ASML

A neerlandesa ASML é a única empresa do mundo capaz de produzir máquinas indispensáveis para fabricar os processadores mais avançados usados em IA, centros de dados e equipamentos eletrónicos. A China começou agora a fabricar máquinas próprias — que estão ainda muito longe das europeias.

A China começou a fabricar máquinas próprias de litografia DUV por imersão, um equipamento essencial para produzir semicondutores e um mercado até agora dominado pela neerlandesa ASML.

A notícia fez as ações da empresa afundarem 8,4% esta segunda-feira, 27 de julho, em Amesterdão, e arrastou consigo várias tecnológicas europeias ligadas à indústria dos chips.

O avanço agora anunciado ainda não coloca Pequim ao nível das máquinas de litografia EUV da ASML, que o ZAP apresentou anteriormente aos seus leitores como a “empresa mais importante do mundo” devido ao papel insubstituível que desempenha na produção dos chips mais avançados.

A empresa holandesa fabrica as máquinas de litografia de altíssima precisão usadas para gravar os circuitos nos semicondutores.

Segundo o The Information, uma empresa chinesa apoiada pelo Estado já começou a fabricar sistemas de litografia DUV, ou ultravioleta profundo, por imersão. A identidade do fabricante não foi revelada pelas fontes, devido à sensibilidade do projeto.

Os primeiros equipamentos chineses têm limitações de desempenho e fiabilidade, e precisam ainda de novos testes antes de entrarem em produção em massa, mas poderão começar a reduzir a dependência da China de tecnologia estrangeira num dos pontos mais frágeis da sua indústria de semicondutores.

As primeiras máquinas da fabricante chinesa deverão ser entregues ainda em 2026 à Semiconductor Manufacturing International Corporation, mais conhecida como SMIC, à Hua Hong Semiconductor e à fabricante de memórias ChangXin Memory Technologies, ou CXMT.

Segundo a Reuters, a capacidade inicial será reduzida. A fabricante chinesa deverá produzir cerca de cinco máquinas este ano e aproximadamente 20 em 2027.

Os equipamentos continuam atrás dos sistemas ocidentais em produtividade e fiabilidade, deixando intacta, pelo menos por enquanto, a vantagem tecnológica da ASML.

Tecnologia crítica para fabricar chips

As máquinas de litografia projetam os padrões dos circuitos sobre as chamadas “bolachas de silício“. Nos sistemas DUV por imersão, uma fina camada de água entre a lente e a bolacha permite aumentar a resolução e imprimir componentes mais pequenos.

Esta tecnologia é menos avançada do que a litografia EUV, ou ultravioleta extremo, mas continua a ser usada em grande parte da produção mundial de chips.

Através de múltiplas exposições, os equipamentos DUV também podem fabricar semicondutores relativamente avançados, embora com maior complexidade e custos mais elevados.

A ASML é a única empresa do mundo capaz de produzir comercialmente máquinas EUV, indispensáveis para fabricar, de forma eficiente, os processadores mais avançados usados em inteligência artificial, centros de dados e equipamentos eletrónicos.

A exportação destes sistemas para a China está bloqueada há vários anos, enquanto os Países Baixos passaram também a exigir licenças para a venda dos modelos DUV por imersão mais sofisticados.

As DUV são, por isso, as máquinas de litografia mais avançadas a que os fabricantes chineses ainda conseguem ter acesso. A China está também a desenvolver uma máquina EUV própria, mas o projeto permanece na fase de protótipo, sem produção comercial confirmada.

Queda alastra ao setor europeu

A reação dos investidores foi imediata. As ações da ASML fecharam a sessão com uma queda de 8,4%, naquele que foi o pior dia da empresa em bolsa desde 8 de junho.

Também a ASM International, que produz equipamentos para o fabrico de semicondutores, perdeu 7,1%. A BE Semiconductor Industries, ou Besi, especializada em máquinas de montagem e encapsulamento de chips, caiu 9,7%. O índice europeu de tecnologia recuou 1,7%.

O receio dos mercados não resulta de uma ameaça imediata ao monopólio da ASML nas máquinas EUV. Prende-se sobretudo com a possibilidade de a empresa perder progressivamente vendas de equipamentos DUV na China, um mercado que deverá representar cerca de 20% das receitas da tecnológica neerlandesa em 2026.

Pequim está a acelerar a substituição de fornecedores estrangeiros. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, as autoridades chinesas exigem que pelo menos 50% do equipamento utilizado na expansão de fábricas de chips seja produzido no país.

A regra não foi publicada oficialmente, mas terá começado a ser aplicada através dos processos de aprovação e contratação das novas unidades.

ASML mantém uma larga vantagem

Apesar da queda em bolsa, os números da ASML não apontam para uma empresa em crise. A tecnológica registou receitas de 9,3 mil milhões de euros e lucros de 2,9 mil milhões no segundo trimestre de 2026. Elevou ainda a previsão de receitas anuais para entre 43 mil milhões e 45 mil milhões de euros.

A diferença de escala permanece igualmente expressiva. A ASML prevê ter capacidade para produzir cerca de 130 máquinas DUV por imersão em 2026 e pretende aumentá-la em 30% no próximo ano. A produção chinesa prevista para este ano equivale a menos de 4% desse número.

Assim, a China ainda está longe de ultrapassar a ASML.

Mas, se conseguir produzir máquinas suficientemente fiáveis para abastecer as suas próprias fábricas, começa a fechar uma das principais brechas na sua cadeia tecnológica — e transformar  um mercado do qual a “empresa mais importante do mundo” ainda retira uma parte significativa das receitas.