O impacto da tempestade Kristin “não tem paralelo” com qualquer outra perturbação sofrida pela rede de eletricidade em Portugal continental. As contas divulgadas esta sexta-feira pela E-Redes indicam que vai ter de repor 680 quilómetros de linha de alta tensão só no distrito de Leiria. No total dos cinco distritos mais atingidos, um grupo que inclui ainda Coimbra, Castelo Branco, Santarém e Portalegre, é necessário reabilitar 3.750 quilómetros de redes de média tensão e 24 subestações. A E-Redes não indicou até agora dados sobre as linhas de baixa tensão, que por se situarem perto do cliente final são de mais fácil acesso.

A estes números é preciso acrescentar os danos sofridos pela rede de muito alta tensão. São mais de 5.000 quilómetros de linhas elétricas às quais estão associados centenas de postes quebrados ou danificados — 647 ao nível da alta e média tensão e mais de 60 postes muito alta tensão totalmente desfeitos,

Segundo a REN (Redes Energéticas Nacionais) a depressão que teve o impacto mais forte no litoral centro deixou fora de operação um total de 774 quilómetros de linhas de muita alta tensão, o que corresponde a 7% de toda a rede de transporte. Numa deslocação ao terreno esta sexta-feira, o presidente da REN, Rodrigo Costa, afirmou que nunca tinha havido tanto prejuízo e destruição.

Em declarações à RTP, o gestor recorda uma grande tempestade em 2009 (a Grace que afetou a região oeste), mas esta “foi brutal”. Apesar de ter várias subestação afetadas, apenas uma, a do Zêzere, chegou a ir abaixo porque dois dos três grandes transformadores ficaram inoperacionais logo a seguir à tempestade. Mas, “no meio desta desgraça, conseguimos manter o abastecimento de eletricidade a toda a rede de distribuição”,  num esforço que foi concertado com a Rede Elétrica de Espanha.

Mais de 200 geradores e um super-gerador. Como a E-Redes está a tentar fazer chegar eletricidade a Leiria

Já na rede de distribuição, a recuperação do serviço tem como prioridade a rede de alta tensão e avança com a ajuda de três centrais móveis e mais de 250 geradores que estão também a assegurar o fornecimento de energia elétrica na baixa tensão com prioridade para serviços essenciais, sobretudo hospitais, bombeiros, telecomunicações e fornecimento de água.

Ao início da tarde, estavam cerca de 266 mil clientes por alimentar, estando os meios operacionais concentrados nos distritos de Leiria, Santarém, Portalegre, Coimbra e Castelo Branco, os mais impactados. A grande maioria dos clientes sem eletricidade estão localizados no distrito de Leiria, cerca de 209 mil. Santarém e Portalegre com cerca de 17 mil cada, Coimbra com 12 mil e Castelo Branco com 10 mil.

O presidente da empresa admite que 80% dos fornecimentos podem estar repostos até domingo, o que corresponde a um prazo de cinco dias após o evento. Mas os 20% que faltam pode demorar algum tempo, admitiu José Ferrari Careto em declarações à SIC onde alertou para eventuais surpresas no terreno.

A meteorologia vai agravar-se a partir de domingo à noite, quando se prevê o início de mais um ciclo de vários dias de chuva persistente.

A E-Redes afirma ter mais de 1.000 operacionais no terreno, mas assinala que as condições de mobilidade no terreno e a intermitência das condições atmosféricas estão a condicionar os trabalhos de reparação da rede, fragilizada pela destruição feroz e de grande abrangência dos estragos, sobretudo no distrito de Leiria.