Fosse quem fosse o tenista a levantar os braços após um championship point na Rod Laver Arena, estaria a fazer história. No papel e na biologia. E a biologia, no final, teve o seu papel. Aos 22 anos e 272 dias, Carlos Alcaraz venceu pela primeira vez o Open da Austrália (2-6, 6-2, 6-3 e 7-5), batendo na final Novak Djokovic, 38 anos, oito meses e 11 dias, a tentar o seu 11º título em Melbourne, o 25º em majors, em busca se tornar no tenista mais velho a vencer um título do Grand Slam na Era Open.

E no primeiro set pareceu possível, pareceu naqueles 30 minutos que a regeneração muscular tinha encontrado em Novak Djokovic um glorioso parceiro de negócios, depois do sérvio ter deitado abaixo, nas meias-finais, talvez o maior favorito à vitória no primeiro Grand Slam do ano, Jannik Sinner, em cinco sets e quatro horas de esforço. Porém, seguiu-se a realidade: a conjugação da lógica do tempo e de, do outro lado, estar o protótipo mais notável alguma vez desenhado para o jogo de ténis. Alcaraz, claro, não é perfeito, não é totalmente dominador, mas estando com a mente em prados verdejantes, é muito difícil de travar, seja qual for a coutada.

O espanhol, no primeiro torneio sem o seu treinador de sempre, Juan Carlos Ferrero, afastou dúvidas sobre uma potencial influência desta mudança sísmica na sua equipa e no seu dia a dia: venceu na Austrália pela primeira vez num torneio onde apenas nas meias-finais pareceu encostado às cordas, para, no seu jeito habitual, conseguir sair com graciosidade de uma situação apertada, batendo aí um Sasha Zverev que chegou a ter um break à maior no 5º set. Como um artista de circo, Alcaraz tem o dom da fuga, um escapista de raqueta na mão.

Não haverá, portanto, qualquer mazela emocional da separação, ou pelo menos assim pareceu durante estas duas semanas. Os tenistas saberão melhor do que a narrativa escrita por outros o que é mais lógico para si.

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Fred Lee

Open da Austrália: Alcaraz impôs a Djokovic a lógica do tempo e é o tenista mais jovem a vencer os quatro títulos do Grand Slam

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Talvez em outros tempos, quando Alcaraz era um miúdo carregado de talento, mas ainda a construir uma fortaleza dentro da cabeça, aquele primeiro set de Djokovic fosse fatal. O sérvio esteve intratável no serviço, na direita, na gestão de pontos, errando pouco, económico nas jogadas. Só assim, sendo fino e absolutamente competitivo, poderia pressionar alguém fisicamente mais capaz e com uma capacidade tenística estrelar. Quebrado Alcaraz duas vezes, surpreendido o espanhol – e talvez o mundo -, Djokovic abriu a ganhar por 6-2.

Toda a gente terá tido as suas dúvidas, menos Carlos Alcaraz, que logo na abertura do segundo parcial roubou o saque ao adversário. Está mais frio e calculista o espanhol, menos confiante, felizmente para ele, unicamente no seu talento. Já há muito que sabe ler melhor o momento, geri-lo com frivolidade dos predestinados. Dar show em todo e qualquer ponto não se coaduna com listas quilométricas de títulos importantes e Carlitos sabe isso. É certo começou aí também, no segundo set, uma evidente quebra física de Djokovic, mais cansado e, consequentemente, mais atreito a erros não forçados – depois de cometer apenas quatro no 1.º set, subiu para 11 no parcial seguinte.

A questão física tornou-se protagonista, mesmo que Djokovic nunca tenha baixado os níveis de competitividade – isso não lhe está nas entranhas, nas suas células. O 4º cabeça de série ia entremeando fases de evidente fadiga com pontos de uma clarividência extraordinária. Mas Alcaraz passou a ganhar nas jogadas fisicamente mais exigentes, as longas e espectaculares trocas de bola às quais as pernas mais frescas do espanhol respondiam melhor.

No quarto set vislumbrou-se um duelo mais apertado, Alcaraz desperdiçou seis pontos de break para quebrar Djokovic com 1-1 no marcador e o momento criou-lhe alguma mossa na capacidade de resposta: daí até às calendas do parcial, Djokovic agarrou-se ao ser serviço, que voltou a afinar-se, e chegou até a ter um break point que lhe teria permitido servir para levar o encontro para um imprevisível 5º set. Mas Alcaraz, sempre implacável nos pontos de pressão, salvou o momento, festejando efusivamente.

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Quinn Rooney

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Porque talvez ali o espanhol tenha percebido que tinha a final na mão, que tinha dado cabo da derradeira oportunidade para Djokovic renascer. De novo renascer. Um 5º parcial, perante o maior competidor da história do ténis seria emocionalmente difícil de controlar. E com isso na mente, quebraria o sérvio no último momento, de forma quase cruel, fechando o set em 7-5 e somando, aos 22 anos, um sétimo título do Grand Slam a uma lista que se aproxima perigosamente de outros magos da modalidade. Já está num patamar com Mats Wilander e John McEnroe e Andre Agassi e Ivan Lendl estão aí ao virar da esquina.

O rapaz de Múrcia, que ainda em 2021 andava a ganhar torneios secundários em Portugal, vai a caminho da lenda. E para isso é preciso derrubar ideias, um outro rei, de outra geração. Ser frio quando do outro lado está um dos maiores. Se Alcaraz se colocou nesta posição, é também porque se tornou esse jogador mais calculista nos momentos solenes. A final deste Open da Austrália esteve longe de ser um espectáculo memorável, como outros já protagonizados por Alcaraz, mas é cada vez mais assim que o espanhol se vai agarrando à história.

Já Novak Djokovic, resnacido também nos corações dos adeptos, que se pelam por uma história de inesperada superação, despediu-se de Melbourne falando de quão bonita foi a viagem. Ali ganhou 10 títulos. Este domingo perdeu a sua primeira final de sempre no Open da Austrália. Ficou a sensação que talvez já só volte como Rafa Nadal, que ali esteve a observar, na bancada, Alcaraz a roubar-lhe mais um título de precocidade.