A “guerra” pela supremacia da Inteligência Artificial (IA) de consumo entra num novo capítulo, que pode ser decisivo na escolha do serviço a usar. Neste arranque de 2026, a Google desfere um golpe estratégico com o lançamento – prometido para “em breve” na Europa – da Inteligência Pessoal. Trata-se de um serviço (ainda em fase experimental) para os subscritores do Gemini Pro e Ultra que a empresa descreve como “uma mudança fundamental”, pois pretende ligar as preferências e dados pessoais do utilizador aos contextos das respostas dadas.

Enquanto o ChatGPT, da OpenAI, tem dominado as atenções pela sua capacidade criativa e lógica pura, a Google decidiu jogar a sua melhor carta: os dados que milhares de milhões de utilizadores confiam à empresa. Ao contrário dos seus concorrentes, o Gemini passará a ter permissão (desde que o utilizador lha dê) para mergulhar no Gmail, Fotos e YouTube para, nas palavras da própria tecnológica, “ir além das respostas genéricas da IA, ‘ao ligar os pontos’ no ecossistema Google de um utilizador”, segundo se lê no blogue oficial, publicado na quinta-feira (15).

De “recuperar” para “raciocinar”

A diferenciação técnica desta atualização reside no Gemini 3, o mais potente motor de IA da gigante californiana. Como afirma Josh Woodward, vice-presidente da Google para o Gemini, a Inteligência Pessoal promete “raciocinar” sobre os dados que encontra para “tornar a IA verdadeiramente pessoal”. O sistema estará preparado para encontrar nuances na biblioteca de fotos ou ligará um tópico de e-mail a um vídeo assistido no YouTube sem que o utilizador precise de indicar onde procurar.

Woodward exemplifica esta capacidade com um caso prático: ao procurar pneus para o carro, o Gemini consulta documentos de seguro no Gmail para identificar a marca e modelo específicos do veículo, garantindo que as recomendações são “perfeitamente adequadas”.

Ecossistema como “arma” de fidelização

Este é o ponto onde a Google se consegue distanciar do ChatGPT. Para um utilizador comum, a conveniência de ter uma IA que sabe as suas preferências de viagem, por exemplo, ou o seu interesse em fotografia de natureza (detetado através do Google Fotos) é um argumento de peso. A empresa diz que o objetivo é trazer “o melhor da inteligência da Google para o seu mundo específico”, mas, na realidade, trata-se de utilizar a IA para “ler” o histórico pessoal e assim customizar as respostas, tornando-as mais úteis para cada indivíduo.

A OpenAI tem tentado fazer algo próximo com o “Custom Instructions” – um conjunto de parâmetros que o utilizador pode preencher para “guiar” a IA -, mas falta-lhe a integração nativa com as ferramentas onde a nossa vida digital acontece, como o e-mail ou, simplesmente, as horas de vídeo que vemos. Assim, a Google não está apenas a vender um modelo… está a vender uma camada de inteligência sobre serviços que milhares de milhões de pessoas já utilizam.

E como fica a privacidade?

A gigante das pesquisas garante ter desenhado o serviço a pensar na privacidade. Desde logo, este está desativado por predefinição, sendo necessário o utilizador fazer o “opt in”. “Pode decidir se e quando associar apps ao Gemini”, reforça a marca no blogue oficial, acrescentando: “O nosso objetivo é que o Gemini utilize a Inteligência Pessoal apenas quando determinar que fazê-lo será útil.”

Além disso, a Google garante que o Gemini não é treinado diretamente no conteúdo privado das mensagens ou fotos. A IA acede aos dados para responder a uma solicitação específica, mas essas informações não são incorporadas na base de conhecimento global, promete a empresa norte-americana.

Para quando em Portugal?

Disponível desde quarta-feira para os utilizadores nos EUA com subscrição AI Pro e AI Ultra, este serviço funciona na Web, Android e iOS. Para a Europa, fonte oficial da empresa disse ao DN que chegará “em breve”, ainda que não seja possível traçar uma data definitiva. Certo é que a Google já confirmou que este é apenas o início de uma evolução: “Estamos a avançar para um mundo que vai além das experiências genéricas de IA, rumo a uma Inteligência Artificial construída à sua medida.”

Este ano de 2026 começa, assim, com a Google a tentar reclamar o trono da utilidade – pelo menos para os clientes com assinatura. E, desta forma, a batalha na IA transformou-se: já não é apenas sobre quem é mais inteligente, mas sobre quem nos conhece melhor.