Ucrânia vai produzir mísseis Storm Shadow com tecnologia secreta britânica. A sua utilização será dirigida a alvos militares enterrados, como bunkers de comando, algo mais difícil de alcançar com os drones de menor peso que Kiev tem utilizado para atingir alvos mais expostos, como refinarias de petróleo ou armazéns

O Reino Unido vai permitir a divulgação de tecnologia classificada para que um míssil de cruzeiro concebido pelo Reino Unido e pela França possa ser fabricado na Ucrânia, num reforço dos esforços de Kiev para levar mais poder de fogo a centenas de quilómetros dentro da Rússia.

Paris e Kiev querem criar uma linha de produção ucraniana para o míssil de cruzeiro lançado a partir do ar SCALP, conhecido como Storm Shadow no Reino Unido, até ao final do ano. A desclassificação de informações sobre componentes britânicos dos mísseis, anunciada esta segunda-feira, é um passo fundamental para alcançar esse objetivo.

Fabricado pela empresa europeia de armamento MBDA, o SCALP é uma arma convencional de longo alcance concebida para ataques em profundidade. A Ucrânia tem utilizado com sucesso versões importadas contra alvos fortificados, incluindo em novembro de 2024, quando foram utilizados pela primeira vez contra alvos dentro da Rússia.

Alimentado por um motor turbojato, o míssil tem um alcance máximo de 550 quilómetros e pode transportar uma ogiva penetrante de alto explosivo com 400 quilogramas, segundo o projeto Missile Threat do Center for Strategic and International Studies (CSIS).

Depois de lançado, o míssil utiliza uma combinação de navegação interna, sistema de posicionamento global e referência ao terreno, associada a um “sensor de infravermelhos e algoritmos de reconhecimento automático de alvos”, para alcançar um elevado grau de precisão em todas as condições meteorológicas, segundo o CSIS.

Um Storm Shadow de baixa observabilidade e longo alcance, lançado a partir do ar, é exibido no stand da MBDA no Farnborough International Exhibition Centre, a 22 de julho de 2026, em Farnborough, Inglaterra. (Carl Court/Getty Images)

O SCALP é lançado a partir dos caças Su-24 ou Mirage 2000 da Ucrânia e procura evitar as defesas aéreas voando a baixa altitude, acompanhando o relevo do terreno.

A sua utilização pela Ucrânia será dirigida contra alvos militares enterrados, como bunkers de comando, algo mais difícil de alcançar com os drones de menor peso que Kiev tem utilizado para atingir alvos mais expostos, como refinarias de petróleo ou armazéns.

O Kremlin reagiu com indignação ao anúncio, com o porta-voz Dmitry Peskov a afirmar que o Reino Unido estava “a participar na guerra” e a “deitar lenha para a fogueira”.

A declaração surgiu depois de a embaixada russa em Londres ter avisado, na semana passada, que “quanto maior for o seu envolvimento” e “quanto maior for o seu apoio” à Ucrânia, “maior será o preço que terá de pagar”.

O Reino Unido e a França não anunciaram quantos mísseis SCALP/Storm Shadow foram fornecidos à Ucrânia até ao momento, mas, em 2025, a fabricante MBDA reativou linhas de produção que estavam encerradas há 15 anos.

“Fornecido à Ucrânia, o míssil franco-britânico SCALP/Storm Shadow demonstrou a sua eficácia num combate moderno de alta intensidade, em situações decisivas”, afirmou na altura o ministro francês da Defesa, Sébastien Lecornu.

Mesmo com o anúncio do Reino Unido, a produção poderá demorar vários anos a atingir uma escala significativa, mas o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, afirma que Londres apoia Kiev a longo prazo.

“O povo ucraniano não deve ter qualquer dúvida: o Reino Unido está convosco hoje e durante o tempo que for necessário”, garantiu Burnham num comunicado divulgado esta segunda-feira, anunciando que o Reino Unido iria libertar a sua tecnologia de mísseis.

“A segurança da Ucrânia é a nossa segurança”, afirmou o primeiro-ministro, que chegou esta segunda-feira a Kiev para as celebrações do Dia da Independência da Ucrânia, na sua primeira viagem ao estrangeiro desde que tomou posse, a 20 de julho.

Durante a visita, Burnham vai copresidir a uma reunião da Coligação dos Dispostos, uma aliança internacional de 34 países formada no ano passado pelo Reino Unido e pela França para apoiar a Ucrânia na guerra, numa altura em que a ajuda dos EUA diminuiu durante a administração Trump.

A luta pelos mísseis intercetores

O que o SCALP não consegue resolver é a escassez de mísseis defensivos da Ucrânia, como os sistemas Patriot, de fabrico norte-americano. Esta vulnerabilidade ficou exposta, com consequências devastadoras, nas últimas semanas, enquanto a Rússia lançou grandes vagas de mísseis e drones em ataques que mataram dezenas de ucranianos.

A CNN visitou uma bateria Patriot na Ucrânia no início deste mês e foi informada de que esta não era utilizada há semanas porque não havia intercetores disponíveis.

A Ucrânia pediu autorização para fabricar no país os intercetores Patriot, uma ideia que o presidente dos EUA, Donald Trump, apoiou inicialmente no início de julho, mas da qual recuou posteriormente.

A administração Trump também rejeitou as tentativas ucranianas de obter mísseis de cruzeiro norte-americanos Tomahawk, cujos arsenais foram reduzidos pela guerra no Irão.

A produção nacional de mísseis da Ucrânia, contudo, não ficou parada.

FP-5 Flamingo, um míssil de cruzeiro ucraniano lançado a partir do solo, desenvolvido pela empresa de defesa Fire Point, em Kiev, a 22 de agosto de 2026. (Thomas Trutschel/dpa/AP)

A fabricante ucraniana Fire Point desenvolveu o míssil de cruzeiro FP-5 Flamingo.

Com um alcance de 3.000 quilómetros, pode atingir alvos no interior da Rússia, e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou no início deste mês que o míssil foi utilizado para atingir uma importante instalação russa de produção de componentes eletrónicos para foguetes, a cerca de 900 quilómetros da fronteira ucraniana.

O líder ucraniano afirmou que o Flamingo teve a sua estreia em combate em 2025, e informações de fontes abertas indicam que a sua utilização aumentou este ano.

A Fire Point também desenvolveu drones de longo alcance, a par de mísseis balísticos de menor alcance.

A utilização de armas de maior alcance por parte de Kiev transformou a extensa massa territorial da Rússia, outrora considerada uma vantagem militar, num problema para Moscovo, enquanto o país enfrenta dificuldades em distribuir os seus recursos limitados de defesa por um número crescente de alvos dentro do alcance ucraniano, escreveu no início deste mês Peter Dickinson, editor do blogue Ukraine Alert, do Atlantic Council.

“Uma longa lista de aspirantes a conquistadores invadiu a Rússia apenas para ver os seus exércitos serem engolidos pela vastidão do país. A Ucrânia está agora a tentar inverter esta lógica militar com uma campanha de bombardeamento estratégico que procura explorar a dimensão da Rússia e transformá-la de uma importante vantagem numa fraqueza fatal”, escreveu Dickinson.

*Darya Tarasova contribuiu para este artigo