“Ni retirada, ni rendición.” Esta era a lei de Esparta em “300”, agora é a lei do Sevilha, exibida numa tarja gigante na superior norte do Ramón Sánchez Pizjuán, estádio antigo em Nervión, bairro da capital da Andaluzia, habituado a tardes de sofrimento e sempre à espera de um milagre. Neste sábado, mais um milagre se materializou. A precisar de ganhar para não se atrasar na luta pela manutenção na liga espanhola, o Sevilha ofereceu mais um milagre à “afición”, um triunfo por 2-1 com reviravolta frente a um Espanyol de Barcelona que também vive a sua crise particular – 18 jogos consecutivos sem vencer, 12 derrotas e seis empates.

Depois da vitória na jornada anterior sobre a Real Sociedad, com um único golo do veterano Alexis Sánchez, o Sevilha voltou a acreditar que era possível voltar a sobreviver à crise – e os seus adeptos, cheios de fé, pintaram de branco as bancadas do Sánchez Pizjuán. Mas o jogo foi exactamente o que se esperava entre dois aflitos, equipas com medo da sua própria sombra e sem vontade nenhuma de arriscar. Na segunda parte, Sánchez ainda fez balançar as bancadas com um golo, mas este não seria válido por posição irregular do chileno.

Pouco depois, os sevilhistas ficaram em silêncio quando viram, aos 56’, o inglês Tyrhys Dolan fazer o 0-1 para o Espanyol, sem qualquer hipótese para Vlachodimos na baliza dos andaluzes. Quando nada o fazia prever, Castrín, central formado na cantera sevilhista, pegou na bola e lá foi ele sozinho até ao golo, com um remate cruzado já dentro da pequena área. Um golo de fé a que se seguiu mais um para lá da compensação. Bola longa para a área catalã, Alexis deu o toque para Akor Adams, e o nigeriano, de primeira, fez o 2-1. Cumprida a lei do Sevilha, ninguém se retirou e ninguém se rendeu.

Uma derrota teria deixado o Sevilha outra vez abaixo da linha de água, mas, como ganhou, subiu ao 12.º lugar, com 40 pontos. Pode terminar a 35.ª ronda abaixo disso, mas o que importa é que três pontos acima do primeiro dos despromovidos, o Alavés, e com outras equipas, como o Espanyol, pelo meio. Ainda não está a salvo, mas pode encarar as três últimas jornadas, frente Villarreal, Real Madrid e Celta de Vigo, com maior optimismo.

De crise em crise

Ver o Sevilha a lutar pela vida na liga espanhola não é nada de novo nos últimos tempos, mas não deixa de ser estranho ver nesta situação uma equipa que venceu por sete vezes a Taça UEFA/Liga Europa, a última das quais em 2023, e que estava habituada aos lugares da frente em Espanha – nos últimos 20 anos, chegou a ser duas vezes terceiro, quatro vezes quarto e cinco vezes quinto. Na época passada, foi 17.º, um ponto acima da despromoção. Como é que isto aconteceu? Como escreveu o jornalista Rafael Pineda no El País, com a “nula capacidade dos gestores do Sevilha em tomar decisões acertadas”.

Segundo escrevia Pineda há uma semana, o Sevilha tem sofrido com a falta de receitas provenientes das competições europeias e tem de lidar com uma dívida de 88 milhões de euros, apresentando perdas consideráveis nos últimos três exercícios. Isso, claro, tem custos na competitividade da equipa. Vendeu os seus jogadores mais valiosos – Lukebakio para o Benfica por 20 milhões, Lioc Badé para o Leverkusen por 25 milhões, entre outros – e apenas investiu 250 mil euros.

Olhando para o plantel dos andaluzes, é uma manta de retalhos de jogadores veteranos a “custo zero” (Alexis Sánchez, Azpilicueta, Suazo, o português Fabio Cardoso) e de emprestados (Vlachodimos, Mendy, Maupay). Nada a ver com as equipas de outros tempos, que tinham Sergio Ramos, Dani Alves, Rakitic, Navas, Luís Fabiano ou Kanouté. Eram obras de Monchi, antigo guarda-redes do clube que se transformou num director-desportivo de eleição – especializou-se em comprar barato e vender caro, mantendo a equipa em alta e os cofres cheios.

Ainda assim, com um plantel “low cost”, o Sevilha está perto da manutenção, o que é visto como fundamental para a sobrevivência do clube. Há planos para a renovação do Sánchez Pizjuán (o clube iria jogar no La Cartuja) e Sergio Ramos, que começou no Sevilha antes de ser figura do Real Madrid e da selecção espanhola e sempre se afirmou sevilhista fervoroso, é o ponta-de-lança de uma proposta para comprar o clube – fala-se de uma proposta superior a 400 milhões. Comprar um clube com dívidas asfixiantes que não está livre de ir para a segunda divisão? Seria mais um milagre.