Certo é que durante os dias que foram passando houve queixas e gritos por ajuda das populações no terreno, apelos por mais contacto da parte dos autarcas, ministros que cometeram gafes no terreno e uma correção na rota do Presidente da República — que não só acabou por decidir ir às áreas afetadas como quis apontar erros públicos ao Governo, registando publicamente o que correu, até agora, bem e mal.
Em modo professor, Marcelo quis trazer um pouco da realidade das queixas de quem continua a sofrer — “as pessoas querem resolver os problemas concretos da água, da eletricidade, das comunicações, e depois o repor da vida, receber o dinheirinho” — e reconheceu que os políticos têm “responsabilidades” na forma como comunicam, por vezes acabando por “simplificar” (demasiado) a mensagem. “Umas vezes sai bem, outras vezes não sai bem“, acabaria por diagnosticar.
Depois, fez um diagnóstico por partes: Montenegro esteve “bem” quando decidiu ir à sede da Proteção Civil no dia a seguir à tempestade, mas ficou com uma ideia “insuficiente” (que a Proteção Civil lhe passou) sobre a extensão do impacto da tempestade; seguiu para o terreno, “notando” que a extensão é mais ampla e declarando o estado de calamidade, pelo que esteve “bem”; mas volta a subestimar o número de concelhos que precisam dessa declaração (seria alargada a mais nove concelhos no domingo) e está “menos bem, porque demorou tempo a haver essa visão”. “Depois, logo que se teve a visão avançaram as medidas, bem.” Além disso, a explicação às pessoas “não correu bem”.
No Governo, desvaloriza-se ou diz-se simplesmente que “não se percebeu” o que o Presidente da República quis fazer com este diagnóstico. Mas isso é também porque, no Executivo, a resposta sobre o que correu mal ou a ação de ministros específicos é deixada para depois, com um prazo concreto: a próxima segunda-feira. “Até segunda-feira é momento de ação, a coisa está feia. E de recuperação e socorro, preparando a nova vaga. A avaliação não é para agora“, ouve o Observador. Esse tempo virá depois, enquanto se mantêm as dúvidas sobre se responsáveis como a ministra da Administração Interna, sobre a qual já havia dúvidas no PSD e no Governo mesmo antes da tempestade, terão lugar assegurado por muito mais tempo.
No seio do Governo, a consciência de que a situação era “feia” ia-se ganhando à medida que a madrugada do dia 28 de janeiro prosseguia. “Identificada a situação” de crise, e depois de ministros com responsabilidades de coordenação, como António Leitão Amaro, terem conversado com o primeiro-ministro a partir de cerca das sete da manhã, ficou decidido que era preciso ativar o CORGOV (o Centro de Operações do Governo), que é ativado pelo primeiro-ministro em situações de “crises de ordem natural, de origem humana, cibernéticas ou digitais, e físicas”, como ficou decidido após o apagão e depois de se ter estudado modelos internacionais que “serviram de inspiração”.
Foi então preciso criar um grupo digital nessa plataforma, onde continuam a cair “centenas de mensagens” por dia — a articulação é feita assim, mas também em reuniões setoriais e com entidades como seguradoras e construtoras — e decidir os próximos passos. Se no apagão uma das principais críticas tinha sido a demora do primeiro-ministro a dirigir-se ao país, desta vez foi construído um comunicado, assinado pelo gabinete de Luís Montenegro e enviado pouco depois das 9h30 às redações, seguindo “os parâmetros do CORGOV” (que incluem várias questões, como a necessidade de incluir uma estimativa do que pode ser afetado e informar a população do que está a ser feito nesse momento).
Pouco depois das 10h, Leitão Amaro estava no Parlamento para uma audição com os deputados previamente agendada e começava por falar do fenómeno, por ser “a coisa mais séria a acontecer em Portugal” naquele momento — no Governo recorda-se que nessa altura muitos dos que ouviam o ministro ficaram espantados com a declaração. Afinal, em Lisboa tudo não parecia ter passado de uma noite de chuva forte e as comunicações com os locais mais afetados, que trariam histórias dramáticas e até vítimas mortais (a essa hora eram duas), ainda mal tinham começado a chegar.
Se agora se fala de um atraso na reação, no Governo a sua defesa é feita recorrendo ao filme do dia: dois secretários de Estado (da Proteção Civil e da Administração Local e do Ordenamento do Território) foram enviados para o terreno, tendo chegado a Leiria por volta da hora a que o presidente da autarquia ainda estava reunido com os seus presidentes de junta. O Observador contava nesta reportagem que Gonçalo Lopes teve dificuldade em juntar os 20 autarcas, dada a falta de comunicações, tendo sido obrigado a pedir a cada vereador que fosse de carro buscar alguns presidentes de junta a casa, o que pode justificar a hora desse encontro.
Nessa tarde, pelas 13h48 (segundo a hora mencionada por Leitão Amaro em entrevista à CNN), o Governo ativava o sistema europeu de satélites para perceber melhor a extensão dos danos. Passaria os dias seguintes a garantir que não precisava de ativar o mecanismo europeu de proteção civil como um todo (uma pergunta que Leitão Amaro também vai fazendo “recorrentemente” à Proteção Civil, assumiu) porque até ver “a capacidade não está esgotada” e porque, no que toca aos geradores que faltam, o problema será “de logística” — ou seja, de dificuldade a entregá-los nos sítios em que são necessários ou em que possam chegar ao maior número de pessoas, em zonas em que a população está muitas vezes dispersa e isolada.
Entretanto, no Governo, justifica-se que a decisão de “despachar ministros para o terreno” também não foi imediata porque, precisamente, as comunicações “eram difíceis“. Mas acabou por acontecer: no dia a seguir ao de maior impacto, quinta-feira, Montenegro fazia um périplo pelas regiões mais afetadas (voltou esta terça-feira a fazê-lo, precisando de explicar presencialmente as medidas entretanto adotadas em Conselho de Ministros, enquanto algumas pessoas explicavam que não têm sequer conhecimento das medidas por não terem luz, e muito menos televisão a funcionar, em casa).
Os ministros começavam a distribuir-se: responsáveis pelas Infraestruturas, Ambiente, Administração Interna, Defesa, Cultura ou Economia e Coesão Territorial espalhavam-se pelo terreno e pelas televisões, para as entrevistas noturnas dos espaços de informação em que garantiam que este tinha sido um fenómeno “anómalo”, a “pior tempestade de que há registo”, e explicavam as medidas que estavam a ser colocadas em prática.