Polícias investigam possível envolvimento do PCC. Perito explica o funcionamento desta espécie de máfia brasileira do crime que domina toda a logística do tráfico de droga desde a selva amazónica até ao consumidor europeu

O semi-submersível que transportava 9 toneladas de cocaína – a maior apreensão de droga alguma vez feita em Portugal -, detectado no final de janeiro nos Açores, podia pertencer a uma das maiores organizações criminosas brasileiras. O Exclusivo da TVI apurou que esta é uma das suspeitas da investigação, bem como que o alerta recebido inicialmente dizia que estariam a caminho duas embarcações do mesmo género. 

A suspeita de que a droga pertence ao Primeiro Comando da Capital (PCC) – a maior organização criminosa brasileira – também existe do outro lado do Atlântico. 

Rodrigo Duton, polícia no Rio de Janeiro e pesquisador na área do crime organizado transnacional explica que “o PCC é o grande hub logístico desse tráfico transatlântico de cocaína”, com capacidade de “pegar as drogas nos países andinos e fazer chegar aos consumidores”. 

Normalmente o PCC tem brasileiros nas suas operações e neste caso os quatro tripulantes detidos tinham nacionalidades colombiana e venezuelana, mas isso não impede Rodrigo Duton de acreditar que a droga seria desta organização: “Temos sempre de considerar que os criminosos não são bobos. Se é mais do que sabido que o PCC usa nacionais brasileiros, porque não ‘batizar’ um colombiano ou um venezuelano e trazê-lo para a organização? Temos de investigar isso”, diz o especialista, que recorda que o PCC tem características da máfia italiana, nomeadamente através de ritos de passagem – chamados de ‘baptismos’ – que permitem aos criminosos entrar na organização. 

Três semi-submersíveis em menos de um ano

Apesar de ser um método de tráfico com décadas do outro lado do Oceano Atlântico para levar droga da América do Sul para a América Central e depois para os EUA, na Europa o primeiro semi-submersível apenas foi detectado em 2019 na Galiza, Espanha. 

Em Portugal a primeira embarcação deste género foi detectada em março de 2025, mas desde aí já foi encontrada outra em novembro e agora uma terceira no final deste janeiro de 2026 – sendo impossível saber se outros semi-submersíveis passaram sem ser detectados pelas autoridades. 

A operação do final de janeiro teve a colaboração e articulação da Polícia Judiciária com autoridades dos Estados Unidos da América e do Reino Unido, num trabalho conjunto entre a PJ, Marinha e Força Aérea. 

Produzidas no meio da selva para enfrentar o oceano

De construção rudimentar, Rodrigo Duton explica que estas embarcações são produzidas de forma camuflada na selva Amazónica, algures entre o Brasil e a Colômbia. Cada piloto pode receber cerca de 35 mil euros por viagem, enquanto que um tripulante poderá rondar os 8 mil euros. 

“Operar uma embarcação rudimentar e atravessar um oceano… não é tarefa fácil”, afirma o polícia e académico brasileiro que tem estudado as organizações criminosas transnacionais.

Fibra de vidro e madeira

Apesar de muitos lhes chamarem “submarinos”, os especialistas preferem identificá-los como “semi-submersíveis” tendo em conta que não têm capacidade para ficar totalmente submersos com água. 

A sua construção é feita com fibra de vidro e madeira para escapar aos radares e detectores térmicos, num formato que permite ficar quase ao nível da água – camuflados pelas ondas -, apenas com uma pequena parte de fora para que o motor possa funcionar e para que os gases emitidos pela cocaína num espaço fechado não sejam insuportáveis para os tripulantes.   

O semi-submersível encontrado no final de janeiro no mar dos Açores transportava 300 fardos de cocaína – cerca de 9 toneladas – que valiam centenas de milhões de euros no mercado Europeu.

Cocaína para lanchas rápidas

As embarcações semi-submersíveis navegam normalmente longe da costa para evitar que sejam detectadas. O transbordo da droga costuma ser feito em alto mar para um barco de pesca ou para uma lancha rápida como aquelas que têm sido cada vez mais encontradas na costa de Portugal Continental. 

O PCC, que a investigação suspeita que pode estar na origem da droga agora apreendida,  tem sido identificado como uma das principais ameaças à segurança nacional, levando as polícias portuguesas a falar e colaborar com as autoridades brasileiras. 

O último número conhecido apontava para perto de uma centena de membros desta multinacional do crime a viver em território português. 

Um dos líderes do PCC foi preso há dois meses em Cascais, onde vivia num condomínio de luxo que custaria 7 mil euros de renda por mês.