AMOR POR ACASO || Vera e Marcelo conheceram-se numa viagem à Índia, mas passaram despercebidos um ao outro. “Fomos com objetivos completamente diferentes, sem o propósito de encontrar seja quem for”. Meses depois, um reencontro no Gerês mudou tudo
Encontrou o amor num cruzeiro? Fez uma grande amizade numa viagem? A sua história é especial, partilhe-a connosco através do e-mail amorporacaso@cnnportugal.pt
Quando Marcelo e Vera marcaram uma viagem à Índia a partir de pontos opostos da Europa – Marcelo vivia na Suíça e Vera em Portugal – não sabiam que estavam a marcar aquele que viria a ser o seu “ponto de encontro” para o resto de uma vida a dois.
Marcelo, natural de Cinfães, tinha acabado de regressar à Suíça, onde viveu durante sete anos, antes de se mudar para Guadalupe, nas Caraíbas francesas, com a namorada na altura, que faleceu anos mais tarde. De luto, Marcelo decidiu cumprir um sonho que tinham em conjunto – fazer uma viagem à Índia naquele ano de 2016.
Vera morava em Braga e estava “num processo de mudança a nível emocional”. “Eu ia muito numa de me encontrar, de tentar mudar aquilo que tinha sido até o meu estilo de vida até então, muito ligado às questões profissionais, muito workaholic”, conta à CNN Portugal.
“Fomos com objetivos completamente diferentes, sem o propósito de encontrar seja quem for”, observa Vera, que “tinha saído de uma relação já há algum tempo” e prometeu a si mesma que “não queria mais relações”.
Vera, que já tinha viajado sozinha pela Europa em várias ocasiões, não quis “arriscar” fazê-lo na Índia. Por isso, quando nas suas pesquisas deparou com um anúncio para uma viagem à Índia em grupo, só para portugueses, não hesitou. “Pensei: ‘É mesmo isto que eu quero’. Era um grupo pequeno, de pessoas que não se conheciam e que, pela descrição, me permitia fazer esta viagem sozinha, ainda que fosse acompanhada. Portanto, dava-me a segurança e o conforto que eu precisava.”
Marcelo já conhecia o conceito e foi por insistência de um amigo que se inscreveu naquela viagem de dez dias na Índia, em setembro, num grupo com mais sete portugueses.
Uma “viagem muito intensa” e um amor que não o foi “à primeira vista”
Quando, por fim, se conheceram, “não foi amor à primeira vista nem nada do que se pareça”. Marcelo confessa que estava tão focado na viagem em si que nem reparou se “a Vera era bonita ou interessante” e Vera, por sua vez, estava a tentar absorver o “choque” cultural do país.
A viagem revelou-se um desafio para ambos. “Foi um murro no estômago, como a Vera costuma dizer”, começa por dizer Marcelo. “Se nós viajarmos para a Índia com uma mentalidade muito europeia, efetivamente o choque é muito grande. As desigualdades são imensas, a pobreza é gritante, tudo aquilo que o país tem de mais bonito – as cores, as pessoas – também tem de degradante”, complementa Vera, que viria a perceber, ao longo da viagem, que a ideia que tinha inicialmente da Índia como um retiro espiritual não correspondia à realidade.
“Eu ia à espera de encontrar uma paz que não conseguia encontrar. Pensei que ia chegar lá e ia ter um espaço onde pudesse estar tranquila. Mas quando me afastava do grupo, olhava à minha volta e tinha uma dezena de homens a olhar para mim, muito sérios, porque tudo o que é estrangeiro, ainda para mais uma mulher europeia, chama a atenção.”
Ambos recordam aqueles dias na Índia como “uma viagem muito intensa”. Durante aqueles dez dias, percorreram Nova Deli, Varanasi, Agra e Jaipur. Visitaram templos, assistiram aos rituais no rio Ganges. Lembram-se de terem ficado impressionados com o lixo no chão – “o próprio chão parecia quase um tapete de lixo”, descreve Marcelo – e o cheiro a urina nas ruas. “Mas passado dois ou três dias, parece que já te esqueceste”, relativiza.
Ao longo da viagem, o grupo foi ficando mais unido. “Ninguém se conhecia, havia só um casal, mas de resto éramos todos solteiros”, conta Vera. “Criou-se ali um grupo bastante unido, mas muito respeitador também dos momentos de cada um.”
Vera e Marcelo conheceram-se numa viagem em grupo à Índia. “Não foi amor à primeira vista” (Cortesia de Vera e Marcelo)
Por isso, mesmo depois da viagem, o grupo foi mantendo contacto nas redes sociais. Apesar do “desafio”, tanto Vera como Marcelo saíram da Índia com o desejo de querer voltar.
O regresso inesperado e o ponto de (re)encontro
Meses depois, em março do ano seguinte, Marcelo comunicou ao grupo que iria regressar a Portugal. Mesmo assim, a distância continuou a separá-los: Vera vivia em Braga e Marcelo no Porto.
