“Começámos a ter informação não favorável por volta das 7 da manhã, equacionávamos um cenário muito desfavorável mas não este cenário, [que] é efetivamente muito acima daquilo que seria expectável“, relata. Apesar de a noite desta quarta-feira ter sido de maré vazia, a água não recuou. Pelo contrário, a chuva foi de tal forma intensa que a água continuou a subir ao longo dessas horas.

A bordo do bote seguem alguns bombeiros, membros da proteção civil, da Marinha e funcionários dos serviços de ação social da Câmara Municipal. Seguem também três adultos e duas crianças, que contactaram as autoridades a pedir ajuda para sair de casa. Quase a chegar a “terra”, o barco fica preso na corrente. Várias pessoas que esperavam na margem entram na água, quase até à cintura, para ajuda os tripulantes na reta final do percurso.

O vaivém de barcos repetiu-se toda a noite, em missões de patrulhamento pelas ruas — mesmo que os barcos regressem sem mais pessoas a bordo do que quando partiram. “Estamos a tentar tirar pessoas, que nos solicitam que sejam retiradas das suas casas, uma vez que optaram por ficar inicialmente. Nós tínhamos aqui uma referência, porque fizemos um levantamento porta a porta com todos os nossos técnicos, avisámos as pessoas, solicitámos que, se pudessem, fossem para a casa de familiares”, elaborou.

Beatriz foi uma das pessoas que respondeu ao primeiro apelo feito pelas autoridades e saiu de casa ainda antes de a água lhe bater à porta. E elogia o trabalho que tem sido feito, do contacto direto com a população e da prevenção às atualizações frequentes e aos pontos de situação feitos nas redes sociais. Os elogios fazem eco pelas ruas da freguesia de Santiago, a freguesia “mais afetada” pelas cheias, segundo o presidente da junta, Duarte Dimas.

“Nunca houve um executivo como este”, elogia Badina, que acrescenta que a presença constante das autoridades a reconforta e a acalma. Porém, mesmo esta presença e a solidariedade que despontou entre os salacianos não é suficiente para resolver todos os problemas. Ao fundo da rua, a água impede o acesso às duas únicas farmácias da localidade. Para obter medicação, é preciso sair de Alcácer do Sal, entrar na autoestrada e ir a Grândola, uma viagem de cerca de 20 minutos para cada lado — os restantes acessos entre as duas localidades estão intransitáveis. O trajeto é mais desafiante para aqueles que precisam de medicações urgentes.

Além das farmácias, também as escolas do conselho não irão abrir portas até à próxima semana. Ainda assim, uma outra preocupação ocupa mais espaço aos políticos locais ouvidos pelo Observador: “As populações isoladas e envelhecidas” nas aldeias à volta de Alcácer do Sal. “Algumas localidades já estão isoladas e temos estado a fazer um acompanhamento telefónico com entidades que estão no local”, afirma António Grilo.