{"id":102073,"date":"2025-10-08T13:22:09","date_gmt":"2025-10-08T13:22:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/102073\/"},"modified":"2025-10-08T13:22:09","modified_gmt":"2025-10-08T13:22:09","slug":"manaus-vai-voltar-um-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/102073\/","title":{"rendered":"Manaus vai voltar um dia"},"content":{"rendered":"<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-center is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-drop-cap has-text-align-left\"><strong>E<\/strong>scritor amazonense est\u00e1 prestes a encerrar a trilogia \u201cO lugar mais sombrio\u201d, com o lan\u00e7amento do terceiro livro \u201cDan\u00e7a de Ciganos\u201d neste m\u00eas. Autor de \u2018escrita lenta\u2019, como ele mesmo diz, Hatoum foi escolhido para ser o novo imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Nos \u00faltimos dias, seu nome passou a ser cogitado para o Pr\u00eamio Nobel, mas ele descarta essa possibilidade. Escritor natural de Manaus, ele conversou durante quase duas horas com a reportagem da Amaz\u00f4nia Real. Na entrevista, fala sobre seu novo livro, sobre a inten\u00e7\u00e3o de voltar a ambientar Manaus em suas obras e, talvez, em resgatar mem\u00f3rias de sua inf\u00e2ncia e juventude. Ele tamb\u00e9m compartilhou seu posicionamento contundente em defesa dos palestinos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Manaus (AM)<\/strong> \u2013 Milton Hatoum trabalha lentamente. Ele tem o h\u00e1bito de escrever sempre \u00e0 m\u00e3o, com uma caligrafia perfeita, afirma, resultado de sua forma\u00e7\u00e3o escolar na inf\u00e2ncia, em Manaus. Quando n\u00e3o gosta do que criou, recome\u00e7a.\u00a0\u201cSou muito auto-exigente. Ent\u00e3o, enquanto eu achar que aquilo n\u00e3o est\u00e1 bom, n\u00e3o publico\u201d, explica.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">O \u00faltimo romance do escritor amazonense \u00e9 de 2019, \u201cPontos de Fuga\u201d, o segundo da trilogia \u201cO lugar mais sombrio\u201d, que come\u00e7ou com \u201cA Noite da Espera\u201d, de 2017. Seis anos depois, ele encerra a s\u00e9rie com \u201cDan\u00e7a de Ciganos\u201d, que ter\u00e1 lan\u00e7amento no pr\u00f3ximo dia 21.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">O ritmo lento de seu processo de escrita passa por uma sutil ironia nos \u00faltimos meses. A vida de Milton Hatoum est\u00e1 um tanto agitada, com aquele clima fren\u00e9tico e agrad\u00e1vel de quem recebe boas not\u00edcias e contagia seu entorno. Ele foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em agosto, e a not\u00edcia foi aclamada por leitores das mais diversas categorias liter\u00e1rias e sociais. No Amazonas, foi um frenesi. A posse como novo imortal da ABL est\u00e1 prevista para mar\u00e7o de 2026.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">Milton Hatoum tem seis romances publicados. Obras como \u201cRelato de um certo oriente\u201d (1989), \u201cDois Irm\u00e3os\u201d (2001) e \u201cCinzas do Norte\u201d (2005) tornaram-se definidoras da literatura contempor\u00e2nea brasileira. As hist\u00f3rias s\u00e3o vis\u00f5es paralelas de uma Amaz\u00f4nia urbana quase on\u00edrica, mas sempre explorando as profundezas das rela\u00e7\u00f5es humanas e familiares. Ele tamb\u00e9m \u00e9 autor dos livros de contos \u201cA Cidade ilhada\u201d e \u201cUm Solit\u00e1rio \u00e0 Espreita\u201d. Todos os t\u00edtulos s\u00e3o pela Cia das Letras. \u00c9 dono de incont\u00e1veis pr\u00eamios e reconhecimentos, entre eles tr\u00eas Pr\u00eamios Jabuti, da C\u00e2mara Brasileira do Livro, e o mais tradicional do pa\u00eds na \u00e1rea da literatura.  <\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">Os intervalos espa\u00e7osos entre um e outro livro s\u00e3o o menos importante para Milton. Vale mais as emo\u00e7\u00f5es fortes, as atmosferas pungentes das hist\u00f3rias e os personagens apaixonantes, ocasionalmente tristes, amargurados, que chegam a perfurar a alma do leitor. Assim como sua escrita, a obra de Milton Hatoum \u00e9 para ser lida lentamente. S\u00e3o investiga\u00e7\u00f5es pessoais, mem\u00f3rias revisitadas e aquele toque ficcionista para ocupar lacunas.