{"id":1014,"date":"2025-07-25T14:49:26","date_gmt":"2025-07-25T14:49:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/1014\/"},"modified":"2025-07-25T14:49:26","modified_gmt":"2025-07-25T14:49:26","slug":"sou-a-sara-pinto-tive-sorte-13-vezes-nas-minhas-3-gravidezes-este-texto-e-para-as-maes-que-nao-tiveram-nenhuma-sorte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/1014\/","title":{"rendered":"Sou a Sara Pinto: tive sorte 13 vezes nas minhas 3 gravidezes. Este texto \u00e9 para as m\u00e3es que n\u00e3o tiveram nenhuma sorte"},"content":{"rendered":"<p>\t                CR\u00d3NICA | Este \u00e9 um texto \u00edntimo, delicado e serenamente emotivo, um texto que celebra a sorte mas que a teme tamb\u00e9m: porque Portugal tornou-se um pa\u00eds onde viver do lado certo de uma ponte pode ser a diferen\u00e7a entre perder um filho ou poder celebrar o nascimento dele. &#8220;N\u00e3o consigo deixar de pensar nas m\u00e3es que ficaram de colo vazio, n\u00e3o imagino sequer tamanho sofrimento, o sofrimento de perder um beb\u00e9 \u00e0s 31 semanas, \u00e0s 40! De lidar com a amarga e eterna d\u00favida &#8216;se a urg\u00eancia mais perto estivesse a funcionar, teria agora o meu filho nos bra\u00e7os?&#8217;.&#8221; Sara Pinto, a jornalista Sara Pinto, acabou de ter o terceiro filho, ela que levou &#8220;os nove meses desta terceira gravidez a noticiar diariamente o drama vivido pelas gr\u00e1vidas de norte a sul&#8221;. E \u00e9 por isso que este relato \u00e9 \u00edntimo: \u00edntimo para Sara Pinto, \u00edntimo para todas as m\u00e3es e para todos os pais, \u00edntimo para um pa\u00eds que est\u00e1 a envelhecer e onde a vida de um beb\u00e9 n\u00e3o devia depender de se ter sorte 13 vezes<\/p>\n<p>Quantas vezes uma gr\u00e1vida precisa de sorte? O n\u00famero est\u00e1 neste artigo <\/p>\n<p>por <strong>Sara Pinto<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Vivi tr\u00eas gravidezes nos \u00faltimos cinco anos. Todas foram acompanhadas no SNS, do qual sou defensora e no qual reconhe\u00e7o os melhores e mais competentes profissionais.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Sorte<\/strong> a minha que a gravidez deste ano foi a primeira fora do contexto de pandemia. Em 2020 foi um sufoco at\u00e9 ao fim. A ecografia do primeiro trimestre foi a \u00fanica em que o pai foi autorizado a estar presente. Ainda est\u00e1vamos em fevereiro, foi uma <strong>sorte<\/strong>\u00a0&#8211; podia n\u00e3o ter assistido a nenhuma. Logo a seguir, a partir de mar\u00e7o, foi o fim do mundo de que nos lembramos. Todo o restante pr\u00e9-natal foi sozinha: consultas, exames, outras ecografias. Uma ansiedade louca pelos relatos de gr\u00e1vidas que pariram igualmente sozinhas, de pais privados de presenciarem o primeiro instante dos filhos ou de cesarianas desnecess\u00e1rias, numa correria aos privados s\u00f3 para garantir que pai e m\u00e3e estavam juntos no parto.