A arte nunca foi consensual — pelo contrário, sempre foi polémica. Mas também tem a capacidade de unir pessoas, por mais improvável que isso possa parecer. Diogo Henriques que o diga. O artista seixalense de 28 anos, conhecido simplesmente por Ces, nunca imaginou que o hobbie que o fez ser detido pela polícia aos 13 anos nas ruas da Amora, iria transformar-se numa carreira. Desde então já venceu dois prémios Drive in Arts e já graffitou nos maiores festivais nacionais.

Inspirado por dois artistas da Amora “Lest” e “Resk”, ambos artistas com “es” no nome. Juntou o “c” sendo uma letra próxima ao e, a que ficaria melhor no nome. E, apesar de as aulas favoritas na escola serem as de Educação Visual, garante: “Não tinha jeito para desenhar. Até hoje sinto isso, prefiro pintar”. Aliás, essa aparente falta de jeito é tradição na sua família, onde nunca teve um exemplo artístico para seguir. 

Desde miúdo que tudo partiu de si, com uma imaginação que corria mais depressa do que a mão conseguia acompanhar. Ainda assim, este mundo artístico ficou em standby. Diogo teve de começar a trabalhar logo aos 18 anos, e passou por várias empresas de retalho.

2022 foi um ano de revolução na sua vida. Nessa altura, Ces decidiu mudar-se para o Alentejo, para trabalhar como mineiro. Longe das distrações, mergulhou na música e no desenho. Comprou a sua primeira câmara fotográfica e desenvolveu o seu processo criativo, inspirado por artistas como Tyler, the Creator.  Contudo, no final do ano, “desistiu deixar o duro mercado das minas, para regressar à Margem Sul”.

O nascimento do Carlitos

De volta ao Seixal, reencontrou a rua, sobretudo depois de um amigo o convencer a ir pintar ao Bairro Alto, pegando nas latas com outra maturidade. Nesse processo de busca surgiu a criação da sua própria identidade visual. 

No início, Diogo desenhava as pessoas mais velhas que via nas ruas do Seixal, das quais fazia caricaturas. Com o tempo, e aos poucos, foi nascendo o boneco laranja, altamente bronzeado.

“Primeiro surgiram os olhos, depois o nariz”, conta à NiS. Era o Carlitos, a personagem laranja de bigode que hoje é a sua imagem de marca. E, ao contrário do que muitos pensam: “Não é inspirado no Super-Mário.”

Um dos primeiros rascunhos do Carlitos.

A personagem é mais do que um desenho: é um alter ego. O bigode é uma referência ao próprio Ces, que sempre o usou, e também ao lado tradicional “tuga”. O laranja representa o sol a refletir no rosto e as expressões exageradas são uma forma de transmitir humor e cor ao quotidiano.

Inspirado pelos desenhos animados que sempre adorou — sobretudo “Ricky e Morty” —, Carlitos tem a missão de animar quem o vê, através das expressões carregadas e exageradas.

A personagem rapidamente ganhou espaço em concursos e festivais. Em 2024, participou quase por diversão na exposição Drive In Art, no Seixal. Acabou por vencer o prémio principal. A vitória deu-lhe tanta confiança que, no ano seguinte, se sagrou bicampeão, com a obra “À Procura de Canivete, Encontrei a Pérola”. Tal como Carlitos, o próprio Diogo encontrou o seu lugar, a sua pérola no mundo artístico.

Em paralelo, Ces deixou a sua marca em eventos como o festival Os Festins de Alcains, em Castelo Branco, n’O Sol da Caparica e no icónico Yard. Em cada mural, vai deixando pequenos segredos.

“Gosto quando as pessoas encontram detalhes nas minhas obras, e falam comigo sobre isso”, conta à New in Seixal.

Estes easter eggs não estão apenas nas obras que vão a concurso. Um episódio caricato que marcou o artista aconteceu durante o apagão, quando Ces decidiu aventurar-se e deixar a sua marca numa estação de comboios.

Em conjunto com amigos, e com a ausência de vigilância, entrou sem problemas no local, mas houve um problema: “Por volta das 23 horas, a luz regressou e tivemos pouco tempo para fugir dos seguranças. Consegui, mas antes disso, os boxers ficaram presos na vedação”, conta, sem revelar o local secreto. Apesar de não ser direto, quem por lá passar, se olhar com muita atenção, vai conseguir encontrar a marca do artista. 

A arte como percurso profissional

Em 2023, Ces expandiu-se para a moda. Foi convidado pela Guaya, também entrevistada pela NiS, para criar uma coleção inspirada na primavera, nas abelhas e no planeta Saturno, símbolo da marca. Em apenas duas horas tinha todo o conceito pronto. E dois meses mais tarde, a coleção estava finalizada. A experiência abriu-lhe o apetite. Agora, sonha em colaborar com gigantes como a Nike ou a Lacoste.

Além de tudo isto, Diogo Henriques produz música, é DJ e dá aulas a miúdos do primeiro ciclo — sempre incentivando a criatividade. Em tudo na vida, não tem um método fixo, nem ferramentas preferidas. A sua arte nasce “da espontaneidade, do instinto e da vontade de experimentar”.

Carregue na galeria para conhecer alguns trabalhos do artista seixalense.