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">A honraria na ABL n\u00e3o era exatamente um sonho antigo. Mas Milton Hatoum nunca desprezou a possibilidade. Pelo contr\u00e1rio, nos \u00faltimos tempos ele vinha sendo cativado pela ideia por incentivo de amigos. \u201cUm outro grupo de amigos, dentro e fora da academia, me convenceu de que era um lugar que estava mudando\u201d.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">De origem libanesa, Hatoum \u00e9 uma personalidade liter\u00e1ria presente nos debates sobre a geopol\u00edtica global marcada por retrocessos e amea\u00e7as \u00e0 democracia. Ele tem sido voz frequente contra os ataques e as tentativas de genoc\u00eddio dos palestinos por Israel, mantendo-se fiel ao seu esp\u00edrito humanista e, claro, \u00e0 sua ancestralidade libanesa, oriunda de uma regi\u00e3o colonizada pelo imperialismo europeu e que at\u00e9 hoje sofre consequ\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">Nos \u00faltimos dias, o nome do escritor passou a ser considerado para o pr\u00eamio Nobel de Literatura. Milton \u00e9 p\u00e9 no ch\u00e3o e n\u00e3o levou muito \u00e0 s\u00e9rio. \u201cSaiu numa famosa casa de aposta de Londres, mas a chance \u00e9 m\u00ednima. \u00c9 preciso fazer muito lobby e envolver Minc, universidades, institui\u00e7\u00f5es. E eu n\u00e3o tenho paci\u00eancia nem interesse para fazer pol\u00edtica cultural. Estou focado no novo romance que sai no dia 21\u201d, declarou nessa semana \u00e0 <strong>Amaz\u00f4nia Real.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">Milton Hatoum nasceu em Manaus no dia 19 de agosto de 1952. Morou na capital a amazonense at\u00e9 no final dos anos 90, quando ent\u00e3o mudou-se para S\u00e3o Paulo. Foi professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mas largou a academia para dedicar-se \u00e0 trajet\u00f3ria de escritor.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\">No m\u00eas passado, o escritor concedeu uma entrevista de maneira remota para a Amaz\u00f4nia Real. Milton Hatoum \u00e9 parceiro e aliado de longa data da ag\u00eancia A conversa aconteceu num final de tarde e durou quase duas horas. Leia trechos da entrevista:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mont2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"2100\" height=\"1125\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mont2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-164206\"  \/><\/a><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">O escritor amazonense Milton Hatoum, que est\u00e1 para lan\u00e7ar novo romance (Fotos: Renato Parada\/Cia. das Letras).<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Voc\u00ea estava preparado para entrar na ABL?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>N\u00e3o era, vamos dizer, n\u00e3o fazia parte do meu horizonte. Um grupo de amigos, dentro e fora da academia, me convenceu de que era um lugar que estava mudando. Era uma institui\u00e7\u00e3o que estava mudando com a entrada de novos acad\u00eamicos, como o Ailton Krenak [em 2024] e poetas, historiadores. Agora entrou a Ana Maria Gon\u00e7alves, a primeira escritora negra da academia. Quer dizer, \u00e9 quase um acontecimento.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 E ocorre pouco mais de um ano depois da escolha do Ailton Krenak<\/strong>.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>Ele foi o primeiro ind\u00edgena a vestir o fard\u00e3o. Ele n\u00e3o queria vestir o fard\u00e3o, mas esse \u00e9 um ritual, vamos dizer assim, de centen\u00e1rio. E a\u00ed eu, estimulado por esse grupo de amigos, me candidatei e tive uma surpreendente\u2026 eu n\u00e3o esperava ter uma vota\u00e7\u00e3o t\u00e3o expressiva. S\u00f3 uma pessoa n\u00e3o votou em mim. Dos 34, 33 votaram. E a minha ideia \u00e9 continuar a fazer o que eu venho fazendo desde a publica\u00e7\u00e3o do \u201cRelato de Um Certo Oriente\u201d, que \u00e9 dar palestras, fazer uma ponte com as universidades, com as escolas da periferia. Anteontem eu fui falar sobre \u201cDois Irm\u00e3os\u201d no sistema prisional. No pres\u00eddio do interior de S\u00e3o Paulo. Eu passei o dia todo falando para presidi\u00e1rios. E foi incr\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013\u00a0 Como foi a conversa com eles?