\u00a0<\/p>\n<p>O meu primeiro filho nasceu a 5 de agosto de 2020. Dois dias antes foi a primeira vez que n\u00e3o se registou qualquer morte no pa\u00eds por covid-19. Foi uma <strong>sorte<\/strong> ver de seguida as medidas aligeiradas, o que permitiu que o meu marido estivesse presente no momento do parto. Ainda assim, s\u00f3 podia permanecer no hospital comigo e com o beb\u00e9 at\u00e9 duas horas ap\u00f3s o nascimento. Por <strong>sorte<\/strong> n\u00e3o havia camas imediatamente dispon\u00edveis no internamento e fic\u00e1mos a aguardar juntos no bloco de partos as oito horas seguintes. Mas os tr\u00eas dias que se seguiram at\u00e9 eu ter alta foram sozinha. S\u00f3 eu e o beb\u00e9. Sem visitas de ningu\u00e9m, nem sequer do pai, que n\u00e3o p\u00f4de dar colo ao filho nos primeiros dias de vida. Lembro-me de uma enfermeira me dizer que eu podia ir at\u00e9 ao fundo do corredor do internamento de obstetr\u00edcia, sair para a varanda uns minutos e espreitar para o parque de estacionamento, onde, com sorte, o marido conseguiria dizer-me um ol\u00e1 \u00e0 dist\u00e2ncia. Foi tamb\u00e9m uma <strong>sorte<\/strong> ter acontecido no in\u00edcio de agosto. A partir de meio do m\u00eas, com os profissionais de sa\u00fade a serem finalmente autorizados a gozar folgas e f\u00e9rias depois do intenso momento pand\u00e9mico, nem sempre estava garantida a presen\u00e7a de mais do que um anestesista no bloco de partos, o que poderia impedir algumas gr\u00e1vidas de recorrerem \u00e0 analgesia epidural. Ufa, naquela madrugada estavam dois de servi\u00e7o, tive a <strong>sorte<\/strong> de conseguir aliviar a dor.\u00a0<\/p>\n<p>Em 2022 nasceu o meu segundo filho. Tive covid-19 durante essa gravidez. Uma <strong>sorte<\/strong> n\u00e3o ter tido praticamente sintomas, nem ter resultado em complica\u00e7\u00f5es para o beb\u00e9. O pai tamb\u00e9m testou positivo mas, por <strong>sorte<\/strong>, est\u00e1vamos ainda longe do parto. No dia do nascimento j\u00e1 n\u00e3o foi necess\u00e1rio fazer testes, as gr\u00e1vidas j\u00e1 podiam ter acompanhante e tamb\u00e9m o internamento estava aberto a visitas. Que <strong>sorte<\/strong>! N\u00e3o me livrei ainda assim de voltar a parir de m\u00e1scara &#8211; e s\u00f3 quem conhece a dor de contra\u00e7\u00f5es entende a dificuldade de respirar com a boca e nariz tapados.<\/p>\n<p>Chegados a 2025, da pandemia j\u00e1 n\u00e3o se fala mas\u2026 sorte precisa-se. Talvez mais do que nunca.\u00a0<\/p>\n<p>Levei os nove meses desta terceira gravidez a noticiar diariamente o drama vivido pelas gr\u00e1vidas de norte a sul &#8211; mas sobretudo a sul &#8211; por causa das urg\u00eancias obst\u00e9tricas fechadas e a pensar como seria comigo. Ser\u00e1 que teria uma urg\u00eancia perto de mim aberta? Ser\u00e1 que atenderiam a tempo a minha chamada para o SNS24? E se precisasse de uma ambul\u00e2ncia, chegaria rapidamente?<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"1013\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1000.jpg\" width=\"1000\"\/><br \/>\n  <strong>Hope II, de Klimt: uma mulher gr\u00e1vida de olhos delicadamente fechados inclina solenemente a cabe\u00e7a &#8211; como se estivesse a rezar pela seguran\u00e7a do seu filho. Uma ora\u00e7\u00e3o de f\u00e9?, de medo?, de prote\u00e7\u00e3o?, disso tudo ou al\u00e9m disso?<\/strong> foto Getty <\/p>\n<p>O meu terceiro filho nasceu a 4 de julho. Tive a <strong>sorte<\/strong> de entrar em trabalho de parto na manh\u00e3 de um dia \u00fatil, porque ao fim de semana \u00e9 quando fecham mais servi\u00e7os. Por <strong>sorte,<\/strong> a minha chamada para o SNS foi atendida em poucos minutos. E, com toda a <strong>sorte<\/strong>, havia vaga no hospital para o qual desejava ser referenciada. Creio que tenho a <strong>sorte<\/strong> de morar na margem norte do Tejo, se morasse do outro lado da ponte talvez nem a sorte me valesse.