O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta terça-feira que a explicação, por parte do Governo, sobre o impacto da depressão Kristin “não correu bem” e defendeu que os apoios devem chegar “nos próximos dias”. Defendeu ainda que é necessário utilizar o PRR para reagir a “esta calamidade” e alertou para a necessidade de haver uma boa comunicação entre todos os responsáveis.
“Não é por eu dizer que o Governo esteve melhor ou pior. Há coisas em que se esteve melhor e coisas em que se esteve pior. A explicação às pessoas, em muitos casos, não correu bem, não correu bem, não correu bem”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, numa visita ao município de Ourém, no distrito de Santarém, uma das zonas afetadas pela depressão Kristin.
O chefe de Estado chegou pelas 21h20 ao posto de comando da Proteção Civil de Ourém, onde começou por reunir-se com o presidente da Câmara Municipal de Ourém, Luís Miguel Albuquerque (PSD), e com o secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha (PSD). Cerca de uma hora depois, prestou declarações aos jornalistas, respondendo a várias questões.
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Acerca da reunião com o primeiro-ministro, que ocorreu horas antes, Marcelo Rebelo de Sousa disse ser necessário “ter noção” do “processo cumulativo psicológico” que as pessoas afetadas pela tempestade estão a viver. E afirmou que o chefe do Governo partilhava da mesma opinião.
Algumas pessoas tiveram, primeiro, uma “reação de apreensão, depois de preocupação, depois de ansiedade ou de angustia”. “É importante perceber, para depois responder ao mais básico das necessidade e prevenir o que pode acontecer no futuro”, disse. “Depois estivemos de acordo sobre aquilo que é mais prioritário nas medidas: acorrer às necessidades básicas na energia, água, comunicações. Fazendo o que é necessário e exercer pressão sobre quem opera nessas áreas para responder mais rapidamente”, continuou.
E depois chegaram a acordo ainda num terceiro ponto: a revisão do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência). “É preciso acompanhar o que o Governo está a fazer nas instituições europeias. Estava a fazer de revisão do PRR e agora tem de ser virado para esta calamidade. E as instituições são as primeiras a aceitar, porque o PRR nasceu de uma calamidade que foi a Covid. Quando há uma situação de calamidade que justifica haver uma reafetação de meios e revisão de prazos, tem de ser feito”, disse.
Na reunião desta terça-feira, Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou também para perguntar ao primeiro-ministro o porquê de não se ativar o Mecanismo Europeu de Proteção Civil face à depressão Kristin e a justificação foi de que “não era um contributo que fazia a diferença”.
“Eu perguntei o que é que isso podia mudar efetivamente e o primeiro-ministro também me explicou é que aquilo que podia ter efeito útil em termos imediatos e rápidos não era um contributo que fazia a diferença. Pronto. Eu aí aceitei. Até prova em contrário, eu parto do princípio de que quem exerce o poder executivo ponderou isso, porque tinha sido ponderado e tinha-se entendido que não justificava”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa.
Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos. O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.