A segunda ronda de conversações entre Rússia, Estados Unidos e Ucrânia, nos Emirados Árabes Unidos, começou ontem, com Moscovo a pressionar Kiev para fazer concessões, principalmente na questão territorial. Para além dos ataques massivos dos últimos dias, incluindo contra infraestruturas energéticas, o Kremlin deixou um recado direto sobre como acabar com o conflito, instando o Governo ucraniano a tomar “decisões apropriadas”.

O primeiro dos dois dias de negociações trilaterais em Abu Dhabi terminou com Rustem Umerov, que lidera a delegação de Kiev, a classificar o diálogo como “substancial e produtivo, focado em passos concretos e soluções práticas”. Após quase quatro anos de conflito e uma última ronda de conversações, realizada em janeiro, sem resultados concretos anunciados, esta nova declaração sem pormenores não revela como ucranianos e russos vão encontrar forma de lidar com as questões em que mais divergem.

Ainda mais com Moscovo a reforçar a linha dura, com o porta-voz da Presidência russa a sublinhar que a posição do país é “bem conhecida”. “Até que o regime de Kiev tome as decisões apropriadas, a operação militar especial continua”, afirmou Dmitry Peskov, logo antes de o encontro começar. A Rússia está representada pelo diretor dos serviços de informação militar, Igor Kostyukov, oficial naval sancionado pelo Ocidente.

A reunião contou com a presença, do lado norte-americano, do enviado especial da Casa Branca, Steve Witkoff, e do genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner. O objetivo é ajudar Kiev e Moscovo a alcançar um acordo, com os ucranianos a defenderem um congelamento das atuais linhas da frente e os russos a reivindicarem o Donbass (Donetsk e Lugansk) por inteiro, mesmo no que diz respeito às partes que não controlam.

A presença de tropas europeias para a manutenção da paz na Ucrânia é outro ponto de impasse, com a Rússia a rejeitar categoricamente a proposta. Mesmo assim, na terça-feira, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, disse no Parlamento ucraniano que estão comprometidos a enviar militares após ser estabelecido um acordo.

As forças russas voltaram a atacar o sistema energético de Kiev, apesar das temperaturas de 20 graus negativos, o que fez com que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, sublinhasse, anteontem, que as atitudes em Moscovo “não mudaram”. “Continua a apostar na guerra e na destruição da Ucrânia e não leva a diplomacia a sério. O trabalho da nossa equipa de negociação será ajustado em conformidade”, prometeu.

“Aceitamos qualquer coisa”

Trump, por sua vez, disse que Putin “cumpriu a palavra” de não atacar a capital ucraniana ou instalações energéticas críticas durante uma semana. “É muito tempo, aceitamos qualquer coisa porque está muito, muito frio lá”, destacou o chefe de Estado americano.

Em destaque

Diálogo Xi-Putin

O presidente russo, Vladimir Putin, elogiou os laços económicos, políticos e de segurança entre Moscovo e Pequim como um fator “estabilizador” em tempos de “crescente turbulência” a nível global, numa videoconferência com o homólogo chinês, Xi Jinping.

Onze mortos

Um ataque russo com munições de fragmentação a um mercado em Druzhkivka, em Donetsk, fez sete mortos e oito feridos. Duas pessoas morreram num ataque com um drone russo na região de Dnipropetrovsk, sendo que, na região de Lugansk controlada pela Rússia, um ataque de Kiev do mesmo género matou outras duas.