{"id":102227,"date":"2025-10-08T15:28:11","date_gmt":"2025-10-08T15:28:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/102227\/"},"modified":"2025-10-08T15:28:11","modified_gmt":"2025-10-08T15:28:11","slug":"novo-filme-de-luca-guadagnino-debate-limites-da-moralidade-08-10-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/102227\/","title":{"rendered":"Novo filme de Luca Guadagnino debate limites da moralidade &#8211; 08\/10\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Fazia tempo que uma personagem n\u00e3o trazia a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/julia-roberts\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Julia Roberts<\/a> tanta repercuss\u00e3o \u2014e tantos elogios\u2014 como Alma, a professora em crise que interpreta em &#8220;Depois da Ca\u00e7ada&#8221;, que estreia nesta quinta-feira. E, no entanto, foi com certo al\u00edvio que a atriz se despediu do papel.<\/p>\n<p>&#8220;Alma e eu passamos mais do que o tempo suficiente juntas&#8221;, disse Roberts, no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/festival-de-veneza\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Festival de Veneza<\/a>, no m\u00eas passado, quando o longa do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/08\/luca-guadagnino-enfrenta-a-guerra-entre-o-wokenismo-e-a-impunidade-em-novo-filme.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">italiano Luca Guadagnino<\/a> estreou mundialmente. &#8220;Em alguns dias, eu me divertia com ela. Mas, em outros, Alma significava para mim uma luta exaustiva.&#8221;<\/p>\n<p>Esse embate extenuante entre atriz e personagem \u00e9 compreens\u00edvel, porque encontrar o tom para interpretar Alma n\u00e3o h\u00e1 de ter sido f\u00e1cil \u2014em cena, ela sofre press\u00f5es de todos os lados e tem ainda um passado sombrio a enfrentar. \u00c9 uma professora de filosofia que ocupa um posto de prest\u00edgio na Universidade Yale, nos Estados Unidos. Elege a dedo seus orientandos e diz s\u00f3 escolher os brilhantes \u2014embora o marido lhe jogue na cara que sua prefer\u00eancia seja pelos que refor\u00e7am seu narcisismo.<\/p>\n<p>E talvez ele tenha raz\u00e3o, porque a atual disc\u00edpula de Alma \u00e9 Maggie, vivida por <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/lucianacoelho\/2023\/08\/o-urso-oferece-um-banquete-de-angustias-do-nosso-tempo-na-segunda-temporada.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Ayo Edebiri<\/a>, uma jovem l\u00e9sbica, negra, que idolatra a orientadora, mas que levanta suspeitas de estar cometendo pl\u00e1gio em sua disserta\u00e7\u00e3o. E \u00e9 um dos grande amigos de Alma, o tamb\u00e9m professor Hank, interpretado por <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/andrew-garfield\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Andrew Garfield<\/a>, quem tenta dar uma apertada em Maggie para saber a verdade.<\/p>\n<p>Mas um dia ele bebe demais e faz mais do que &#8220;apertar&#8221; a mo\u00e7a, e a jovem o acusa de estupro. N\u00e3o fica claro o que realmente aconteceu, mas Hank nega, e ambos pedem a Alma ajuda no processo penal.<\/p>\n<p>Enquanto tenta agir com equil\u00edbrio, apesar das cobran\u00e7as dos dois lados, a professora se v\u00ea diante de dilemas entre demandas de um feminismo mais contempor\u00e2neo e sua pr\u00f3pria vis\u00e3o de mundo, que ela forjou ao longo de sua atribulada vida. E ainda lhe surge um problema suplementar, quando v\u00eam \u00e0 tona segredos do passado que t\u00eam certa rela\u00e7\u00e3o com o caso.<\/p>\n<p>Expondo conflitos entre o que defende a gera\u00e7\u00e3o woke e um progressismo mais tradicional, &#8220;Depois da Ca\u00e7ada&#8221; gerou muita discuss\u00e3o em Veneza, inclusive com algumas feministas torcendo o nariz, chiando pelo fato de o filme trazer duas mulheres em confronto, em uma situa\u00e7\u00e3o que deveria uni-las \u2014o abuso sexual. Mas Roberts diz que o temor diante da possibilidade de rea\u00e7\u00f5es extremas lhe foi estimulante.<\/p>\n<p>&#8220;Eu acho que voc\u00ea tem que ter medo. Se n\u00e3o tem, voc\u00ea est\u00e1 confort\u00e1vel al\u00e9m do que deveria no mundo da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/arte\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">arte<\/a>. E \u00e9 por isso que voc\u00ea deixa o aconchego da sua pr\u00f3pria casa para ir a lugares desconfort\u00e1veis&#8221;, ela diz.<\/p>\n<p>&#8220;Eu tento sempre encontrar algo diferente nos personagens que eu escolho. O que, claro, fica mais dif\u00edcil quanto mais pap\u00e9is voc\u00ea interpreta. Mas tamb\u00e9m fica mais interessante quanto mais velha voc\u00ea fica. Porque seu ponto de vista e seus recursos se tornam muito mais vastos&#8221;, diz, ressaltando em seguida que, apesar da experi\u00eancia acumulada em seus 57 anos de vida, a confian\u00e7a em Guadagnino foi fundamental. &#8220;Se meu navio come\u00e7ava a desviar do curso que definimos, ele gentilmente me guiava de volta, para onde sabia que deveria ir.