O ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva defendeu a “acção reformista” do governo de Luís Montenegro, criticando a “falta de coragem” do PS e “impreparação” do Chega perante reformas estruturais, sem as quais Portugal continuará um país europeu “relativamente pobre”.

Num ensaio enviado ao semanário Expresso, o também ex-primeiro ministro social-democrata (1985-1995) estima que Portugal tem de alcançar um crescimento médio anual de 3%-4%, para deixar de ser um país da União Europeia (UE) “relativamente pobre” e que para tal precisa da “reforma da Administração Pública e a redução da burocracia, de que o ministro da Reforma do Estado tem revelado as ideias certas”, nomeadamente com a carteira digital empresarial.

“Ao espírito reformista revelado pelo actual Governo minoritário contrapõe a oposição acções de desgaste visando impedir a concretização das reformas, a que junta a tentativa de governar o país a partir da Assembleia da República. Ao aprovar medidas populistas de redução da receita fiscal e de aumento da despesa pública rígida, procura pôr em causa a sustentabilidade financeira do país, de que o ministro das Finanças tem sido garante. É uma oposição carecida de discernimento que esquece a quase bancarrota a que o Governo do PS conduziu o país em 2011”, critica Cavaco Silva.

“Os progressos na satisfação das reivindicações dos portugueses, nos três anos restantes da legislatura, dependem do discernimento e da firmeza da acção reformista do Governo e do grau de obstrução parlamentar às reformas estruturais indispensáveis”, sublinha.

No actual “quadro reivindicativo e mediático”, admite, “é muito difícil a um Governo sem apoio maioritário na Assembleia da República levar por diante as reformas estruturais exigidas por um crescimento forte da economia portuguesa e o aumento da produtividade”.

Numa análise “claramente negativa” ao espírito reformista das principais forças políticas actuais, Cavaco Silva afirma que o Partido Socialista (PS) governou entre 2015 e 2024 “movido acima de tudo pela preservação do poder, demonstrando uma clara aversão a políticas de cariz estrutural e desperdiçando oportunidades”, enquanto o líder do Chega “procura enganar e iludir os portugueses através de uma gritaria de pretensas ‘verdades’”.

“O PS actual, carecido de discernimento e enrodilhado em preconceitos ideológicos que chocam com a realidade económica e social dos novos tempos e com a instabilidade geopolítica, não manifesta qualquer vontade reformista. É evidente a sua falta de coragem para sequer discutir as mudanças necessárias para que a economia portuguesa se aproxime das mais avançadas da União Europeia”, critica.

Quanto ao Chega, aponta, “trata-se de uma força política desprovida de uma ideologia minimamente coerente que tem revelado uma óbvia impreparação técnica para falar de políticas para o progresso do país e que tem como marca distintiva a retórica da confrontação e o discurso teatral do ódio, do insulto, da calúnia e da mentira”.

O ex-PR escreve ainda que “qualquer invocação comparativa [de André Ventura] com a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni é totalmente despropositada”.

Esta mesma oposição, critica ainda, fez “prova de hipocrisia” na discussão do Orçamento do Estado para 2026, criticando a injustiça na distribuição do rendimento enquanto aprovou “medidas que agravam essa injustiça, como foi o caso das propinas universitárias e a eliminação de portagens em auto-estradas”.

Quanto ao novo Presidente, Cavaco afirma não prever, pelo que enquanto chefe de Estado conheceu dos múltiplos contactos com António José Seguro (então líder do PS), “seja um obstáculo à aprovação das reformas de que Portugal urgentemente precisa”.

“O nível e a qualidade de vida dos portugueses só pode aumentar de forma sustentável através de reformas que possibilitem um crescimento forte da economia e o aumento da produtividade. Só dessa forma o Estado disporá dos recursos financeiros para cumprir as justas aspirações dos portugueses de melhores salários e pensões, mais qualidade dos serviços públicos e impostos mais justos”, adianta.

“Sem as reformas necessárias ao crescimento robusto da economia há um sério risco de reforço das forças políticas populistas e de deterioração da qualidade da nossa democracia”, alerta Cavaco Silva.