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>Foi um outro mundo, surpreendente. Eles leram o romance \u201cDois Irm\u00e3os\u201d e fizeram uma resenha. Porque h\u00e1 uma remiss\u00e3o [da pena] A cada romance, cada livro que eles leem e fazem uma resenha, diminui quatro dias a pena. S\u00e3o mais de 100 presidi\u00e1rios que leram. Vou fazer isso no pres\u00eddio feminino tamb\u00e9m daqui a algum tempo. Foi emocionante tamb\u00e9m porque s\u00e3o pessoas que cometeram crimes variados: roubos, sequestro de tudo, pedofilia, assassinato. S\u00e3o pessoas arrependidas. S\u00e3o pessoas amarguradas. Mas falaram que a literatura deu uma nova perspectiva para eles. Eles come\u00e7aram a pensar em outras coisas, come\u00e7aram a refletir sobre a sociedade, sobre aquele mundo de fic\u00e7\u00e3o, mas que \u00e9 o mundo tamb\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es humanas. E \u00e9 isso que humaniza. A literatura humaniza as pessoas tamb\u00e9m. Por isso que ela \u00e9 importante. E \u00e9 por isso que ela \u00e9 combatida pelos sistemas autorit\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Como ser\u00e1 a temporada de lan\u00e7amento do livro?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>\u00a0Terminei o terceiro volume de uma trilogia, que se chama \u201cDan\u00e7a de Ciganos\u201d. Eu vou lan\u00e7ar em v\u00e1rias cidades de Minas Gerais, porque o romance \u00e9 ambientado em Ouro Preto. Ent\u00e3o eu vou a um festival de l\u00e1 na cidade do Drummond [Carlos Drummond de Andrade], em Itabira. Depois vou a um semin\u00e1rio sobre tradu\u00e7\u00e3o em Ouro Preto, com meu tradutor franc\u00eas que d\u00e1 aula. Isso no comecinho de novembro, na Universidade Federal de Ouro Preto. Depois eu vou a Porto Alegre pra Feira do Livro de Porto Alegre em novembro tamb\u00e9m. E eu pretendo lan\u00e7ar esse romance em Manaus, provavelmente no come\u00e7o de dezembro.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Em Manus, lembro que os lan\u00e7amentos de livros ou outros debates que voc\u00ea participava sempre aconteciam na Banca do Joaquim. <\/strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CoH4Myrrc09\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\"><strong>Foi um choque a morte do Joaquim Melo<\/strong><\/a><strong> [em 1\u00ba de janeiro de 2023]. Como voc\u00ea pretende fazer o lan\u00e7amento desta vez?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>\u00c9 horr\u00edvel, \u00e9 horr\u00edvel. Eu senti muito. Era o meu grande amigo em Manaus. Foi muito chocante. Fiquei muito mal. Dias antes eu tinha conversado com ele. At\u00e9 hoje ainda \u00e9 inacredit\u00e1vel. Sinto muita tristeza. Mas at\u00e9 em homenagem a ele eu gostaria de lan\u00e7ar [o novo romance] na banca. Eu sempre falo com a Helena, filha dele. O Joaquim era uma das pessoas mais generosas que conheci.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Milton, sua obra sempre retratou Manaus, em grande parte dela. Uma Manaus fragmentada, quase sempre de outras \u00e9pocas. Quando voc\u00ea lan\u00e7ou a trilogia, lembro que conversamos , e voc\u00ea anunciou que seria uma obra diferente, sobre outros contextos, ambientado em outras cidades brasileiras. Voc\u00ea se sente motivado a voltar a situar Manaus nas suas obras ou ela n\u00e3o encanta mais?