Durante anos foi apenas a Transport & Environment (T&E), uma organização não governamental sob a égide da Comissão Europeia dedicada à promoção de transportes sustentáveis no Velho Continente, a divulgar os valores de consumos e emissões poluentes dos diversos tipos de motorizações, com destaque para os híbridos plug-in (PHEV), que o regulador considera terem uma imagem falsamente amiga do ambiente. Inicialmente, anunciavam médias inferiores a 1 litro aos 100 km, apesar de oferecerem potências superiores a 500 cv, o que era altamente improvável. Depois de a União Europeia decidir intervir, alertada pelos dados avançados pela T&E, o erro foi parcialmente corrigido, o que levou o consumo anunciado a subir, mas apenas para menos do dobro. Ainda assim, longe dos valores reais.

Os veículos equipados com mecânicas híbridas plug-in são uma solução interessante para quem procure um modelo que possa realizar deslocações curtas em modo eléctrico, sobretudo em zonas urbanas e semi-urbanas, sem emitir poluentes e poupando a carteira do utilizador (se recarregar em casa), para depois recorrerem ao motor a combustão para continuar a circular. Contudo, enfermam de alguns males. Primeiro, porque está provado que muitos utilizadores raramente recarregam a bateria ou, pelo menos, não o fazem com a regularidade que era pressuposto, para justificar as vantagens fiscais que lhes são atribuídas — com ênfase para os carros de serviço das empresas — e, segundo, porque o consumo que anunciam é ridiculamente optimista.

Todos os veículos novos comercializados na Europa desde Janeiro de 2021 são obrigados a registar e a enviar para o construtor os consumos reais que realizam, bem como as distâncias percorridas, através do On-Board Fuel Consumption Monitoring (OBFCM), com a marca depois a canalizar essa informação para a Comissão Europeia. E foram exactamente estes dados que foram analisados pelo Fraunhofer-Gesellschaft, uma organização alemã com 75 institutos espalhados pela Alemanha, EUA e Reino Unido, com 32.000 funcionários e um orçamento de 3,6 mil milhões de euros para investigação aplicada.

Os dados recolhidos através do OBFCM de 981.035 veículos PHEV, todos eles fabricados entre 2021 e 2023, foram analisados e comparados com os valores de consumo e emissões anunciados de acordo com o método de medição europeu WLTP, sobre os quais incidem impostos e benefícios fiscais na maioria dos países da União Europeia. O resultado, sem surpresa, provou mais uma vez que os PHEV, em condições reais de utilização, consomem três vezes mais do que os valores homologados em WLTP parecem indicar.

De acordo com o Fraunhofer-Gesellschaft, os PHEV anunciam um consumo médio de 1,57 litros/100 km de acordo com o WLTP, mas no mundo real, e mais uma vez em média, saltam para 6,12 l/100 km. Analisando especificamente os PHEV alemães topo de gama, como os SUV da Porsche, o instituto determinou que o consumo rondou 7 litros/100 km, enquanto os PHEV mais acessíveis, de marcas como a Toyota ou a Renault, registam regularmente consumos médios inferiores a 1 litro/100 km. O The Guardian questionou a Porsche sobre a derrapagem entre os valores anunciados e os reais, que assegurou que os valores declarados estão de acordo com a regulamentação europeia.

Os técnicos do Fraunhofer-Gesellschaft apontam quatro razões para o imenso desvio entre os valores reais e os declarados, com o principal a estar relacionado com o facto de os condutores não recarregarem as baterias dos seus PHEV com a devida regularidade, ou pelo menos com a frequência que o regulador estimou. Os dados reais dos consumos provam também que os condutores de PHEV próprios conduzem em modo eléctrico entre 45% e 49% do tempo, enquanto nos condutores em carros de serviço híbridos plug-in esta percentagem baixa para apenas 11% a 15%. Para se ter uma ideia precisa sobre o erro de cálculo introduzido pela Comissão Europeia, o actual sistema WLTP baseia os seus cálculos na perspectiva de os veículos serem conduzidos entre 70% e 85% em modo eléctrico. Pode ler as conclusões do estudo aqui.