Storm, nome fictício, descobriu que Maduro nunca esteve tão acessível. À distância de uma carta e pelo preço de um selo. A jovem de 21 anos resolveu aproveitar o facto de Nicolás Maduro estar permanentemente no Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn, Nova Iorque, para escrever ao Presidente capturado e detido pelos Estados Unidos da América (EUA). E, através, dela, uma centena de venezuelanos decidiu fazer o mesmo.

Desengane-se quem possa achar que o conteúdo destas mensagens é de alento, como foram outras, entretanto noticiadas pela Reuters. Desta vez, com estilos para todos os gostos, foram os venezuelanos com menos simpatia pelo Presidente a enviarem as suas queixas, angústias e provocações.

“A ver se o passarinho Chávez te visita aí” — esta é a 11.ª de 35 mensagens incluídas na primeira carta enviada a Maduro. Não é a única que fala do mesmo “Ainda falas com o passarinho?” pergunta a número 6. Os recados fazem referência a um episódio em 2013, ano em que Nicolás Maduro substituiu Chávez (que morreu de cancro) na presidência. Maduro, nessa altura, disse que o ex-Presidente venezuelano lhe apareceu em forma de ave.

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A iniciativa desta jovem venezuelana que vive na Florida nasceu quando Maduro e a sua mulher, Cilia Flores, foram detidos, contou à NBC, sob anonimato, por temer pela segurança da sua família na Venezuela. Storm, (pseudónimo na rede social X), semeou a ideia depois de publicar uma imagem da carta que iria enviar ao ex-líder de Caracas pensando que outras pessoas poderiam querer acrescentar alguma coisa. A de Storm desejava, de forma sarcástica, um bom ano. “Eu sabia que Luigi Mangione (acusado de matar Brian Thompson, CEO da UnitedHealthcare, em dezembro de 2014) recebeu muitas cartas, então pensei que Maduro também poderia receber”, justifica a jovem ao mesmo jornal.

No dia seguinte, Storm acordou com mais de 100 respostas ao seu repto. Eram muitas a pessoas que queriam dizer alguma coisa a Maduro. Insultá-lo (com palavras não publicáveis), contar o seu sofrimento, desejar-lhe igual dor.

“Sentimos por si o mais absoluto desprezo e lamentamos que esteja preso num lugar onde se respeitam os direitos humanos e que não possas experimentar o que sentem todos os teus presos políticos”, lê-se na 19.ª mensagem, que começa por se dirigir a Maduro na terceira pessoa e acaba na segunda.

Storm escolheu 35 desses recados — os mais pessoais, deixando de fora os que usavam vernáculo que poderia impedir que a carta chegasse ao destinatário, segundo as regras da prisão — todos anónimos, e juntamente com a sua mensagem preencheu três folhas de papel que colocou num envelope. Com uma caneta azul, escreveu o destinatário: Nicolás Maduro Moros, número de registo BOP 00734-506. Metropolitan Detention Center. 80 29th Street, Brooklyn, NY 11232. E colocou-o no correio.

A jovem passou a ser uma ponte de comunicação entre a Venezuela e os EUA, partilhando online relatos de venezuelanos. “Tenho recebido mensagens de pessoas sobre as suas histórias. Dos seus familiares, ainda presos, políticos detidos pelo governo”, disse Storm à NBC. “Sinto que tenho a responsabilidade de partilhar isso, porque eles não podem. Eu posso fazer isso da segurança da minha casa, mas eles não”, afirmou.

“Passei 11 anos sem a minha família por tua culpa, e isso nunca esquecerei. Mas agora estou feliz por seres tu a ter de passar tempo sem a tua família, sem a tua esposa, sozinho num quarto frio”, lê-se na carta enviada para o Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn.

Storm e a família fugiram da Venezuela em 2015. O pai, crítico de Chávez, morreu de cancro no ano passado e deixou por cumprir o último desejo: voltar à Venezuela. “Não conseguimos, porque o país não nos deixou voltar”, conta ao mesmo jornal. “Para mim, escrever a carta foi como se eu dissesse: ‘Pai, esta é a tua história.’”

Apesar de tentar manter o anonimato, alguém conseguiu identificar Storm, descobrindo a sua escola e a sua conta de Instagram, conta esta quinta-feira o El País. Com medo de que a sua família na Venezuela sofresse represálias, Storm manteve privada a sua conta. Agora, voltou a torná-la pública e prepara-se para enviar uma segunda carta com as mensagens que lhe remeterem.