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>Sem d\u00favida. Eu acho que em algum momento Manaus, o Amazonas, podem ressurgir na minha fic\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o est\u00e1 de jeito nenhum descartado. E at\u00e9 mesmo eu penso num livro de mem\u00f3rias. Da inf\u00e2ncia. Da Manaus que a gente perdeu. Manaus que a minha gera\u00e7\u00e3o perdeu aquilo que Thiago de Mello dizia: \u2018Milton, essa Manaus eu n\u00e3o conhe\u00e7o mais\u2019. \u00c9 uma outra cidade, virou uma cidade muito hostil. Mas tem as pessoas. Tenho alguns amigos. Tem o rio Negro, que \u00e9 um encanto eterno. E isso ningu\u00e9m conseguir\u00e1 destruir. Mas Manaus virou uma cidade muito dura para a maioria da popula\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o pode separar o desastre ambiental do desastre urbano. Manaus \u00e9 uma cidade no cora\u00e7\u00e3o da floresta, que n\u00e3o \u00e9 arborizada e isso \u00e9 inconceb\u00edvel. \u00c9 uma burrice.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Acho curioso \u00e9 que muitas pessoas de Manaus s\u00e3o negacionistas ambientais, menosprezam a floresta, como se fosse s\u00edmbolo de atraso. As pessoas t\u00eam vergonha de \u00e1rvores.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum<\/strong> \u2013 Porque elas n\u00e3o sabem que n\u00f3s fazemos parte constitutiva da natureza. O Ailton Krenak est\u00e1 dizendo isso e vem dizendo h\u00e1 anos. Todos os livros dele insistem nesse ponto. Quer dizer, n\u00f3s somos insepar\u00e1veis da natureza. O viaduto \u00e9 uma esp\u00e9cie de atalho que n\u00e3o d\u00e1 certo. As pessoas no clima quente, \u00famido, preferem caminhar, viver e andar na sombra, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Porque a sombra \u00e9 um remanso. \u00c9 um remanso no calor. Ent\u00e3o a cidade toda devia ser arborizada, devia ter parques, devia ser saneada.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 A Manaus dos teus livros n\u00e3o \u00e9 a mesma?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mais. Eu acho que a cidade vai voltar em algum momento na minha fic\u00e7\u00e3o. Ah, eu tenho algumas ideias, mas voc\u00ea sabe. O dif\u00edcil do romance \u00e9 transformar as ideias em palavras. Manaus vai voltar um dia. Manaus nunca sai de mim, viu Ela\u00edze?<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Sim, voc\u00ea volta de vez em quando. O que pensa quando volta?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum<\/strong> \u2013 Eu penso muito, penso\u2026 a inf\u00e2ncia e a juventude de um escritor ou uma escritora s\u00e3o fundamentais. Voc\u00ea n\u00e3o se desliga disso. Quer dizer, para qualquer pessoa, n\u00e3o \u00e9 verdade? Mas para quem escreve \u00e9 como se fossem fontes inesgot\u00e1veis. Sabe, do imagin\u00e1rio. \u00c9 isso. A inf\u00e2ncia e a juventude s\u00e3o fontes inesgot\u00e1veis do imagin\u00e1rio, da mem\u00f3ria. Tem uma Manaus dentro de mim que n\u00e3o pode ir embora.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 A tua inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia\u2026tua juventude. Ainda h\u00e1 muito hist\u00f3ria para contar<\/strong>.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013\u00a0 <\/strong>Tem muita hist\u00f3ria. Se eu escrever essas mem\u00f3rias d\u00e1 para al\u00e9m da inf\u00e2ncia. Sim, tem muita coisa. \u00c9 que eu ainda tenho outras ideias. H\u00e1 outros projetos na frente disso e um deles era essa trilogia. Ainda tem depois um quarto volume.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Ent\u00e3o ser\u00e1 uma<\/strong> <strong>tetralogia, ou um ap\u00eandice?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013<\/strong> Seria mais ou menos isso. N\u00e3o est\u00e1 ligada diretamente \u00e0 trilogia, mas \u00e0 personagem principal, que \u00e9 uma das personagens. A protagonista \u00e9 uma mulher que conta uma hist\u00f3ria e uma das personagens que aparece logo no primeiro romance. No primeiro volume, \u201cA Noite da Espera\u201d, e depois era citada tamb\u00e9m no segundo e no terceiro. No terceiro, ela \u00e9 muito citada. Ent\u00e3o, no quarto estou pensando, j\u00e1 escrevendo. Ela \u00e9 a protagonista. Ela \u00e9 a narradora de uma hist\u00f3ria pro Martin. Pro amigo dela. \u00c9 a \u00fanica amiga. \u00c9 a maior amiga do Martin na Fran\u00e7a. O nome dela \u00e9 Evelyn. Evelyn, Evelyn.