A supergigante vermelha Betelgeuse, uma das estrelas mais conhecidas da constelação de Órion, acaba de revelar um segredo que intrigava astrônomos há décadas. Pesquisadores obtiveram a primeira evidência direta de que ela não está sozinha, mas faz parte de um sistema binário, composto por duas estrelas gravitacionalmente ligadas.

A descoberta foi descrita em um artigo publicado neste mês na revista científica Astronomy & Astrophysics. As imagens que confirmam a presença da estrela companheira foram obtidas com o Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul, localizado no Chile.

Como reportado na Folha de São Paulo, assim como Betelgeuse, a estrela recém-identificada também é maior e mais brilhante que o Sol. Ambas estão situadas entre 500 e 600 anos-luz da Terra. Um ano-luz corresponde à distância percorrida pela luz em um ano, cerca de 9,5 trilhões de quilômetros.

Segundo o astrônomo Pierre Kervella Montargès, a descoberta representa um marco para o estudo da estrela.

“Betelgeuse tem sido observada ao longo da história. Ela é até retratada em pinturas pré-históricas. Ainda assim, descobrimos só agora uma de suas características fundamentais: ela tem uma companheira, e obtivemos uma imagem direta disso”, afirmou.

Sistema binário confirma previsão dos modelos

De acordo com os pesquisadores, as duas estrelas permanecem unidas pela gravidade. A descoberta também reforça previsões de diversos modelos astronômicos, que indicam que estrelas muito massivas normalmente se formam em sistemas binários ou com múltiplas estrelas.

De acordo com vários modelos, estrelas massivas nunca deveriam se formar sozinhas”, destacou Montargès.

Antes dessa confirmação, pesquisas indicavam que a variação de brilho observada em Betelgeuse era provocada por uma nuvem quente e densa de material expelido pela própria estrela. Com o resfriamento desse material, formava-se poeira que, em alguns momentos, bloqueava parte da luz emitida por Betelgeuse.

Descoberta muda previsões sobre o futuro da estrela

As estrelas de grande massa possuem ciclos de vida relativamente curtos, consumindo rapidamente seu combustível. Estima-se que Betelgeuse tenha aproximadamente 10 milhões de anos, enquanto o Sol possui cerca de 4,5 bilhões de anos e uma expectativa de vida de aproximadamente 10 bilhões de anos.

Os cientistas acreditam que Betelgeuse esteja nos estágios finais de sua evolução e que, no futuro, deverá explodir como uma supernova. Antes da descoberta da estrela companheira, estimava-se que esse evento poderia ocorrer entre 10 mil e 100 mil anos.

Agora, porém, os pesquisadores afirmam que essa previsão se tornou mais incerta.

Quando era considerada uma estrela única, acreditava-se que ela explodiria entre 10 mil e 100 mil anos a partir de agora. Agora que sabemos que ela tem uma companheira que pode estar interagindo com ela, devo dizer que não sei quando vai explodir”, explicou Montargès.

O astrônomo acrescenta que, caso as duas estrelas tenham interagido ou venham a interagir, essa relação poderá tanto acelerar quanto retardar a explosão de Betelgeuse como supernova.

*Sob supervisão de Éric Moreira