Entre a rejeição, a mobilização, a fidelidade do voto e a incerteza sobre a participação, a segunda volta das eleições presidenciais desenha-se como uma eleição fora da norma e uma das mais difíceis de antecipar da história recente da democracia portuguesa. Os politólogos Pedro Silveira e Paula do Espírito Santo explicam como é que o fenómeno André Ventura pode baralhar as contas
A ausência de indicações claras de voto por parte do primeiro-ministro e líder do PSD, Luís Montenegro, da Iniciativa Liberal ou de Gouveia e Melo, abriu um dos maiores pontos de interrogação da segunda volta das eleições presidenciais: o comportamento eleitoral dos votantes cujos candidatos ficaram pelo caminho. Tradicionalmente, as segundas voltas tendem a registar menores níveis de participação, mas os politólogos ouvidos pela CNN Portugal alertam que esta eleição, além de “difícil de antecipar”, foge aos padrões habituais. E o fator diferenciador tem nome próprio: André Ventura.
“Esta não é uma eleição qualquer”, sublinha o politólogo Pedro Silveira”. “Se fosse uma segunda volta entre dois candidatos dos partidos tradicionais, a ideia de uma maior abstenção faria todo o sentido. Mas aqui isso pode não acontecer”.
A politóloga Paula do Espírito Santo lembra, também, que as segundas voltas costumam trazer mais abstenção e aponta o caso francês como exemplo. E olhando para as duas últimas presidenciais francesas, foi isso mesmo que aconteceu. Em 2012, por exemplo, na primeira volta, a abstenção foi de apenas 22,7%, com Nicolas Sarkozy e François Hollande a passarem à próxima ronda. Na segunda volta, Hollande saiu vencedor e a abstenção subiu para 30,5%. Mais recentemente, em 2017, Emmanuel Macron e Marine Le Pen foram os mais votados numa primeira volta em que a abstenção foi de 22,2%. Na segunda volta, mesmo num embate com a candidata da extrema-direita, a abstenção subiu para 25% e Macron venceu a eleição. O mesmo veio a acontecer em 2022, exatamente com os mesmos candidatos. A abstenção, que à primeira volta foi de 26,3%, subiu na segunda ronda para 28%.
Uma eleição fora da grelha tradicional
Em segundas voltas, é comum que eleitores que se identificam com candidatos que ficaram pelo caminho optem por não regressar às urnas, sobretudo quando não se reveem em nenhuma das alternativas finais. Desta vez, porém, esse padrão pode ser travado – ou até invertido.
“O que muda é termos um candidato com características muito disruptivas, populistas e com uma taxa de rejeição elevada”, explica Pedro Silveira. “Isso pode funcionar como um fator de mobilização para muitas pessoas que, noutras circunstâncias, poderiam não ir votar”.
Segundo o politólogo, os apoios que António José Seguro tem vindo a receber ilustram bem essa lógica. “Mais do que apoios convictos ao candidato, são declarações de voto contra André Ventura”.
Do lado de António José Seguro, a campanha tem beneficiado de um alargamento progressivo de apoios políticos. O candidato socialista conta já, entre outros nomes, com o apoio declarado de Carlos Moedas, Assunção Cristas, do ex-ministro Pedro Duarte, do Bloco de Esquerda e do Livre – cujos candidatos anunciaram ainda na noite eleitoral o apoio a Seguro na segunda volta. Também Luís Marques Mendes declarou apoio ao candidato do PS na quinta-feira.
O candidato apoiado pelo PS ganhou a primeira volta das eleições com 31% dos votos. (José Coelho/Lusa)
Na Iniciativa Liberal, apesar de o partido não ter formalizado uma posição, a presidente Mariana Leitão assumiu que votará em António José Seguro, ainda que “sem entusiasmo”. Já Henrique Gouveia e Melo optou por reservar a decisão “para mais tarde”, evitando indicar se prefere Seguro ou Ventura. Também o primeiro-ministro Luís Montenegro recusou tomar posição, afirmando que o espaço político do PSD não estará representado na segunda volta.
A campanha para a segunda volta promete, por isso, uma intensidade pouco habitual, com pressão vinda de ambos os lados.