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Um dos meus livros prediletos \u00e9 \u201c\u00d3rf\u00e3os do Eldorado\u201d, que \u00e9 um romance mais conciso, e cuja narrativa principal n\u00e3o acontece em Manaus. \u00c9 ambientada em uma cidade fict\u00edcia \u00e0 beira do rio Amazonas, mas quem \u00e9 de Parintins [como eu] e tem refer\u00eancias dos elementos descritoss do romance reconhece a cidade e se v\u00ea nos personagens. Estou aqui comentando porque \u00e9 um livro muito querido para mim.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>\u00c9 um dos<strong> <\/strong>meus livros preferidos e \u00e9 um dos livros prediletos dos meus amigos cr\u00edticos liter\u00e1rios. Eles gostam muito do \u201c\u00d3rf\u00e3os do Eldorado\u201d. Agora vai ter uma nova edi\u00e7\u00e3o, uma capa do Luiz Braga, todos os livros est\u00e3o sendo editados com fotos dele. \u00c9 um fot\u00f3grafo paraense. Ele fez uma exposi\u00e7\u00e3o agora no Instituto Moreira Salles, aqui em S\u00e3o Paulo. Ele \u00e9 do Par\u00e1 e o pai dele era um amazonense de Tef\u00e9, de onde era o Joaquim Melo. Ent\u00e3o ele fez capas bel\u00edssimas.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Como \u00e9 o seu trabalho? Uma vez voc\u00ea me disse que demora para escrever, sempre tem um espa\u00e7o grande entre um e outro romance.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>\u00c9 um trabalho muito bra\u00e7al mesmo. Eu sou muito lento. Escrevo \u00e0 m\u00e3o ainda. Penso muito nas personagens, nos conflitos e, para organizar tudo isso, demora muito. \u201cDois Irm\u00e3os\u201d foram dez anos. Essa trilogia tem mais de 15 anos. \u00c9 muito lento. Eu sou muito auto-exigente. Ent\u00e3o, enquanto eu achar que aquilo n\u00e3o est\u00e1 bom, que eu n\u00e3o publico.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Me fale mais sobre o processo de escrever \u00e0 m\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>Meu pensamento \u00e9 mais r\u00e1pido quando escrevo \u00e0 m\u00e3o. Eu sou muito lento no teclado e, \u00e0 m\u00e3o, n\u00e3o. Eu tenho, vamos dizer, o contato direto no papel. Parece que flui com mais rapidez. Eu me acostumei e nunca mais larguei esse h\u00e1bito de escrever \u00e0 m\u00e3o. Mas isso n\u00e3o \u00e9 um problema. Porque depois eu mesmo passo pro computador.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 J\u00e1 escrevi trabalhos acad\u00eamicos \u00e0 m\u00e3o. Tinha deixado esse costume e fiquei admirada por ter conseguido brevemente. Mas n\u00e3o d\u00e1 manter essa pr\u00e1tica. Minha letra n\u00e3o \u00e9 mais a mesma. Como \u00e9 a sua caligrafia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013<\/strong> Olha, mod\u00e9stia \u00e0 parte, minha caligrafia \u00e9 muito boa. Desde o Grupo Escolar Bar\u00e3o do Rio Branco [em Manaus] que a minha querida e saudosa, dona Maria Luiza de Freitas Pinto, que me alfabetizou, que \u00e9 tia do Renan Freitas Pinto [intelectual da Amaz\u00f4nia e soci\u00f3logo, autor de obras como \u201cViagens das Ideias\u201d] e Leila Freitas Pinto [jornalista e escritora]. Ela foi a minha professora. Ela me alfabetizou. Ela foi ao lan\u00e7amento do meu livro, j\u00e1 bem idosa.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Voc\u00ea mant\u00e9m o h\u00e1bito de escrever \u00e0 m\u00e3o sobre outros assuntos, em outras situa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013<\/strong> Eu n\u00e3o perdi esse h\u00e1bito [de escrever \u00e0 m\u00e3o]. \u00c9 uma coisa que faz parte do meu corpo. Quando eu era cronista do Estad\u00e3o, fazia isso, pegar uma caneta. Quando eu ia, sa\u00eda por a\u00ed em S\u00e3o Paulo, levava uma cadernetinha, uma caneta e anotava. Anotava as pessoas, moradores de rua, conversava com eles, as pessoas que passavam. Eu conversava, anotava a cr\u00f4nica tamb\u00e9m. E \u00e9 isso. Voc\u00ea tem que sair de casa e procurar um assunto.