Vitrine Filmes / DivulgaçãoEfraim Santos interpreta Tutu em “Nosso Segredo” (2026), filme de Grace Passô.Vitrine Filmes / Divulgação

É o sonho de qualquer filme brasileiro: vencer um festival e estrear logo na semana seguinte, para capitalizar a conquista. A mídia gerada de forma espontânea, imediata e gratuita, com a cobertura da premiação na imprensa e nas redes sociais, certamente ajuda a levar as pessoas para as salas de cinema. 

E foi o que aconteceu com Nosso Segredo (2026): o ganhador do Kikito de melhor longa de ficção no 54º Festival de Gramado entra em cartaz nesta quinta-feira (27). Em Porto Alegre, o drama dirigido por Grace Passô pode ser visto no CineBancários, com sessões às 17h, e na Sala Eduardo Hirtz, às 19h30min.

Cleiton Thiele / Ag. Pressphoto“Nosso Segredo” em Gramado: Robert Frank, Efraim Santos a diretora de fotografia Wilssa Esser e Grace Passô.Cleiton Thiele / Ag. Pressphoto

Sábado (22), no Palácio dos Festivais, Nosso Segredo também conquistou os Kikitos de fotografia (assinada por Wilssa Esser) e direção de arte (de Lucas Osório). Merecia mais troféus.

Trata-se do primeiro longa-metragem dirigido pela mineira Grace Passô, 46 anos, vencedora do Candango de melhor atriz no Festival de Brasília por Temporada (2018) e do Redentor, no Festival do Rio, por Praça Paris (2017) e O Dia que te Conheci (2023). 

No Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema, ela conquistou o prêmio de melhor curta-metragem, por República, em 2021. E foi quatro vezes indicada nas categorias de atuação: como melhor atriz, por Praça Paris e O Dia que te Conheci, e como coadjuvante, por Levante (2023) e O Filho de Mil Homens (2025).

Grace também escreveu o roteiro de Nosso Segredo, a partir de uma peça de sua autoria, Amores Surdos. A estreia mundial aconteceu em fevereiro, em uma mostra do Festival de Berlim dedicada a primeiros filmes de ficção, a Perspectivas. Na Alemanha, a cineasta comentou com o crítico Rodrigo Fonseca, do Correio da Manhã:

O “para sempre” para mim são memórias, são afetos comungados, são nossos ancestrais. Os mestres que prepararam o meu mundo para o que virá. A ideia de “para sempre” tem a ver com afeto. A morte é a vida, é “o” assunto da vida. E as vidas negras no nosso país são a maior prova de que o afeto e a admiração entre os integrantes de uma família são o que fazem as pessoas resistirem e seguirem em frente.

Dito isso, é inevitável pensar em Nosso Segredo como um filme irmão de Marte Um (2022), pois os dois filmes são sobre uma família negra e urbana de Minas Gerais. E Gabriel Martins, que escreveu e dirigiu Marte Um, é um dos montadores de Nosso Segredo.

Mas existe pelo menos uma diferença crucial: Marte Um é sobre os sonhos de uma família negra; Nosso Segredo é sobre os pesadelos de uma família negra.

Qual é a trama de “Nosso Segredo”?

Divulgação / Divulgação“Nosso Segredo”: Ju Colombo interpreta Suely, a mãe da família negra de Belo Horizonte.Divulgação / Divulgação

Ambientado em Belo Horizonte, Nosso Segredo acompanha uma mãe e seus quatro filhos que tentam seguir sua rotina e lidar com o luto após a morte do pai. Em entrevistas, Grace Passô contou que os personagens nasceram de uma profunda reflexão sobre alguns arquétipos que existem nas vidas negras. E ela também disse que o jeito de cada um na sua relação com o luto revela também as gerações diferentes de negritude do Brasil.

O filme começa com um diálogo antológico entre Gilson (interpretado por Robert Frank), um motorista de aplicativo, e seu passageiro octogenário, Marcelo (encarnado por Mateus Aleluia, referência histórica da música brasileira como integrante da banda baiana Os Tincoãs). Os dois personagens falam sobre saudade — “É uma herança nossa. É uma entidade, né? A gente não vive sem ela”, diz Marcelo, que depois brinda Gilson com outra pérola de sabedoria: “Há coisa que a gente sabe, mas não quer saber”.

A conversa termina com o passageiro retomando uma história contada pelo motorista, mas agora em um sentido metafórico: “Gilson, o que você tem esquecido no meio da rua?”, pergunta Marcelo. “O que você tem largado na faixa de pedestre?”

