Poucos dias depois do episódio da captura de Maduro, vários utilizadores do Polymarket, uma plataforma de apostas online norte-americana, reagiram com revolta após a mesma ter decidido não pagar aos apostadores que previram uma invasão da Venezuela pelos Estados Unidos. Segundo a revista Forbes, o Polymarket argumentou que a captura de Nicolás Maduro não constituía uma invasão e que a resolução da aposta dependia de os EUA assumirem o controlo directo de alguma parte do território venezuelano.

Só o tópico EUA-Venezuela gerou um volume enorme de apostas nesta plataforma que ultrapassou os 87 milhões de dólares (cerca de 74 milhões de euros), que foram depositados relativamente à possibilidade de um conflito entre os dois países. Mas nas últimas semanas, as atenções deslocaram-se para o tema EUA-Irão. Desde os protestos no final de Dezembro, quando a possibilidade de um ataque norte-americano ao regime Iraniano aumentou, outras centenas de milhões de dólares correram para este “mercado”.

De acordo com o Wall Street Journal, algumas horas antes de Trump ter ordenado a entrada das forças especiais no país da América do Sul, um “apostador misterioso” ganhou 400 mil dólares (cerca de 343 mil euros) após apostar na captura do Presidente da Venezuela, tendo ganho 12 vezes o valor apostado, levantando suspeitas sobre a possibilidade de troca de informações privilegiadas. Algumas piadas na Internet dizem ter sido Barron Trump, o filho do Presidente dos EUA.

Estas situações estão a despertar um debate sobre a natureza destas plataformas de apostas online, mais conhecidas por “mercados de previsão”. De acordo com o Financial Times, segundo empresas de criptomoedas, estas plataformas viram o volume de apostas crescer de 100 milhões de dólares (cerca de 85,8 milhões de euros) em 2024 para 13 mil milhões (cerca de 11,1 mil milhões de euros) em Novembro de 2025.

A ascensão do Polymarket

Embora existam semelhanças, há diferenças fundamentais entre o Polymarket e outras casas de apostas tradicionais. No Polymarket não é possível apenas apostar em eventos desportivos, mas também no desfecho de eventos políticos, culturais ou tecnológicos. É possível apostar em “quase tudo”, escreve a The Atlantic. No site da plataforma, pode apostar-se se Taylor Swift ficará grávida em 2026, em quantos tweets Elon Musk fará num dia ou até no regresso de Jesus Cristo.

Cada aposta funciona como uma acção vinculada à probabilidade do desfecho de um evento. Geralmente, os utilizadores podem posicionar-se a favor ou contra. Se o desfecho se concretizar, o utilizador recebe um dólar por cada acção que comprou; caso contrário, perde o investimento.

O tema mais comum entre os apostadores, para além do desporto, é a política. O Polymarket tornou-se famoso na última eleição presidencial norte-americana, disputada entre o actual Presidente, Donald Trump, e Kamala Harris, que gerou um volume de 3,2 mil milhões de dólares (cerca de 2,7 mil milhões de euros). Na altura, ao contrário da maior parte das sondagens que davam empate entre os dois candidatos, a maioria das apostas no Polymarket dava a vitória a Trump.

Segundo a Forbes, “a plataforma tem-se movido mais rapidamente do que as instituições tradicionais concebidas para interpretar o mundo que nos rodeia”.

Também durante a corrida para o lugar de mayor de Nova Iorque, as probabilidades no Polymarket inclinaram-se de forma decisiva para um favorito muito antes de qualquer sondagem ou órgão de comunicação social reflectir sobre uma possível vitória de Zohran Mamdani, que acabou por vencer. Este fenómeno repete-se em diversos contextos — desde política a economia e cultura. O mercado de previsões antecipa tendências que os analistas convencionais só reconhecem posteriormente.

Logo após as eleições norte-americanas, Eric Zitzewitz, professor de Economia na Universidade de Dartmouth, afirmou em conversa com a CNN que “a eficiência dos mercados de previsão é semelhante à dos mercados financeiros”, explicando que um grande número de pessoas com dinheiro em jogo consegue prever melhor um resultado do que qualquer especialista isolado.

É por isto que nas últimas semanas alguns dos principais órgãos de comunicação norte-americanos, incluindo a CNN, a CNBC e o The Wall Street Journal fecharam acordos com mercados de previsão e passaram a incorporar informação destas plataformas nas suas coberturas noticiosas.




No site do Polymarket é possível ver um gráfico em tempo real que funciona como um mercado e representava as flutuações das probabilidades de vitória de cada um dos candidatos às eleições presidenciais portuguesas
Website: Polymarket

“Já foram um fenómeno de nicho, inicialmente abraçadas por obcecados por política que queriam apostar nas eleições presidenciais. Agora, os mercados de previsão estão em todo o lado e são uma presença inevitável na política e cultura americanas”, escreve o New York Times.

Mas não é só do outro lado do Atlântico. Os mercados de previsão também já chegaram a Portugal. Actualmente, existe um “mercado” para as eleições presidenciais portuguesas marcadas para o dia 8 de Fevereiro, que até agora já movimentou cerca de 100 milhões de euros, sendo este até um dos tópicos mais concorridos no Polymarket.