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Vamos falar sobre outra quest\u00e3o muito preocupante, muito pr\u00f3ximo do nosso tempo e da nossa hist\u00f3riaque o genoc\u00eddio dos palestinos em Gaza. Voc\u00ea tem se posicionado fortemente, nas plataformas sociais e em outros espa\u00e7os p\u00fablicos. Gostaria que voc\u00ea comentasse.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013<\/strong> O que n\u00f3s estamos vendo hoje e vendo, literalmente, \u00e9 um genoc\u00eddio. Agora, isso \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o de um processo hist\u00f3rico que come\u00e7ou em 1948 na funda\u00e7\u00e3o do Estado de Israel e at\u00e9 um pouco antes. Voc\u00ea n\u00e3o entende a Palestina, essa trag\u00e9dia, se voc\u00ea n\u00e3o entender o que \u00e9 o projeto sionista. O projeto sionista \u00e9 um projeto colonizador. \u00c9 um projeto que j\u00e1 est\u00e1 no livro do pai do sionismo, do Theodor Herzl (1860-1904), de 1898, chamado \u201cO Estado Judeu\u201d. E depois os governantes judeus desde a funda\u00e7\u00e3o, inclusive o Ben-Gurion (primeiro chefe de estado de Israel). Ele fala no lar exclusivamente judaico. Ora, pra voc\u00ea estabelecer um Estado judeu, numa terra onde viviam em 1948 1 milh\u00e3o de palestinos, o que voc\u00ea tem que fazer? Expulsar essa popula\u00e7\u00e3o. E foi o que aconteceu entre 1948 e 1951: 750.000 palestinos foram obrigados a fugir. Foram expulsos de suas terras e suas casas, do com\u00e9rcio, da agricultura, enfim. Era uma sociedade sob o mandato brit\u00e2nico e antes sob o dom\u00ednio otomano. A cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, com a a\u00e7\u00e3o direta dos brit\u00e2nicos, tudo isso come\u00e7ou a esvaziar o territ\u00f3rio palestino de seu povo. Ent\u00e3o voc\u00ea imagina: 750.000 pessoas que tiveram que sair, que foram para Jord\u00e2nia, foram pro L\u00edbano, foram para S\u00edria, foram para Gaza. O que \u00e9 Gaza hoje? Ou o que era? Hoje a gente n\u00e3o sabe mais se h\u00e1 2 milh\u00f5es de pessoas l\u00e1. Eu acho que pelo menos 200.000 pessoas j\u00e1 foram assassinadas. Mas Gaza era uma pris\u00e3o a c\u00e9u aberto de palestinos que foram expulsos dali, da fronteira ou a poucos quil\u00f4metros da fronteira. Quem inventou esse territ\u00f3rio, Gaza, foram os israelenses. Eles cercaram e encurralaram 2 milh\u00f5es de palestinos, que viviam penosamente numa pris\u00e3o a c\u00e9u aberto. Era tudo controlado. Explodiu. Chegou o momento em que a resist\u00eancia palestina explodiu. A gente deve condenar o ataque de 7 de outubro de 2023. Foi horr\u00edvel. Mas por que aconteceu isso? Por que todo esse processo? S\u00e3o mais de 70 anos expulsando os palestinos, matando os palestinos, invadindo vilarejos.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 S\u00e3o muitos anos, d\u00e9cadas, de viol\u00eancia na hist\u00f3ria.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>Tem toda uma hist\u00f3ria por tr\u00e1s disso. S\u00e3o mais de sete d\u00e9cadas de assassinatos. Olha, \u00e9 inacredit\u00e1vel o que o povo palestino vem sofrendo. E \u00e9 surpreendente que os judeus, esses judeus sionistas, cujos pais ou cujos av\u00f3s sobreviveram ao Holocausto, fa\u00e7am isso. \u00c9 como disse um grande intelectual palestino, Edward Said (1935-2003): \u2018n\u00f3s somos as v\u00edtimas das v\u00edtimas\u2019. Essa \u00e9 uma frase, uma frase poderosa do Edward Said, autor de um cl\u00e1ssico chamado \u201cOrientalismo\u201d, que \u00e9 muito lido no mundo todo. N\u00e3o consigo ficar calado diante dessa cat\u00e1strofe. Milhares e milhares de crian\u00e7as assassinadas deliberadamente. Mais de 4000 crian\u00e7as mutiladas.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 V\u00edtimas de assassinatos, de massacres, da fome. Est\u00e3o morrendo de fome.