{"id":101670,"date":"2025-10-08T04:40:13","date_gmt":"2025-10-08T04:40:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/101670\/"},"modified":"2025-10-08T04:40:13","modified_gmt":"2025-10-08T04:40:13","slug":"fernanda-abreu-diz-que-plataformas-aprisionaram-musica-pop-07-10-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/101670\/","title":{"rendered":"Fernanda Abreu diz que plataformas aprisionaram m\u00fasica pop &#8211; 07\/10\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Quem ligasse o r\u00e1dio em 1995 tinha grandes chances de ouvir o rock escrachado dos<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/mamonas-assassinas\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Mamonas Assassinas<\/a>, o sertanejo a\u00e7ucarado de<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/zeze-di-camargo-e-luciano\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Zez\u00e9 Di Camargo e Luciano<\/a> e o pagode dilacerante do S\u00f3 pra Contrariar.<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/09\/fernanda-abreu-diz-que-a-onda-agora-e-ser-bundao-ao-rever-30-anos-de-carreira.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> Fernanda Abreu<\/a>, por\u00e9m, estava olhando para outra dire\u00e7\u00e3o naquele ano.<\/p>\n<p>A artista decidiu unir o funk que despontava das favelas cariocas com o samba que j\u00e1 havia conquistado prest\u00edgio internacional para conceber um disco com a cara do Brasil. N\u00e3o \u00e0 toa, batizou o projeto de &#8220;Da Lata&#8221; \u2014material que evoca de uma s\u00f3 vez a inventividade do batuque e a precariedade da nossa condi\u00e7\u00e3o de pa\u00eds emergente.<\/p>\n<p>&#8220;A lata faz alus\u00e3o justamente a esse jeito &#8216;se vira nos 30&#8217; do povo brasileiro. \u00c9 a\u00ed que reside a nossa liberdade e a nossa criatividade.&#8221; A ideia, por\u00e9m, n\u00e3o foi bem recebida pelo presidente de sua ent\u00e3o gravadora.<\/p>\n<p>&#8220;Ele disse que n\u00e3o daria certo, mas esses caras de gravadora nem sempre s\u00e3o os donos da verdade. Eles se equivocam e se equivocam muito.&#8221;<\/p>\n<p>A previs\u00e3o do executivo de fato n\u00e3o se confirmou. Lan\u00e7ado em mar\u00e7o de 1995, o disco foi eleito pela Billboard o melhor \u00e1lbum latino-americano naquele ano e vendeu mais de 100 mil c\u00f3pias, dando \u00e0 artista o seu primeiro disco de ouro. Em raz\u00e3o do sucesso, a cantora foi convidada a se apresentar em pa\u00edses como Fran\u00e7a, Holanda e Alemanha.<\/p>\n<p>Para marcar os 30 anos do trabalho, ela lan\u00e7a nesta quarta-feira (8), no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/festival-do-rio\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Festival do Rio<\/a>, um document\u00e1rio mostrando os bastidores das grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O longa traz ainda depoimentos de pessoas que participaram da cria\u00e7\u00e3o do projeto, como o produtor Liminha, o fot\u00f3grafo Walter Carvalho e a<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/06\/deborah-colker-questiona-o-primitivismo-e-o-ideal-de-progresso-em-sagracao.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> core\u00f3grafa Deborah Colker<\/a>. Al\u00e9m de reeditar o trabalho em vinil, a artista publicar\u00e1 um livro sobre o disco no dia 21 deste m\u00eas.<\/p>\n<p>&#8220;Achei que valia a pena fazer um grande projeto por ser um disco que n\u00e3o envelheceu. A linguagem musical dele trouxe o Brasil para dentro da m\u00fasica dan\u00e7ante de forma definitiva.&#8221;<\/p>\n<p>Para a cantora, no entanto, lan\u00e7ar o projeto hoje em dia seria um desafio em raz\u00e3o das mudan\u00e7as que aconteceram na ind\u00fastria musical. N\u00e3o raro, artistas se veem obrigados a seguir determinadas regras para aumentar as chances de sucesso nas plataformas de m\u00fasica.<\/p>\n<p>&#8220;Com esse disco, eu queria subverter algumas coisas, mas talvez isso seja o mais dif\u00edcil hoje em dia. Agora, voc\u00ea tem que fazer uma m\u00fasica at\u00e9 tantos minutos, tem que fazer uma produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 tantos segundos e tem que ter um assunto tal&#8221;, diz ela. &#8220;As plataformas digitais aprisionaram a criatividade e a liberdade da m\u00fasica pop.&#8221;<\/p>\n<p>Se a ind\u00fastria musical mudou de forma profunda nesses 30 anos, o Brasil segue muito parecido com aquele pa\u00eds que inspirou o disco. &#8220;Continuamos nessa desigualdade absurda e o artista ainda precisa se virar nos 30.&#8221;<\/p>\n<p>Abreu diz que a brasilidade \u00e9 justamente um dos motivos para o sucesso do trabalho. &#8220;Eu, Lenine e Chico Science fizemos parte de uma gera\u00e7\u00e3o que estava vendo as sonoridades do pa\u00eds de outra forma. Quer\u00edamos p\u00f4r o Brasil novamente na m\u00fasica.&#8221;<\/p>\n<p>Os ritmos nacionais, de fato, permeiam o trabalho, o que pode ser sentido por meio da presen\u00e7a de instrumentos de percuss\u00e3o. Os assuntos das faixas tamb\u00e9m s\u00e3o tipicamente brasileiros. &#8220;Veneno da Lata&#8221;, por exemplo, faz alus\u00e3o a um caso folcl\u00f3rico ocorrido em 1987, quando cerca de 14 mil latas contendo maconha aportaram no litoral brasileiro.