, classificou os relatos das autoridades federais como um “disparate“, descrevendo os tiros como “um agente a usar o poder de forma imprudente” e as explicações da Casa Branca como “propaganda”.

Entretanto, as autoridades do estado do Minnesota já anunciaram a abertura de uma investigação criminal própria, à margem da investigação federal (dirigida pelo FBI) para apurar eventuais responsabilidades criminais do agente do ICE que matou Renne Good. A administração local vai mesmo processar a administração Trump para impedir a entrada dos agentes anti-imigração do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) na região.

Minnesota processa Administração Trump para impedir entrada dos agentes anti-imigração do ICE

O relatório do Departamento de Bombeiros de Minneapolis, entretanto divulgado pela CNN, descreve uma cena trágica: Good foi encontrada inanimada no banco do condutor, com múltiplos ferimentos de bala na parte superior do corpo, incluindo dois disparos no peito, um no braço esquerdo e um possível ferimento na cabeça. Foram feitas tentativas de reanimação no local antes de ser transportada para o hospital, onde acabou por morrer.

A morte de Good desencadeou protestos, que se intensificaram nos dias seguintes. Sob a vigilância de um forte dispositivo policial, os manifestantes têm envergado cartazes a pedir a extinção do ICE ou a condenar o “racismo e fascismo“.

Protestos irrompem nos EUA depois de morte de mulher por agentes da polícia de imigração

No local onde Renee Good foi mortalmente baleada pelo ICE, formou-se entretanto um enorme memorial em sua homenagem, com centenas de pessoas a depositarem ramos de flores e velas e até cartazes com a palavra “paz”. Os protestos culminaram num novo incidente armado que envolveu (uma vez mais) agentes federais.

Esta quarta-feira, uma semana após a morte de Good, um agente federal disparou e feriu um homem venezuelano na perna durante uma operação de aplicação da lei, num episódio que intensificou o clima de medo e raiva que se espalha pela cidade.

De acordo com um comunicado publicado pelo Departamento de Segurança Interna na rede social X, “os agentes federais realizavam uma abordagem de trânsito direcionada em Minneapolis a um imigrante ilegal da Venezuela que tinha sido recebido nos Estados Unidos por Joe Biden em 2022”. As autoridades afirmaram que o homem, na tentativa de evitar a prisão, fugiu dentro do carro e colidiu com um outro que estava estacionado, fugindo, em seguida, a pé. Terá sido nesta altura que o disparo ocorreu.

Após este incidente, os protestos intensificaram-se, tendo como principais exigências a retirada imediata dos agentes federais, justiça para Renee Good e o fim das operações de imigração agressivas. Nas redes sociais, têm sido divulgados vídeos que mostram detenções violentas, janelas de carros partidas e agentes a disparar gás lacrimogéneo diretamente contra os habitantes.

Durante os confrontos do último dia, duas crianças foram hospitalizadas após agentes federais terem utilizado gás lacrimogéneo para dispersar a multidão. Um bebé de seis meses, que estava dentro de um carro que foi atingido por gás lacrimogéneo, começou a apresentar dificuldades em respirar. De acordo com o gabinete de Segurança Comunitária de Minneapolis, citado pelo ABC News, houve momentos em que o bebé deixou de respirar, tendo sido assistido por bombeiros e pela polícia antes de ser transportado para o hospital.

O Presidente dos Estados Unidos tem utilizado a sua conta nas redes sociais para criticar as autoridades de Minnesota e da cidade, acusando os responsáveis locais “corruptos” de não conseguirem conter os manifestantes, que exigem a retirada dos agentes do ICE e a responsabilização pelas operações federais nesta área.

“O governador e o presidente da câmara não sabem o que fazer, perderam totalmente o controlo e, neste momento, estão a tornar-se INÚTEIS! Se, e quando, eu for forçado a agir, isto será resolvido RAPIDAMENTE e EFICAZMENTE!”, disse Donald Trump esta sexta-feira, na Truth Social.

No dia anterior, Trump ameaçou invocar a Lei da Insurreição, legislação federal raramente utilizada, para justificar o envio de tropas para Minneapolis. A medida, segundo o líder norte-americano, permitiria “pôr rapidamente fim à tragédia” que está a ocorrer num estado outrora “grande”.

A Lei da Insurreição, aprovada em 1807, confere autoridade ao Presidente do país para mobilizar forças militares — incluindo tropas no ativo e a Guarda Nacional — para impor a lei dentro quando considera que a aplicação normal da justiça se tornou impraticável.

Trump ameaça invocar Lei da Insurreição para justificar tropas em Minneapolis

De acordo com a BBC, a legislação foi usada em momentos críticos da história norte-americana, como a Guerra Civil, o combate à violência da Ku Klux Klan após a guerra, a dessegregação racial em Little Rock nos anos 1950 e, mais recentemente, os motins de Los Angeles em 1992. A lei é controversa por ser redigida em termos amplos, conferindo grande margem de interpretação ao Presidente e levantando receios sobre a militarização da resposta a protestos civis.

Também a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, falou deste tema esta quinta-feira, tendo protagonizado um momento de tensão com um jornalista que questionou a morte de Renée Good às mãos do serviço de imigração. Após a questão levantada pelo profissional de comunicação, Leavitt disse: “É um jornalista tendencioso com uma resposta de esquerda. É um jornalista de esquerda, não é um repórter, está nesta sala a fingir que é um jornalista. É tão claro pela premissa da sua questão. Nem sequer devia estar sentado aí”.

Porta-voz da Casa Branca chama “ativista de esquerda” a jornalista que questionou morte de Renée Good às mãos do serviço de imigração

Sobre a norte americana morta pelo agente do ICE no dia 7 de janeiro, Donald Trump descreveu-a como uma “agitadora” e JD Vance, afirmou que se tratou de uma “tragédia” provocada pela própria Renee Good. O vice-Presidente sublinhou, ainda, que o agente está “protegido por imunidade absoluta” e defendeu que os procuradores estaduais do Minnesota não têm jurisdição para acusar um agente federal.

A postura da Casa Branca tem gerado fortes objeções por parte dos líderes locais e estaduais. O presidente da câmara de Minneapolis tem sido uma das vozes mais críticas da atuação federal. Após a morte de Good, dirigiu-se diretamente aos agentes do ICE e atirou: “Saiam da cidade imediatamente“.

Após o segundo tiroteio, Jacob Frey procurou também conter os protestos, apelando à calma. “Não podemos combater o caos de Donald Trump com o nosso próprio caos”, afirmou, elogiando os manifestantes pacíficos, mas criticando quem recorre à violência. Ainda assim, considera a presença federal “insustentável” e imposta contra a vontade das autoridades locais.

A Organização das Nações Unidas (ONU) exigiu, entretanto, uma investigação “rápida, independente e transparente” à morte de Renee Good. “O uso intencional de força letal só é permitido como último recurso contra uma pessoa que represente uma ameaça iminente à vida”, afirmou o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Jeremy Laurence, numa conferência de imprensa em Genebra esta terça-feira.

Laurence disse que a ONU tomou conhecimento da investigação em curso pelo FBI, mas insistiu na necessidade de um inquérito independente e célere sobre a morte da mulher de 37 anos. “Pedimos a todas as autoridades para tomarem medidas para reduzir as tensões e a absterem-se de incitar à violência”, acrescentou o porta-voz das Nações Unidas.

Também a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla) avançou com uma ação coletiva contra o ICE, acusando os agentes de “perfilagem racial” contra comunidades somalis e latinas. Segundo a organização, várias detenções têm sido feitas “sem mandado ou causa provável”, com base apenas na aparência dos indivíduos.