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum \u2013 <\/strong>E como agravante, j\u00e1 faz meses da fome. Quer dizer, a fome como arma. Isso \u00e9 um crime. Se voc\u00ea pensar que esse Estado est\u00e1 agindo impunemente, apesar das san\u00e7\u00f5es dos tribunais internacionais, de todos os comit\u00eas de Direitos humanos. Da ONU e n\u00e3o s\u00f3 da ONU. Que est\u00e3o condenando genoc\u00eddio que o Estado Israel continua a agir impunemente com a ajuda direta dos Estados Unidos. O governo americano, tanto do governo anterior, do Joe Biden, quanto do governo do atual presidente. Dessa figura grotesca, autorit\u00e1ria e com a cumplicidade de uma boa parte da Europa, com exce\u00e7\u00e3o da Espanha e da Irlanda.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Sinto que as pessoas n\u00e3o t\u00eam coragem de falar, silenciam. Inclusive grande parte da m\u00eddia brasileira.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum<\/strong> \u2013 \u00c9 a cumplicidade das pessoas que t\u00eam voz, mas silenciam quanto \u00e0 quest\u00e3o palestina. Da grande m\u00eddia tamb\u00e9m. Quer dizer, da manipula\u00e7\u00e3o do que eles chamam de guerra. N\u00e3o \u00e9 uma guerra, \u00e9 um exterm\u00ednio. Olha, eu indico para os meus leitores e leitoras da Amaz\u00f4nia Real, um livro. Um romance que \u00e9 maravilhoso, de um escritor liban\u00eas chamado Elias Khoury (1948-2024). Esse romance se chama \u201cMeu nome \u00e9 Adam\u201d. Ele conta essa hist\u00f3ria do primeiro gueto palestino, em julho de 1948, numa cidade chamada L\u00eddice, que \u00e9 colada hoje \u00e0 Tela Aviv. Um romance de 400 p\u00e1ginas de uma complexidade enorme. E ele conta a hist\u00f3ria desse sobrevivente, Ad\u00e3o. E nessa hist\u00f3ria ele fala que na hora, quando massacraram esse vilarejo, os soldados israelenses falaram aos palestinos sobreviventes que eles iam ter que viver ali, num gueto. Os palestinos n\u00e3o conheciam a palavra \u201cgueto\u201d, porque \u00e9 uma palavra europeia, dos guetos nazistas, onde judeus foram confinados. Olha que coisa incr\u00edvel. A hist\u00f3ria se repetindo, mas de uma maneira realmente muito triste, porque as v\u00edtimas do passado s\u00e3o os algozes.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Vamos voltar a falar da tua nova casa, a ABL. Como est\u00e3o os preparativos para a posse? Voc\u00ea vai vestir o fard\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum<\/strong> \u2013 Depois do Krenak, eu acho que todo mundo veste. <strong>\u00a0<\/strong>Vou ter que fazer a prova e tudo mais. Ia ser no final de novembro, mas tive que adiar porque tenho muitos compromissos. Tenho que preparar um discurso tamb\u00e9m. E n\u00e3o \u00e9 qualquer coisa. Tenho que me concentrar. Organizar e concentrar. Com esse terceiro volume eu tenho muitos compromissos. Ent\u00e3o adiei para mar\u00e7o de 2026. N\u00e3o sei ainda o dia. Isso vai depender da pr\u00f3pria dire\u00e7\u00e3o da ABL, que tem que ser numa sexta-feira.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Quando voc\u00ea foi eleito para ABL, naturalmente houve um entuasiasmo in\u00e9dito no meio liter\u00e1rio, mas de uma forma mais especial na Amaz\u00f4nia, no Amazonas em particular. Por que a regi\u00e3o Norte \u00e9 t\u00e3o \u00e0 margem, existe uma desigualdade regional que atinge at\u00e9 o meio liter\u00e1rio. Outros j\u00e1 poderiam ter entrado?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum<\/strong> \u2013 J\u00e1 havia acad\u00eamicos da regi\u00e3o. Por exemplo, um dos fundadores da ABL foi o Jos\u00e9 Ver\u00edssimo (1857-1916). Foi um grande cr\u00edtico paraense. Mas h\u00e1 outros escritores. Poderiam ter entrado M\u00e1rcio Souza (1946-2024), o Thiago de Mello (1926-2022). O M\u00e1rcio j\u00e1 tinha uma obra imensa e era traduzido, o Thiago idem.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 Acredito que a Amaz\u00f4nia \u00e9 muito comentada, mas muitas pessoas ainda atuam em defesa dela e de suas popula\u00e7\u00f5es como entretenimento, de forma superficial. As pessoas conhecem a Amaz\u00f4nia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum<\/strong> \u2013 Acho que \u00e9 verdade. Porque o duro mesmo \u00e9 voc\u00ea ir aos lugares. \u00c9 conhecer os lugares, ver ou pelo menos se interessar pelo que de fato est\u00e1 acontecendo com as terras ind\u00edgenas, com os ribeirinhos, com tudo que voc\u00eas, da Amaz\u00f4nia Real, fazem, por exemplo. Ent\u00e3o tem que ir. Hoje, pra voc\u00ea entender o que est\u00e1 acontecendo na Amaz\u00f4nia, voc\u00ea tem que ler as ag\u00eancias de not\u00edcias certas. Porque, quem \u00e9 que vai no fundo do problema? Quer dizer, de longe n\u00e3o d\u00e1 pra voc\u00ea saber.