No entanto, o Polymarket e o Kalshi, outro mercado de previsão, são ambos ilegais em vários países, incluindo Portugal. Segundo o Apostalegal, “nenhuma das casas de apostas legais em Portugal permite apostas em eventos políticos ou culturais”. Contudo, o uso de criptomoedas para adicionar dinheiro a estas plataformas torna possível contornar as leis locais e usá-las em qualquer parte do mundo. Nos EUA, os mercados de previsão operam de forma legal, mas dentro de limitações regulamentares.

A economia da atenção

Shayne Coplan, fundador da plataforma, escreveu há umas semanas que “as pessoas ganharam maior claridade sobre o mundo graças ao Polymarket”, defendendo que os mercados de previsão oferecem uma leitura mais honesta da realidade. Esta lógica parece reflectir-se numa geração para quem eventos políticos, económicos e até geopolíticos são cada vez mais vistos como apostas informadas.

Numa outra reportagem do New York Times, Joel Holsinger, um jovem que ganhou milhares de dólares a negociar contratos políticos na plataforma Kalshi, é descrito como um arquétipo do trabalho da sua geração: alguém que transforma incerteza, volatilidade e atenção permanente às notícias em rendimento, movendo-se num espaço híbrido entre informação, risco e jogo.

É neste contexto que surge Kyla Scanlon, uma jovem criadora de conteúdo que se tornou famosa nas redes sociais por explicar temas de economia e finanças em plataformas onde este tipo de análise raramente circulava, mas onde a maioria dos jovens passa hoje grande parte do tempo. Numa entrevista ao New York Times com o jornalista Ezra Klein, em Julho de 2025, Scanlon — nascida em 1997 — falou da “rejeição atrás de rejeição, ou da sensação de rejeição” vivida pela geração Z, um sentimento que, segundo ela, “cria elementos niilistas que se reflectem na forma como esta geração gasta, poupa ou investe”.

Klein referiu que Scanlon “reporta e teoriza sobre aquela [economia] em que a geração Z foi lançada — uma economia que funciona de forma muito mais digital, onde a atenção impulsiona o capital em vez de ser o capital a impulsionar a atenção”.

Scanlon refere-se frequentemente à “atenção” como uma “nova infra-estrutura” fundacional da economia. Para ela, “a base económica já não é algo como a terra — que requer trabalho físico, uma pessoa, capital ou dinheiro real”. “É a atenção, e depois a narrativa. A história que se conta para ganhar essa atenção é o capital que inflaciona a própria atenção.” Se alguém quiser criar valor, tem de “construir atenção”, conclui.

O conceito de “economia da atenção” foi criado pelo psicólogo e economista Herbert A. Simon nos anos 1970, quando percebeu algo simples, mas profundo: quanto mais informação existe no mundo, mais escassa se torna a nossa atenção. Como o próprio escreveu, “uma abundância de informação cria uma pobreza de atenção”.

Scanlon usa o exemplo dos influencers, que conseguem criar valor económico real apenas por captarem atenção, como uma manifestação clara desta nova economia. Mas, para a jovem criadora, os mercados de previsão são “o melhor exemplo” de como a atenção se transformou numa infra-estrutura económica concreta. Nas suas palavras, “a especulação é agora a camada operacional. Operacionaliza a atenção e fá-la circular pelo mundo, porque agora é possível atribuir valores monetários reais à quantidade de atenção que se consegue reunir.”

O caso do apostador que ganhou 300 mil dólares (cerca de 257 mil euros) ao apostar em Mamdani ilustra perfeitamente este mecanismo: identificou para onde ia a atenção mediática, percebeu que a narrativa dominante estava errada e apostou contra a corrente. Transformou a má distribuição da atenção colectiva em lucro real através da especulação nos mercados de previsão.

Na mesma entrevista, Scanlon e Klein concluem que tanto a indústria da inteligência artificial como a Administração Trump compreendem perfeitamente esta dinâmica: ambos sabem que, numa economia em que a atenção é a nova moeda, controlar as narrativas e monopolizar a atenção é controlar o próprio motor da economia.

“Trump é o primeiro Presidente híbrido humano-algoritmo — governa através de publicações no Truth Social, de reacções dos mercados obrigacionistas e de sinais directos do mercado”, afirma Scanlon sobre Trump.

A captura de Nicolás Maduro e o volume de atenção — e capital — que movimentou no Polymarket é, para Ezra Klein, um exemplo desta fusão entre mercado e política. Na economia da atenção, o poder político não se manifesta apenas através de leis e deliberações, mas através de eventos que captam o olhar colectivo.

O jornalista norte-americano acredita que a Administração Trump “opera não tanto através do trabalho monótono de regras, leis, legislação e deliberação, mas através do espectáculo, através do significado de espectáculos específicos” — acções calculadas para monopolizar a atenção e, consequentemente, mover os mercados. “A Venezuela foi um espectáculo”, conclui.