A ferramenta de IA é muito fiável, realça a médica. “Há lesões que o algoritmo permite identificar e que nos passariam despercebidas“, admite Inês Pereira. “É uma ajuda importante. E os médicos podem ensinar até o próprio algoritmo, para ele aprender e errar menos”, sublinha o diretor do Serviço de Gestão de Tecnologias de Informação, Pedro Teixeira.

A ferramenta é também utilizada pelos médicos de família nos centros de saúde que têm equipamentos de raio-X, e que “não têm muita experiência na identificação de fraturas”, diz Inês Pereira. “O doente está no centro de saúde, e se o algoritmo identifica uma fratura é enviado para o hospital. Se não tem fratura, já não precisa de referenciar para o serviço de urgência, o que acaba por resultar numa poupança de recursos”, realça, por outro lado, Pedro Teixeira. A ULS da Lezíria faz uma avaliação positiva da utilização da ferramenta, que tem ajudado a mitigar as dificuldades de resposta decorrentes não só da carência de ortopedistas mas também de médicos especialistas em Radiologia, uma especialidade onde o SNS tem crescentes dificuldades em reter profissionais.

Voltando a um contexto de urgência, o Hospital de São João (o maior da região norte) tem no terreno, há escassos meses, o projeto ‘Digital Patient’, que tem como objetivo utilizar a IA para resumir os problemas e particularidades do doente a partir do seu histórico. Na prática, quando um utente é admitido na urgência, é criada uma espécie de “nuvem de palavras”, apresentada depois ao médico, e que resume as idas anteriores do mesmo utente à urgência.

“O médico acede ao processo do doente, vê o resumo do doente automaticamente numa nuvem de palavras (em que as maiores palavras são sugestivas de problemas que o doente tem, podem ser doenças, por exemplo), o que o ajuda a fazer perguntas ao utente”, explica o responsável pelo serviço de Inteligência de Dados, Afonso Pedrosa, explicando que os médicos escalados “têm pouco tempo para decidir”, sendo que há casos em que não existe sequer comunicação entre o profissional e o utente.

Apenas um terço das entidades do SNS tem uma estratégia para a Inteligência Artificial

“O doente pode não colaborar ou não ter capacidade de falar”, refere o responsável. “Sem a ferramenta e se o doente não falar, por exemplo, o médico tem de procurar no histórico do doente, em múltiplos registos, para poder caracterizar o background do doente”, o que pode adicionar tempo ao processo, criando entropias no funcionamento da urgência central do hospital, uma das maiores do país, sublinha, acrescentando que o programa informático com IA integrada foi criado com recurso a fundos europeus.

Já no Hospital de Évora, está a ser utilizado, desde março de 2026, um sistema que utiliza IA para elevar a precisão do rastreio do cancro do colo do útero. O programa, designado ‘Genius Digital Imager’, tem como objetivo identificar precocemente “lesões pré-cancerosas e cancerosas do colo do útero com uma eficácia sem precedentes”, explica fonte da ULS do Alentejo Central. “Com este novo sistema, asseguramos o rastreio de toda a região do Alentejo utilizando a genotipagem como teste primário, seguida da citologia nos casos indicados”, referiu, à Lusa.

Apesar do entusiasmo que grassa no SNS com os benefícios trazidos pela IA, também há entidades a alertar para os riscos. No final de 2025, a Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) alertava que apenas um terço das ULS e dos institutos de oncologia dispunha de uma estratégia definida para a IA e que foram detetadas “lacunas significativas” em áreas críticas como a cibersegurança.

“Constatou-se a necessidade de uma maior capacitação para um uso seguro e ético da Inteligência Artificial”, refere a auditoria da IGAS. A inspeção-geral apurou que 14 entidades têm planos de formação em Inteligência Artificial, mas 60% não promovem a literacia digital nessa área para os profissionais de saúde ou para os utentes.

Ao mesmo tempo que aumenta o uso de IA no diagnóstico, no apoio à decisão clínica ou na gestão dos doentes, um outro fenómeno (mais antigo) ganha também maior dimensão: o uso de IA, por parte dos utentes, para esclarecer dúvidas clínicas ou procurar informação sobre doenças ou tratamentos. Em fevereiro, a segunda edição do Estudo Nacional de Saúde – Estado de Saúde Geral da População Portuguesa referia que 40% dos utentes já recorrem à IA para esclarecer dúvidas sobre saúde.

Perante estes resultados, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, avisou que a IA não pode substituir um médico, alertando que ferramentas como o ChatGPT não estão habilitadas a fazer diagnósticos médicos. “É fundamental afirmar que a IA não é, nem pode ser, um substituto do julgamento clínico, da experiência médica nem do contacto humano. O diagnóstico é parte essencial do ato médico, que envolve não apenas dados objetivos, mas também interpretação contextual, escuta ativa e empatia”, afirmou o bastonário, à Lusa.

O bastonário acrescentou que a IA deve ser encarada como uma ferramenta de apoio à decisão clínica e não como agente autónomo de diagnóstico. Carlos Cortes insiste que as ferramentas de IA não estão habilitadas a fazer diagnósticos, pois faltam “evidência científica robusta, mecanismos de validação rigorosos, e sobretudo, transparência algorítmica que permita aos médicos compreender e confiar nas decisões sugeridas”.