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 A Neide Gondim (intelectual e escritora amazonense), em \u201cA Inven\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia\u201d, descreve o imagin\u00e1rio que muitas pessoas cultivam sobre a Amaz\u00f4nia, que na verdade vem desde os primeiros invasores, dos cronistas, e da percep\u00e7\u00e3o idealizada do humano selvagem. Muitas pessoas ainda se consideram desbravadoras, no sentido colonial.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum<\/strong> \u2013 Gostei muito do livro dela, falei pra ela. Esse livro da Neide eu conversei muito com ela, inclusive porque ela foi influenciada pelo autor palestino americano que eu citei, o Edward Said, em \u201cO Oriente como inven\u00e7\u00e3o do Ocidente\u201d. Porque a vis\u00e3o do Ocidente sobre o Oriente \u00e9 uma vis\u00e3o do colonizador. O oriental, o \u00e1rabe, o mu\u00e7ulmano, o asi\u00e1tico? S\u00e3o rebaixados, s\u00e3o seres de cultura inferior. At\u00e9 hoje o livro [de Said] \u00e9 um dos grandes cl\u00e1ssicos sobre essa quest\u00e3o, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o colonizador e o colonizado. Ela n\u00e3o se faz apenas com a invas\u00e3o e a apropria\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Ela se faz tamb\u00e9m atrav\u00e9s do discurso de apropria\u00e7\u00e3o, vamos dizer, do discurso de superioridade em rela\u00e7\u00e3o ao colonizado. \u00c9 esse mesmo discurso de rebaixar o outro, de criminalizar, de demonizar o colonizado.<\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Amaz\u00f4nia Real \u2013 A gente v\u00ea esses discursos reproduzidos e representados em diferentes esferas, ambientes.<\/strong><\/p>\n<p class=\"col-xl-7 pl-3 pt-3 pr-3 pl-lg-0 pr-lg-0\"><strong>Milton Hatoum<\/strong> \u2013 Nos filmes de Hollywood, os \u00e1rabes aparecem como terroristas e os ind\u00edgenas aparecem como selvagens, atrasados. Bom, essas pessoas sequer leram os textos b\u00e1sicos de antropologia. Todo esfor\u00e7o da antropologia moderna foi no sentido de provar que as sociedades nativas s\u00e3o altamente complexas com seus mitos, com a sua arte, com a sua oralidade, com a sua culin\u00e1ria, com seus rituais. O Claude L\u00e9vi-Strauss escreveu, passou a vida toda falando sobre isso, ele e tantos outros antrop\u00f3logos. \u00c9 muita ignor\u00e2ncia e uma mistura de ignor\u00e2ncia com desfa\u00e7atez com cretinice. Porque alguns s\u00e3o ignorantes, outros sabem. Sabem que essas sociedades t\u00eam uma cultura complexa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/monta-3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1032\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/monta-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-164222\"  \/><\/a><\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">Capa do novo romance de Milton Hatoum e na mesa da Feira liter\u00e1ria de Parati (Foto: Walter Craveiro\/FLIP)<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center\">e<\/p>\n<p>                <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Escritor amazonense est\u00e1 prestes a encerrar a trilogia \u201cO lugar mais sombrio\u201d, com o lan\u00e7amento do terceiro livro&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":102074,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-102073","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102073","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102073"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102073\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/102074"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}