Sacrifício de Sangue não é baseada em uma história real. A minissérie sueca da Netflix não adapta um crime verdadeiro, um caso policial específico ou uma obra de não ficção. A trama envolvendo o investigador Thomas Berg, seu pai Alfred e uma série de assassinatos de policiais foi criada para a televisão pelo roteirista britânico George Kay, conhecido também pelo trabalho em Lupin.

A ausência de um caso real, porém, não significa que todos os elementos apresentados na produção sejam fictícios. Pelo contrário: a série utiliza referências reais da história e da cultura suecas para conferir autenticidade à investigação. Estocolmo, o arquipélago da capital e as características particulares do verão no país fazem parte do universo da produção. Uma das principais peças do mistério, inclusive, é uma obra de arte que existe de verdade.

A Netflix apresenta George Kay como criador e roteirista de Sacrifício de Sangue, ao lado de Aron Levander e Emilie Robson, responsáveis pelos roteiros dos episódios. A plataforma descreve a produção como um thriller policial no qual um investigador precisa trabalhar ao lado do próprio pai para descobrir quem está por trás da morte de policiais.

Não há, nos materiais oficiais da Netflix, indicação de que Thomas Berg, Alfred ou o assassino tenham sido inspirados diretamente em pessoas reais. A sequência de crimes também não corresponde a um caso policial conhecido ocorrido em Estocolmo.

As gravações de Sacrifício de Sangue

A ambientação é um dos elementos que mais contribuem para a sensação de realismo. A produção foi filmada em Estocolmo e no arquipélago da capital sueca, fazendo com que os locais apresentados na história sejam, de fato, parte da paisagem do país.

A escolha de ambientar a história durante o verão também tem uma função importante. George Kay decidiu explorar um fenômeno característico das regiões setentrionais da Europa: durante determinados períodos do ano, os dias são extremamente longos e a escuridão praticamente não toma conta da paisagem.

Em entrevista à TV4 sueca, o criador explicou que pretendia incorporar características específicas de Estocolmo à narrativa, incluindo justamente as noites claras do verão. O resultado é uma estética que se distancia de um dos elementos mais tradicionais do chamado Nordic Noir: a associação entre crimes, frio, neve, noites longas e ambientes permanentemente escuros.

Em Sacrifício de Sangue, o contraste é justamente o contrário. Assassinatos violentos acontecem em uma cidade banhada pela luz do verão, criando uma atmosfera incomum para uma história policial.

A pintura que existe de verdade

A conexão mais evidente entre a ficção e a história sueca está em Midvinterblot, conhecida em português como Sacrifício de Inverno. A pintura é uma obra real do artista sueco Carl Larsson, produzida no início do século XX e atualmente pertencente ao acervo do Nationalmuseum, em Estocolmo.

A tela é monumental: mede aproximadamente 6,4 metros de altura por 13,6 metros de largura. Ela representa o momento anterior ao sacrifício do rei Domalde, personagem associado a uma antiga tradição nórdica.

Segundo a narrativa representada por Larsson, a Suécia teria passado por sucessivos anos de más colheitas. Diante da crise, o rei seria oferecido aos deuses como sacrifício na tentativa de restaurar a prosperidade do povo.

É justamente essa obra que ganha importância dentro do mistério de Sacrifício de Sangue. Embora sua utilização na trama seja ficcional, a pintura, seu autor e a tradição histórica representada por ela são reais.

A origem da produção também reforça seu caráter de ficção. Quando o projeto foi anunciado pela Netflix, em setembro de 2025, seu título provisório era The Case. As gravações já haviam sido realizadas em Estocolmo, com Jakob Oftebro como Thomas Berg e Peter Andersson interpretando Alfred. Kristoffer Nyholm, diretor de trabalhos como The Killing e Taboo, comandou os cinco episódios.

Posteriormente, o projeto recebeu o título Blood Sacrifice, chamado de Blodsoffer em sueco e Sacrifício de Sangue no Brasil. A mudança está diretamente relacionada à importância do conceito de sacrifício para o desenvolvimento do mistério.

Assim, embora a história de Thomas Berg não tenha acontecido de verdade, a série combina personagens e crimes fictícios com uma cidade real, fenômenos naturais reais e uma importante obra da arte sueca. É essa mistura que faz Sacrifício de Sangue parecer, em alguns momentos, mais próxima de um caso histórico do que de uma história policial inteiramente inventada.


Felipe Sales Gomes

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.