Vários elementos do Partido Republicano têm vindo a expressar desagrado com a retórica do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, em relação a uma eventual intervenção militar na Gronelândia, dizendo que uma decisão de se voltar contra um aliado poderia representar o fim da presidência de Trump e ter o mesmo efeito na atual administração que a retirada do Afeganistão, em 2021, teve na presidência de Joe Biden.
Como lembra o jornal The Guardian, as críticas diretas a Trump por parte dos elementos do Partido Republicano no Congresso dos EUA são raras — já que o Presidente dos EUA tem defendido que os republicanos que discordam dele sejam afastados dos seus cargos. Contudo, o facto de Donald Trump ter voltado nas últimas semanas a insistir na necessidade de controlar a Gronelândia, território independente que integra o Reino da Dinamarca, levaram vários republicanos a manifestar-se publicamente contra essa retórica.
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“A ideia de os EUA tomarem a posição de que tomaríamos o controlo da Gronelândia, um território independente dentro do Reino da Dinamarca, é absurda”, disse na última quarta-feira o senador republicano Thom Tillis, eleito pelo estado da Carolina do Norte, num discurso no Senado, citado pelo The Guardian. “Alguém tem de dizer ao Presidente que o povo da Gronelândia, até há bem pouco tempo, era na verdade muito pró-americano e muito a favor da presença norte-americana.”
No mesmo sentido, o congressista republicano Don Bacon, eleito pelo estado do Nebraska, disse em declarações ao jornal Omaha World-Herald que uma intervenção militar na Gronelândia poderia representar o fim da administração Trump. “Se ele cumprir as ameaças, penso que seria o fim da sua presidência”, disse Bacon. “Ele tem de saber que a saída é perceber que os republicanos não vão tolerar isto e que ele vai ter de recuar. Ele odeia que lhe digam não, mas neste caso penso que os republicanos têm de ser firmes.”
Também no Senado, o senador Mitch McConnell, eleito pelo estado do Kentucky e anterior líder republicano na câmara alta do Congresso, afirmou que “concretizar esta provocação seria mais desastroso para o legado do Presidente do que a retirada do Afeganistão foi para o seu antecessor”, numa referência direta à decisão de Joe Biden de retirar as tropas norte-americanas do Afeganistão, momento que fez cair a pique a popularidade do democrata. Para McConnell, uma intervenção militar na Gronelândia acabaria com a relação de confiança entre os EUA e os aliados sem que isso trouxesse qualquer ganho norte-americano no que toca ao Ártico.
O The Guardian sublinha que estes três republicanos não estão à procura da reeleição nas próximas eleições, o que os deixa mais livres para criticar diretamente Trump. O Presidente dos EUA, que já tinha falado várias vezes da necessidade de adquirir o controlo da Gronelândia, tem vindo a intensificar a retórica em torno dessa possibilidade nas últimas semanas, depois da intervenção na Venezuela que resultou na detenção de Nicolás Maduro.
Outros republicanos mais conhecidos por serem críticos habituais de Trump também já se posicionaram contra esta ideia do Presidente dos EUA, incluindo Lisa Murkowski, senadora republicana pelo Alasca. “Não penso que seja uma boa ideia”, afirmou Murkowski na semana passada, sublinhando que a Gronelândia tem de ser entendida como “aliada” e não como “ativo”. Outros, como os congressistas Mike Turner e John Kennedy, também já se posicionaram contra a possibilidade de Trump avançar militarmente sobre a Gronelândia.