<\/p>\n<p>O \u00fanico imprevisto foi o de ter permanecido mais 24 horas internada al\u00e9m do que era suposto &#8211; mesmo sem qualquer crit\u00e9rio cl\u00ednico que a isso obrigasse -, porque no dia da alta n\u00e3o havia pediatra de servi\u00e7o no internamento de obstetr\u00edcia. Num departamento onde estavam dezenas de rec\u00e9m-nascidos n\u00e3o havia um \u00fanico pediatra a trabalhar. Sem m\u00e9dico dispon\u00edvel, nenhum beb\u00e9 ou m\u00e3e foram autorizados a deixar o hospital. Ficaram todas as camas ocupadas mais um dia &#8211; e, por causa disso, talvez outras gr\u00e1vidas n\u00e3o tenham tido a sorte de ter vaga ali.<\/p>\n<p>13 pode ser n\u00famero de azar, mas at\u00e9 agora conto neste meu relato 13 vezes em que a sorte me sorriu nos \u00faltimos cinco anos. Mas sabem qual \u00e9 a sorte maior? \u00c9 a de ter tr\u00eas filhos para abra\u00e7ar.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo deixar de pensar nas m\u00e3es que ficaram de colo vazio, n\u00e3o imagino sequer tamanho sofrimento, o sofrimento de perder um beb\u00e9 \u00e0s 31 semanas, \u00e0s 40! De lidar com a amarga e eterna d\u00favida \u201cse a urg\u00eancia mais perto estivesse a funcionar, teria agora o meu filho nos bra\u00e7os?\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Esta pergunta devia acima de tudo pesar na cabe\u00e7a de quem tem a responsabilidade de agir e mudar o que est\u00e1 mal. O SNS tem mesmo os melhores e mais competentes profissionais, mas precisam de ser valorizados e necessitam de outras condi\u00e7\u00f5es de trabalho. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente o esfor\u00e7o herc\u00faleo que fazem todos os dias. Isso j\u00e1 n\u00e3o basta para que o servi\u00e7o, que devia garantir seguran\u00e7a e confian\u00e7a, n\u00e3o deixe as gr\u00e1vidas entregues \u00e0 sorte. Ou \u00e0 falta dela.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"CR\u00d3NICA | Este \u00e9 um texto \u00edntimo, delicado e serenamente emotivo, um texto que celebra a sorte mas&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1015,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[609,611,27,28,607,608,604,610,539,15,16,14,603,25,26,570,21,22,606,12,13,19,20,602,32,23,24,33,899,898,897,58,605,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-1014","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-alerta","9":"tag-ao-minuto","10":"tag-breaking-news","11":"tag-breakingnews","12":"tag-cnn","13":"tag-cnn-portugal","14":"tag-crime","15":"tag-direto","16":"tag-educacao","17":"tag-featured-news","18":"tag-featurednews","19":"tag-headlines","20":"tag-justica","21":"tag-latest-news","22":"tag-latestnews","23":"tag-live","24":"tag-main-news","25":"tag-mainnews","26":"tag-meteorologia","27":"tag-news","28":"tag-noticias","29":"tag-noticias-principais","30":"tag-noticiasprincipais","31":"tag-pais","32":"tag-portugal","33":"tag-principais-noticias","34":"tag-principaisnoticias","35":"tag-pt","36":"tag-sara-pinto","37":"tag-servico-nacional-de-saude-obstetricia-pediatria","38":"tag-sns-gravidez","39":"tag-sociedade","40":"tag-tempo","41":"tag-top-stories","42":"tag-topstories","43":"tag-ultimas","44":"tag-ultimas-noticias","45":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1014","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1014"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1014\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1015"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}