“Vai haver uma forte mobilização das pessoas que veem André Ventura como um perigo democrático e que vão fazer questão de ir votar”, antecipa Pedro Silveira. “Noutra eleição, com dois candidatos apoiados pelos partidos tradicionais, as pessoas poderiam não estar tão mobilizadas por não lhes fazer tanta diferença. Aqui, provavelmente, não vai ser o caso”.
Até ao momento, André Ventura conta apenas com o apoio declarado do seu eleitorado, cuja fidelidade é um dos pontos mais consensuais entre os especialistas. “Quanto mais nos extremos ideológicos, maior a fidelidade do voto”, observa a politóloga Paula do Espírito Santo, sublinhando que este fenómeno não é exclusivo da extrema-direita: “Por exemplo, o PCP tem um voto muito mais fiel do que o PS”.
Ainda assim, essa lealdade pode não ser suficiente numa eleição presidencial. “André Ventura tem uma base de apoio bastante estabilizada e não se antecipa uma grande perda na segunda volta. O problema é a capacidade de crescer: sendo necessário obter 50% mais um, isso torna-se bastante difícil”, explica Pedro Silveira.
A maioria dos eleitores que votaram noutros candidatos dificilmente escolherá André Ventura na segunda volta, refere. “Alguns poderão fazê-lo, mas dificilmente a maioria, porque a taxa de rejeição é muito elevada”.
A tracking poll da Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, Jornal de Notícias e TSF confirmou, com base nos dados de doze dias de análise diária, que caso André Ventura passasse à segunda volta, fosse com quem fosse, perdia sempre – não ultrapassando os 30% contra nenhum dos quatro principais adversários – ao contrário de António José Seguro, que ganhava sempre.
A ausência de indicação de voto, especialmente no caso de Henrique Gouveia e Melo, pode gerar uma dispersão significativa, refere Paula do Espírito Santo. “Os votos que teve são muito transversais, da esquerda à direita. Não indicando ele um apoio ou uma preferência de voto significa que vai haver uma dispersão de votos que pode, no limite, conduzir à abstenção”.
Essa “orfandade eleitoral” contribui para um cenário aberto e volátil, admite. Embora historicamente residuais, os votos em branco e nulos entram agora no debate como possível sinal de protesto. “Têm vindo a aumentar de forma muito gradual, mas nunca tiveram grande expressão”, recorda a politóloga.
Ainda assim, admite que esta eleição possa abrir espaço a algo novo. “Agora, podemos vir a ter um novo fenómeno sociológico: um voto em branco como expressão de descontentamento com a oferta política. A abstenção pode significar desinteresse ou alheamento, mas o voto em branco tem uma força diferente”.
O eventual crescimento da abstenção, contudo, não beneficiaria nenhum dos candidatos. “Não favorece André Ventura, mas também não favorece António José Seguro. São votos desperdiçados, com um efeito sobretudo negativo”, acrescenta Paula do Espírito Santo.
“A vitória já existe”
Independentemente do resultado, André Ventura já garantiu um ganho político relevante. “Chegar à segunda volta é, por si só, um grande prémio”, afirma a politóloga.
André Ventura conta com uma base de eleitores muito fiel. (Tiago Petinga/Lusa)
À semelhança do que acontece em países como França, a presença reforçada da extrema-direita numa segunda volta presidencial tem um significado que ultrapassa o cargo em disputa. “É uma eleição unipessoal, mas também uma eleição por extensão partidária. Qualquer crescimento reforça a ideia de uma força política em ascensão”.
Num partido fortemente centrado na figura do líder, qualquer avanço eleitoral tem um peso simbólico elevado. “O grande objetivo é aumentar a quota eleitoral e demonstrar força mobilizadora, algo que pode ser politicamente conveniente em futuras eleições legislativas”.
Por isso, conclui a politóloga, “independentemente de crescer muito ou pouco, a vitória já existe: é ter chegado à segunda volta”.
A campanha será, ainda assim, marcada por uma forte dramatização por parte de André Ventura, que deverá explorar ao máximo este momento político, considera Pedro Silveira. Essa dramatização, acrescenta, beneficia o líder do Chega mesmo em caso de derrota. “Ele ganha sempre: se ganhar, ganha, se perder, também ganha, porque reforça o discurso antissistema que lhe tem, até agora, permitido crescer, implementar o partido”.