O número 161 da Maiden Lane, em Manhattan, tinha tudo para se tornar num marco da cidade. O arranha-céu, cuja construção começou em 2015, previa 80 apartamentos de luxo distribuídos por 60 pisos, uma piscina infinita, um spa e o título de primeiro edifício residencial totalmente em vidro. Dez anos depois, é um edifício fantasma, desabitado e ainda por concluir. O problema teve origem logo em 2017, quando se percebeu que a torre de 205 metros de altura estava já com uma inclinação pouco recomendável.
As unidades, promovidas pela Fortis Property Group, começaram a ser comercializadas em 2016, com preços entre 861 mil euros, para um T1, e 15 milhões de euros, para uma penthouse duplex com quatro quartos. O empresário norte-americano Louis Miu foi um dos compradores. Em 2017 adquiriu um apartamento, com a promessa de que estaria pronto no final do ano. Apesar dos atrasos, decidiu ainda comprar dois outros apartamentos no ano seguinte, para a família. Nunca chegou a usufruir de nenhum deles.
Por norma, arranha-céus são erguidos sobre leitos rochosos resistentes, a cerca de 15 metros de profundidade. Nova Iorque tem várias zonas com estas condições, mas Maiden Lane não é uma delas. A rua foi construída pelos neerlandeses no século XVII e foi “preenchida” com areia, pedras e lixo para expandir os limites de Manhattan, explica “The New Yorker”. O leito rochoso ficou a cerca de 45 metros abaixo do solo.
Embora não seja impossível erguer um arranha-céu nestas circunstâncias, o processo é complexo. No caso do 161 Maiden Lane, também conhecido como 1 Seaport, surgiram várias falhas. A Fortis contratou a construtora Pizzarotti, que por sua vez delegou à SSC High Rise a construção da superestrutura de betão. “Os trabalhadores operavam os equipamentos às escuras, sem luz, e havia entulho na área de trabalho”, relatou uma fonte à revista.
Uma das falhas mais referidas cometidas pela construtora foi o facto de não ter usado estacas profundas (que normalmente são mais caras) para sustentar o edifício. Em vez disso, optou por um método mais barato, conhecido como “melhoria do solo”, que envolve injetar cimento para o tornar mais firme. Segundo o “The Real Deal”, a construtora terá poupado 5,1 milhões de euros nesta escolha. Este terá sido um dos principais motivos que fez com que o edifício começasse a afundar e, consequentemente, a inclinar.
@urbanistariel This NYC skyscraper for the rich is in danger of collapsing 😳 This is 161 Maiden Lane in the Financial District. #nycapartment #constructionworker ♬ original sound – Ariel Viera
Foram emitidas mais de dez ordens de paragem da obra, quase todas relacionadas com questões de segurança. O acidente mais grave ocorreu quando Juan Chonillo, de 43 anos, caiu do 29.º andar após a falha de uma plataforma móvel. “Nunca deveria ter havido trabalhadores na plataforma”, afirmou Gail Kelner, advogada da família Chonillo. “Foi uma obra extremamente desleixada e assustadora”. A SSC High Rise declarou-se culpada de homicídio voluntário em segundo grau e pagou apenas 8,5 mil euros de multa.
Em abril de 2018, um funcionário reparou pela primeira vez que a torre apresentava uma inclinação para norte, com um desvio de 7,6 centímetros. Ainda nesse ano, a Fortis e a Pizzarotti iniciaram uma batalha legal, responsabilizando-se mutuamente.
A situação só foi admitida em junho de 2019, quando a Fortis emitiu uma alteração à planta do edifício: “As arestas das lajes do lado norte do edifício estão desalinhadas até 20 centímetros”, revelou na altura.
O edifício atualmente.
Para corrigir o problema, a Fortis contratou a Ray Builders, que tentou adaptar a fachada ao desvio. No entanto, em julho de 2020, a construtora abandonou o projeto por falta de pagamento. A promotora respondeu com um processo contra o Bank Leumi, acusando o banco de não ter libertado parte do empréstimo acordado.
Até fevereiro de 2021, todos os compradores rescindiram os contratos. Embora não se saiba o número exato, acredita-se que 70 dos 80 apartamentos estavam vendidos. Após a saída da Ray Builders, nenhuma empresa aceitou retomar as obras.
Em 2022, o Corpo de Bombeiros de Nova Iorque (FDNY) classificou a torre como perigosa, uma vez que o sistema interno de extinção de fogo não funcionava, impossibilitando o combate a incêndios. Desde então, o edifício foi abandonado e transformou-se numa atração turística no coração de Manhattan.
Apesar do erro da fundação, o edifício não corre o risco de cair. Isto porque a estrutura inteira tende a mover-se de forma uniforme e não há qualquer falha grande ou colunas defeituosas. Desde 2018 que o edifício não sofreu mais inclinações.
Atualmente, o arranha-céu é também muitas vezes comparado a uma banana, sendo referido nas redes sociais como a banana inclinada de Manhattan. Isto porque, perante a inclinação, a obra procurou compensar esse defeito, o que resultou numa espécie de forma de banana.
Ainda hoje, há processos judiciais relacionados com o edifício que não chegaram ao fim. Resolver o problema é que será mais difícil: estima-se que os custos de reparação desta inclinação possa ser demasiado caro para aliciar qualquer construtor.