Munido de uma motosserra e com a ajuda de dois vizinhos, Carlos Alberto (na fotografia) recuperou o acesso entre duas aldeias em Ferreira do Zêzere. “Tivemos de fazer isto com as nossas mãos”
Há um caminho estreito entre os eucaliptais que divide o Casal das Aboboreiras do Casal Novo. Quem o atravessa sabe que, a partir dali, não há mais nenhuma saída. Perto, há um letreiro com o brasão daquelas aldeias de Ferreira do Zêzere que insiste: “A União faz a força”. Na manhã a seguir à tempestade, Carlos Alberto, um pedreiro reformado, foi o primeiro a observar o inevitável. “Um tronco gigante caiu mesmo no meio da passagem, aqueles que moram do outro lado estavam encurralados”, afirma o homem de 70 anos, a bordo de um trator verde com restos de telhas e ramos que caíram dentro da sua casa.
Carlos conta que “nunca teve tanto medo”. Não pregou olho e passou a madrugada com a mulher, fechados no quarto, enquanto ouviam a força do vento e da chuva a “abrir buracos e a levantar o cume do telhado”. Só quando amanheceu é que deu conta dos estragos. “Árvores e telhas uns em cima dos outros”, diz, acrescentando que “até medo de voar” tinham. “Nunca vi uma coisa do género”. A lama, as árvores, dezenas de lâmpadas no chão e cabos de eletricidade bloqueavam o acesso entre uma aldeia e a outra.
Marco Ferreira acordou um bocadinho mais tarde. Quando abriu a janela notou uma série de telhas no chão, mas só se apercebeu do “quão grave era” quando olhou para o vizinho Carlos perto da encosta onde está o Casal Novo. Com o filho nos braços, Marco, 45 anos, tinha chegado há um dia para aproveitar as férias da escola em família. Sabia que ia chover, mas o que estranhou foi, de madrugada, o seu smartwatch ter vibrado a pedir que se abrigasse por causa de uma queda brusca de pressão atmosférica.
“Nunca tinha recebido tal mensagem”, conta, explicando que à uma da manhã foi ao quintal e nada lhe pareceu muito anormal. “Estava longe de imaginar a destruição aqui à volta. Carlos e Marco estavam do lado do Casal das Aboboreiras. Do outro lado, em Casal Novo, Carlos Manuel, de 60 anos, “sentia a casa a tremer”. “A noite foi uma tragédia”, diz, segurando os portões da casa.
Estava a dormir num primeiro andar quando um grande vendaval veio. “Estava tudo a tremer sem parar, com uma violência tremenda”. Pensava “que a casa ia rebentar”. “Graças a Nosso senhor não se rebentou, mas aqui à frente, os eucaliptos caíram todos. Eu nunca na minha vida tinha visto nada assim”. No dia seguinte, já a fazer contas aos danos dentro de casa, Carlos Manuel apercebeu-se que estava “encurralado”. “Não tínhamos eletricidade, a rede não funcionava e com os troncos todos não dava para sair daqui”.
Marco Ferreira com o filho no quintal após a tempestade
Depois, aponta para lá daquele caminho estreito cheio de eucaliptais. “A minha sorte foi os vizinhos lá de baixo”. Os vizinhos de Casal das Aboboreiras, o pedreiro reformado e o jovem pai. No trator, Carlos Alberto conta que passou “meio-dia naquilo” com Marco. Pegaram os dois em motosserras e começaram “a cortar e a limpar”.
“Nós somos uma dúzia aqui, e estávamos isolados sem forma de seguir para Tomar, mas os vizinhos de lá nem sair de casa conseguiam”, afirma. “Até agora ainda não apareceu mesmo ninguém para dar uma ajuda. Nada. Têm sido só os moradores, tivemos de fazer isto com as nossas mãos”.
Marco acompanha-o ao mesmo tempo que olha para o seu terreno. “Pegámos em motosserras e começámos a abrir caminho”, diz, lamentando o facto de não terem tido ajuda. “As pessoas não tinham comunicações, nem GNR, nem bombeiros, nem ninguém passou por cá e não sabíamos de nada”.
Quando abriram as vias para a aldeia do lado, Carlos Manuel juntou-se aos dois. “Fomos ajudar-nos uns aos outros, e viemos por ali acima, porque estava tudo no meio da estrada e fechado. Se quiséssemos ir buscar combustível, compras… ninguém passava”.
Nessa manhã, empunhando martelos e motosserras, os três abriram caminho até à casa de Isabel Freitas. “Eles coitados é que vieram limpar isto tudo, porque a proteção civil ninguém cá nos veio proteger, ou ver se tínhamos de comer ou beber. Nada, nada, nada”, conta a reformada de 77 anos que faz questão de dizer a idade para sublinhar que, em toda a sua vida, “nunca até àquele momento” achou que “poderia morrer”.
Isabel Freitas ao pé do pessegueiro que plantou quando tinha 27 anos
Primeiro, conta, “um trovão que ouvi ali para o lado de Tomar.” Nisto,” vem uma chuvada tão grande que era como se fosse um tremor de terra, ainda a oiço na minha cabeça”. “Foi horrível”, conta que abraçou o marido e disse-lhe que “nunca pensei que fôssemos sobreviver”. A olhar para a devastação que esburacou a casa da frente, onde em tempos moraram os seus avós, diz que “se aquilo fosse durante o dia, parte das pessoas morriam todas com a quantidade de coisas a voar”.
A casa de Isabel Freitas ficou “com as telhas viradas ao contrário”, mas o que lhe faz soluçar são as árvores. “Plantei este pessegueiro há 50 anos, era uma noz, vamos ter de o cortar”. “E os pinheiros todos caídos e o meu loureiro, o vento levou tudo”. “E ninguém ainda passou por cá”, conta, explicando que a eletricidade não foi reposta e a comida dentro de casa está a estragar-se. “Há uma catástrofe em Angola ou em Moçambique, Portugal vai logo ajudar e porque é que as outras nações não vêm cá ajudar? Diga lá…”, questiona indignada.
Pouco depois, ouve-se o motor do trator de Carlos Alberto. Isabel manda-o parar e pergunta-lhe quando é que pode ir lá a casa tratar do telhado. “Para a semana vem chuva e, molhado, não dá”, responde-lhe o pedreiro aposentado, que anda “aqui a trabalhar até não poder mais”. Na casa de Carlos ouve-se o vento a soprar contra sacos de plástico pretos a proteger os buracos da telha. “É o que tenho para remediar”. Estão a dar chuva para este domingo. “Se vier aí mais alguma coisa, isto vai ficar tudo estragado”, suspira.