Vitrine Filmes / Divulgação“Nosso Segredo”: Robert Frank interpreta o filho mais velho, Gilson, que é motorista de aplicativo.Vitrine Filmes / Divulgação

Aí, ao som da belíssima Caravana (1976), canção composta por Alceu Valença e Geraldo Azevedo, Grace Passô acompanha o caminho de volta para a casa da família de Gilson. Lá, moram também Suely (vivida por Ju Colombo), a viúva, e seus irmãos: os jovens Guto (papel de Flip) e Grazi (interpretada por Jéssica Gaspar) e o menino Tutu (o doce Efraim Santos). 

No Festival de Gramado, após receber o Kikito de melhor filme, Grace Passô fez um agradecimento especial a esse ator mirim: 

— Efraim, você nos fez muito melhor. Você nos uniu, você me tornou uma diretora melhor. Maior do que esse prêmio foi eu ter te conhecido.

Cada personagem tem seu jeito de esconder sua dor. Gilson foge para o trabalho, Suely mergulha nos afazeres domésticos, Guto vai para a boemia, Grazi se prostra diante da TV e do computador. Vivem no mesmo espaço físico, mas não compartilham o campo emocional: há paredes entre eles. O silêncio ecoa.

Vitrine Filmes / Divulgação“Nosso Segredo”: Jéssica Gaspar interpreta a única filha da família, Grazi.Vitrine Filmes / Divulgação

Talvez quem fale mais seja o caçula Tutu, que não tem ido à aula e que serve de ponto de vista para o espectador, mesmo que não compreenda claramente as coisas. Mas à tia Anamélia (personagem de Marisa Revert) ele consegue verbalizar o sentimento dos adultos: “Tia, a vida é tão difícil!”. O guri também empreende conversas sem um interlocutor aparente, através do encanamento da casa.

Com quem Tutu está falando? O que produz os sons estranhos e pesados que se ouve na casa? Qual é a origem do vazamento que se alastra, fazendo escorrer um líquido alaranjado? Por que a família refuta as tentativas de visita de uma vizinha? 

Esses são alguns dos enigmas de Nosso Segredo. Em outra entrevista, Grace Passô falou que gosta de criar um campo onde a dimensão do mistério é explícita, um campo onde as pessoas (sejam os personagens, sejam os espectadores) não controlam tudo. “Os sentidos não estão ali entregues completamente”, disse a diretora.

Grace Passô oferta esses mistérios sem pressa, mas com firmeza — que, neste caso, rima com delicadeza. Fazendo jus ao que disse no Festival de Berlim, a diretora lança um olhar muito afetuoso para seus personagens, e o elenco retribui com uma atuação homogênea, “livre de vaidades, de poses ou bravatas e evitando as catarses ocasionais”, como resumiu o crítico Bruno Carmelo no site Meio Amargo, à época da Berlinale.

Vitrine Filmes / Divulgação“Nosso Segredo”; Flip interpreta Guto, o filho boêmio.Vitrine Filmes / Divulgação

Além do diálogo de abertura, pelo menos três cenas vão ficar na memória, mas elas não devem ser explicitadas para não privar o leitor do encantamento. Pode-se dizer que a primeira envolve um jardim, uma mangueira, o barro e uma troca de carinho; a segunda retrata um abraço, uma pergunta há muito tempo represada e uma constatação cheia de empatia; e a terceira é a imagem final.

Em todas as cenas do filme, resplandecem todas as suas outras virtudes. Além do texto saboroso e da coragem de cruzar o realismo cotidiano com a magia do absurdo, é preciso destacar o trabalho impecável da equipe técnica. Não à toa, em Gramado Grace Passô disse que o Kikito de melhor filme era “o prêmio que mais queria ganhar porque explicita a força coletiva deste filme. Este é um projeto longo e com muitas pessoas envolvidas” — foram mais de 150.

O designer de produção Lucas Osório criou uma casa a um só tempo acolhedora, por ser reconhecível em qualquer lar de classe média brasileiro, e amedrontadora, à medida em que espelha o trauma dos personagens. Para tanto, também é fundamental o desenho de som de Tiago Bello.

A diretora de fotografia Wilssa Esser combina calor e melancolia na iluminação e faz movimentos de câmera que tanto sugerem uma presença invisível à espreita quanto buscam a materialidade de um amor interditado. Responsáveis pela montagem, Gabriel Martins e Eva Randolph zelam para que essas cenas se transformem em poesia visual.

E o cinema sensorial proposto em Nosso Segredo é ornamentado pela linda trilha sonora composta por Amaro Freitas, pianista já premiado no tradicional North Sea Jazz Festival, em Roterdã, na Holanda, e duas vezes indicado ao Grammy Latino. No filme, o pernambucano alude à ancestralidade referida por Grace Passô, ao fundir o jazz contemporâneo com matrizes afro-brasileiras. A música é praticamente um personagem místico: conjura uma atmosfera fantástica e dá voz aos não-ditos. 

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