Em 1991, Sergei Krikalev foi enviado para a estação espacial Mir numa missão aparentemente rotineira. No entanto, esperou a História que ele saísse da Terra para desmoronar a União Soviética, de que ele era cidadão.
Entre quedas de impérios, revoluções e mudanças de fronteiras, a História esconde episódios tão improváveis que parecem inventados. De facto, existem acontecimentos tão surreais que dizem mais sobre o nosso mundo do que muitos manuais escolares.
Uma dessas histórias envolve Sergei Krikalev, um homem que partiu da Terra como cidadão de uma superpotência e regressou meses depois sem país.
No dia 18 de maio de 1991, o cosmonauta Sergei Krikalev partiu da Terra rumo à Estação Espacial soviética Mir.
Enquanto lá estava, o país que o tinha enviado deixou de existir, tornando Krikalev, pelo menos durante alguns meses, o “último cidadão soviético”.
Este acontecimento é, por si, curioso, mas a questão não se ficou por aí.
A Estação Espacial Mir e a orla da Terra observadas a partir do Orbiter Endeavour, durante a missão STS-89 da NASA, em 1998. Crédito: NASA, via Space.com
Cosmonauta foi obrigado a permanecer no espaço mais tempo do que o esperado
O cosmonauta Krikalev cresceu em Leninegrado, e formou-se em engenharia mecânica antes de começar a trabalhar como engenheiro de foguetões na NPO Energia, onde, entre outros projetos, integrou a equipa de resgate quando a estação espacial Salyut 7 falhou, em 1985.
Pouco depois, foi selecionado como cosmonauta e passou anos em treino, trabalhando em tudo, desde reparações da estação espacial até caminhadas espaciais.
Sobre a missão histórica de 1991, tudo soa um tanto surreal. À medida que a nave que transportava Krikalev e mais dois colegas se aproximava da Mir, o sistema de orientação falhou, obrigando Krikalev a acoplá-la manualmente, sabendo que qualquer movimento errado poderia ser fatal.
Depois de conseguir acoplá-la, os cosmonautas, juntamente com a primeira astronauta britânica, Helen Sharman, entraram na estação, conforme contado.
O cosmonauta Sergei Krikalev a observar, através do módulo de serviço Zvezda da Estação Espacial Internacional, durante a Expedição 1 (2000-01), o Space Shuttle Atlantis a aproximar-se para a acoplagem. Crédito: NASA, via iflscience.com
Conforme contado ao The Guardian, em 2015, a sorte de Krikalev foi gostar de estar na Mir, pela “sensação de liberdade que se sente em ausência de gravidade”: “Sentimo-nos como um pássaro capaz de voar!”
Entretanto, à medida que desempenhava as suas funções no espaço, a União Soviética perdia força na Terra.
Foi um processo longo e fomos recebendo notícias, não todas de uma vez, mas ouvimos falar do referendo, por exemplo. Eu fazia o meu trabalho e estava mais preocupado com as pessoas em terra, as nossas famílias e amigos. Nós tínhamos tudo o que precisávamos.
Contou o cosmonauta, que não tardou a ver a sua casa naqueles meses a ser afetada pela política que decorria a centenas de quilómetros de distância.
Com o Cazaquistão, entre outros, a pressionar pela independência, o Presidente soviético Mikhail Gorbachev anunciou que um cosmonauta cazaque substituiria Krikalev quando a sua missão terminasse, por forma a acalmar o governo local.
No entanto, como ninguém no Cazaquistão tinha treino para tal, isso significava que Krikalev teria de permanecer no espaço mais algum tempo.
Sergei Krikalev andou à deriva no espaço durante mais de 311 dias, enquanto a União Soviética colapsava a 400 quilómetros abaixo dele. Crédito: Bill Ingalls/NASA, via Getty Images/Mashable
Ainda que na altura ainda não se soubesse muito sobre os efeitos de estadias prolongadas no espaço, Krikalev estava consciente de alguns dos riscos de permanecer tanto tempo na Mir.
Em outubro, vários dos seus colegas regressaram à Terra no fim da sua missão de quatro meses. Como ninguém tinha experiência suficiente para ficar sozinho na estação, e os soviéticos não tinham dinheiro para enviar outro cosmonauta, Krikalev ficou por lá, a manter a Mir operacional.
Cidadão de nenhures ainda viajou para o futuro cerca de 0,2 segundos
Entretanto, no dia 25 de dezembro de 1991, a União Soviética colapsou, por fim.
Com o colapso, havia ainda menos dinheiro para uma missão que libertasse Krikalev das suas funções. Se tudo falhasse, existia a cápsula Soyuz, que poderia ser usada para escapar, mas isso implicaria abandonar a estação espacial. Sem ninguém para a operar e reparar, seria o fim da Mir.
O argumento mais forte é económico, porque isto permite-lhes poupar recursos aqui. Dizem que é duro para mim, que não é bom para a minha saúde. Mas agora o país está em tanta dificuldade que poupar dinheiro tem de ser a prioridade máxima.
Dizia Krikalev, ainda a bordo da Mir, na altura.
Em janeiro de 2024, o Presidente da Rússia Vladimir Putin nomeou o cosmonauta Sergei Krikalev como enviado para as relações espaciais internacionais. Crédito: Leon Neal/AFP/Getty Images, via Bloomberg
Foram feitos acordos entre os Estados Unidos e a Rússia, garantindo o financiamento necessário para enviar mais cosmonautas e astronautas para órbita.
Três meses depois, a 25 de março, após passar o então recorde de 311 dias consecutivos no espaço, Krikalev regressou à Terra.
Quando partiu, era cidadão de um Estado que já não existia, o que lhe valeu a alcunha de “último cidadão soviético”.
Apesar de ter passado muito mais tempo no espaço do que planeava, voltou diretamente ao treino após regressar e acabou por acumular 803 dias no espaço, batendo recordes anteriores.
Segundo cálculos do Universe Today, graças à relatividade e à dilatação do tempo, viajou para o futuro cerca de 0,2 segundos.