Até que, alguns meses mais tarde, Vera recebeu uma mensagem. Marcelo tinha visto as fotografias que Vera publicara no seu blogue pessoal de uma caminhada que tinha feito no Gerês e perguntara-lhe dicas de como viajar até lá. “E começámos a falar sobre isso mais amiúde, isto já em finais de maio, por aí. Eu na altura disse-lhe: ‘Quando passares por aqui para ires às caminhadas, avisa-me que eu faço-te companhia.”
Se a viagem à Índia foi o ponto de partida para se conhecerem, a caminhada no Gerês fez o resto. A partir dali, seguiram-se outras caminhadas pela natureza, sempre em conjunto. “As caminhadas serviram para conversarmos muito. Éramos capazes de estar quatro, cinco horas a caminhar, e normalmente íamos essas quatro, cinco horas a conversar. E isso permitiu conhecermo-nos”, conta Vera.
“O bom de nós não andarmos à procura de nada é que nenhum de nós estava a tentar agradar o outro. Então todas as nossas conversas eram muito honestas”, nota Vera. “Tudo o que nós partilhávamos, o que gostávamos, o que não gostávamos, foi sempre tudo honesto, porque não estávamos ali para agradar um ao outro. E penso que foi nessa honestidade que depois o amor surgiu e cresceu.”
As aventuras na natureza encurtavam a distância entre ambos. Durante cerca de um ano, Marcelo fez várias vezes o percurso Porto-Braga para estarem juntos. “Foi um grande sacrifício na altura”, reconhece Vera. “A nossa vida era muito corrida, mas, mesmo assim, conseguimos encontrar espaço para fazer coisas.”
O casal rumou até à Galiza para percorrer os Caminhos de Santiago. Hoje, recordam-na como uma das viagens mais marcantes que fizeram em conjunto (Cortesia Vera e Marcelo)
Por essa altura, percorreram juntos os Caminhos de Santiago. Ambos recordam essa viagem como a derradeira caminhada, que dissipou todas as dúvidas e desvendou certezas. “Não só pelo significado de fazer os caminhos, a nível individual, mas foi também um período muito importante para nós como casal, para falarmos sobre muita coisa.”
“E também para ver se aguentávamos tanto tempo juntos”, complementou Marcelo, entre risos. “Foram sete dias, 24 horas sobre 24 horas. Foi a primeira viagem em que passámos tanto tempo juntos, e ainda para mais com um lado que nos colocou mais à prova, do sofrimento, da dor.”
“Ajudámo-nos imenso um ao outro. Tivemos alguns momentos difíceis, porque nos Caminhos de Santiago às vezes acontecem coisas que não estamos à espera”, continua Marcelo. Mesmo com todas as adversidades, Marcelo recorda esta viagem como um momento “muito marcante” para ambos.
O mundo que se abriu ao acaso
Foi, aliás, por esta altura, que ambos criaram um blogue para partilhar as experiências em conjunto. Já o faziam em separado, antes de se conhecerem, e resolveram unir os projetos – Marcelo tira as fotografias, Vera escreve. Assim nasceu o Ir em Viagem.
Desde então, Vera e Marcelo já percorreram o mundo em conjunto. Viajaram para São Tomé e Príncipe, visitaram o Brasil, foram juntos a Guadalupe. “Temos feito também muitas viagens na Europa, não só city breaks, mas roadtrips também”, acrescenta Vera. Foram descobrir Cracóvia, passearam por Itália, visitaram vários pontos de França e da Suíça.
Vera e Marcelo em São Tomé e Príncipe, uma das primeiras viagens internacionais que fizeram em conjunto (Cortesia Vera e Marcelo)
Em 2020, o casal tinha tudo planeado para uma viagem de 45 dias à Indonésia. “Era aquela viagem que achávamos que ia mudar o rumo da nossa vida, estávamos a apostar as fichas todas”, confessa Vera. Mas a pandemia obrigou a cancelar os planos.
“A única hipótese que tivemos naquela altura foi fazer uma roadtrip pelo interior do país”, conta Vera. Juntos, cruzaram Portugal de um lado a outro numa van, que tinham alugado na altura. “A experiência foi tão espetacular que, um ano depois, acabámos por comprar uma.”
Vera e Marcelo transformaram a van que os acompanha nas roadtrips. Chamam-lhe “borboleta”. “Não há caminhada que façamos que não apareça uma borboleta amarela. Achamos que é a nossa estrelinha da sorte” (Cortesia Vera e Marcelo)
Quase dez anos depois, Vera e Marcelo olham para aquela viagem à Índia como “um acaso” que os juntou para sempre. Afinal, foi preciso rumar ao outro lado do mundo para se conhecerem. Prometeram um ao outro que vão voltar, desta vez em casal e com o mesmo propósito: estarem ao lado um do outro, seja onde for.
“A verdade é que foi a Índia que nos fez encontrarmo-nos um ao outro, porque certamente de outra forma não nos teríamos encontrado em Portugal”, assume Vera. “Tínhamos estilos de vida diferentes, até formas de estar na vida. Por isso, a Índia foi um ponto de encontro, um acaso. Foi um acaso feliz, mas foi um acaso.”
Encontrou o amor num cruzeiro? Fez uma grande amizade numa viagem? A sua história é especial, partilhe-a connosco através do e-mail amorporacaso@cnnportugal.pt