<\/p>\n<p>Outra faixa marcante do trabalho \u00e9 &#8220;Garota Sangue Bom&#8221;. A m\u00fasica se tornou t\u00e3o marcante na carreira de Abreu que acabou se confundindo com a imagem p\u00fablica da cantora.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro, ela \u00e9 apresentada em programas de r\u00e1dio e televis\u00e3o como a garota carioca suingue sangue-bom. &#8220;Eu posso estar com 90 anos, mas as pessoas continuar\u00e3o me apresentando assim. Virou uma esp\u00e9cie de marca registrada.&#8221;<\/p>\n<p>A letra de &#8220;Garota Sangue Bom&#8221;, ali\u00e1s, vai al\u00e9m dos estere\u00f3tipos associados \u00e0s mulheres cariocas. Na can\u00e7\u00e3o, elas n\u00e3o s\u00e3o apenas um corpo sensual, mas tamb\u00e9m seres pensantes. &#8220;Sempre existiu essa ideia da mulher carioca gostosa, mas nunca falavam da intelig\u00eancia. \u00c9 como se as mulheres bonitas n\u00e3o pudessem ser inteligentes.&#8221;<\/p>\n<p>A verve feminista da cantora pode ser vista, inclusive, em uma das fotos de divulga\u00e7\u00e3o do disco. Na imagem, Abreu transforma duas panelas num suti\u00e3 improvisado, como se debochasse da ideia de que o lugar da mulher \u00e9 na cozinha. De instrumento de opress\u00e3o, a panela vira um s\u00edmbolo de rebeldia.<\/p>\n<p>A artista diz ter precisado se impor para ser respeitada numa ind\u00fastria dominada por figuras masculinas. &#8220;Tive de ter jogo de cintura para trabalhar com muitos homens. O caminho \u00e9 n\u00e3o se deixar oprimir e manter o que voc\u00ea quer&#8221;, diz ela.<\/p>\n<p>&#8220;A minha sorte \u00e9 que o disco era meu. Ent\u00e3o, quando falavam que o trabalho devia ser isso ou aquilo, eu dizia: \u2018Querido, faz isso no seu disco. Esse aqui \u00e9 o meu.&#8217; A gente cede quando as pessoas t\u00eam raz\u00e3o. Quando n\u00e3o t\u00eam, n\u00e3o h\u00e1 motivo para isso.&#8221;<\/p>\n<p>Essa preocupa\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria integridade art\u00edstica se fez notar logo no in\u00edcio da carreira. Em 1982, a cantora despontou como backing vocal da Blitz, grupo que conquistou enorme sucesso com m\u00fasicas como &#8220;Voc\u00ea N\u00e3o Soube Me Amar&#8221; e &#8220;A Dois Passos do Para\u00edso&#8221;.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o da banda, em 1986, Abreu diz que gravadoras queriam contrat\u00e1-la para lan\u00e7ar sua carreira solo. No entanto, recusou todos os convites. &#8220;O que eu tinha para oferecer? Naquele momento, nada. Por isso, percebi que precisava entender qual som eu queria fazer.&#8221;<\/p>\n<p>O resultado dessa busca chegou \u00e0s lojas em 1990, quando a artista lan\u00e7ou &#8220;SLA Radical Dance Disco Club&#8221;. Fundamental para o fortalecimento do pop dan\u00e7ante no pa\u00eds, o disco ajudou a renovar um cen\u00e1rio musical fortemente ancorado no rock.<\/p>\n<p>Nesse trabalho, decidiu incluir elementos do funk carioca num momento em que a persegui\u00e7\u00e3o a esse g\u00eanero era grande. &#8220;Em 1989, quando fui num baile funk, falei: &#8216;Fodeu. Acabou pra mim.&#8217; N\u00e3o conseguia nem dormir. No dia seguinte, levei o DJ Malboro para gravar comigo.&#8221; O fruto dessa parceria \u00e9 &#8220;Disco Club 2 (Mel\u00f4 do Radical)&#8221;, uma das faixas do disco de estreia.<\/p>\n<p>Em 1992, a cantora lan\u00e7ou seu segundo \u00e1lbum de est\u00fadio, intitulado &#8220;SLA 2 Be Sample&#8221;. Faz parte desse trabalho a ic\u00f4nica &#8220;Rio 40 Graus&#8221;, m\u00fasica que se tornou o maior sucesso de Abreu e uma das s\u00ednteses mais bem-acabadas sobre o Rio de Janeiro, descrito na m\u00fasica como o purgat\u00f3rio da beleza e do caos. &#8220;Se a gente fizesse hoje, eu s\u00f3 incluiria a mil\u00edcia, que n\u00e3o tinha na \u00e9poca. O resto est\u00e1 tudo l\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>Com sucessos como esse, Abreu se tornou uma das figuras centrais para a consolida\u00e7\u00e3o do pop, g\u00eanero ainda hoje visto como descart\u00e1vel. &#8220;Estou aqui para provar que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. A minha carreira de 35 anos mostra que \u00e9 poss\u00edvel. Basta fazer m\u00fasica com verdade e consist\u00eancia.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quem ligasse o r\u00e1dio em 1995 tinha grandes chances de ouvir o rock escrachado dos Mamonas Assassinas, o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":101671,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[141],"tags":[207,114,115,24762,236,149,150,214,32,33],"class_list":{"0":"post-101670","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-musica","8":"tag-arte","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-fernanda-abreu","12":"tag-folha","13":"tag-music","14":"tag-musica","15":"tag-pop","16":"tag-portugal","17":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101670"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101670\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/101671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}