&#8221;<\/p>\n<p>O diretor diz considerar o longa uma esp\u00e9cie de &#8220;thriller moral&#8221;. &#8220;\u00c9 sobre o que est\u00e1 por tr\u00e1s da fachada dos personagens e de como eles v\u00e3o tentar constantemente eclipsar, com sua pr\u00f3pria perspectiva da verdade, a perspectiva da verdade dos outros. O filme foi criado para explorar muitos detalhes nesse sentido, mas tentando tamb\u00e9m expor o que n\u00e3o \u00e9 dito, para al\u00e9m do que as pessoas tanto falam.&#8221;<\/p>\n<p>Dois dos filmes mais conhecidos de Guadagnino, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/06\/diretor-de-me-chame-pelo-seu-nome-fara-filme-sobre-chatgpt.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Me Chame pelo Seu Nome&#8221;<\/a>, de 2017, e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/12\/luca-guadagnino-junta-paixoes-liricas-e-torridas-no-surreal-queer.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Queer&#8221;<\/a>, do ano passado, traziam de certo modo personagens de gera\u00e7\u00f5es distintas que procuravam se entender, apesar da diferen\u00e7a de idade. Desta vez, por\u00e9m, existe mais marcadamente um conflito de vis\u00f5es, com cada gera\u00e7\u00e3o tentando impor a sua.<\/p>\n<p>&#8220;O filme \u00e9 sobre o que acontece quando algu\u00e9m quer falar uma verdade subjetiva, e o quanto o outro est\u00e1 disposto a ouvi-la. \u00c9 como um jogo de poderes, e isso \u00e9 o que me interessou no material&#8221;, diz, sobre o roteiro da estreante Nora Garrett.<\/p>\n<p>Mas o diretor n\u00e3o cr\u00ea que se trate exatamente de uma guerra geracional. &#8220;Acho que sempre h\u00e1 a necessidade de a gera\u00e7\u00e3o mais jovem tentar superar aquela que a antecedeu. Creio inclusive que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e importante. E acho que abrir um di\u00e1logo com algu\u00e9m que possa ter outra perspectiva \u00e9 vital. Permite-nos ver as coisas de um \u00e2ngulo diferente. Gosto de pensar que o filme \u00e9 uma esp\u00e9cie de cabo-de-guerra, mas em que uma pessoa qualquer tenta prevalecer sobre a outra, muito mais do que propriamente uma disputa geracional&#8221;, explica Guadagnino.<\/p>\n<p>Conhecida por seu papel como a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/07\/como-ayo-edebiri-de-o-urso-virou-a-queridinha-de-hollywood-e-icone-fashion.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">chef Sydney na s\u00e9rie &#8220;O Urso&#8221;, Ayo Edebiri<\/a>, que no longa d\u00e1 vida \u00e0 estudante que diz ter sido estuprada, concorda com o diretor sobre a necessidade de interlocu\u00e7\u00e3o entre as gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Vai demandar muito trabalho \u2014e trabalho s\u00e9rio. Eu sei que preciso fazer minha parte, outros grupos ter\u00e3o que fazer a deles. E mesmo quem acha que j\u00e1 fez sua parte tamb\u00e9m vai ter que trabalhar nesse sentido&#8221;, diz Edebiri, sobre uma prov\u00e1vel &#8220;concilia\u00e7\u00e3o&#8221; entre gera\u00e7\u00f5es com pensamentos diferentes, mas unidas por um desejo de progressismo.<\/p>\n<p>&#8220;Precisaremos estabelecer muitas conversas, por mais tediosas, desagrad\u00e1veis e repetitivas que possam parecer. Mas vamos todos ter que mergulhar nessa lama. Vai ser chato, mas o ponto \u00e9 esse: precisa ser desagrad\u00e1vel para que algo verdadeiro saia dessas interlocu\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Andrew Garfield, que interpreta o professor acusado de estupro, ressalta que um dos grandes acertos do roteiro \u00e9 evitar vilanizar ou santificar demais quem quer que seja. &#8220;O roteiro faz isso maravilhosamente: n\u00e3o coloca ningu\u00e9m unicamente como a v\u00edtima, o vil\u00e3o ou o her\u00f3i. Assim, mostra a cada espectador um espelho para que ele reconhe\u00e7a a si mesmo, que reflita sobre sua rela\u00e7\u00e3o com sua pr\u00f3pria vilania&#8221;, diz o ator, que em seguida pontua, rindo: &#8220;Mas deixo claro que n\u00e3o estou dizendo que meu personagem n\u00e3o seja um vil\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Depois da Ca\u00e7ada&#8221; \u00e9 um filme com muitos di\u00e1logos, v\u00e1rios deles trazendo men\u00e7\u00f5es a conceitos filos\u00f3ficos, o que pode fazer alguns espectadores se dispersarem de vez em quando. A pr\u00f3pria Julia Roberts diz que pediu ajuda para a filha para a composi\u00e7\u00e3o de Alma \u2014nem tanto para saber as vis\u00f5es de mundo de outra gera\u00e7\u00e3o, mas um aux\u00edlio para melhor mergulhar no universo intelectual da personagem.<\/p>\n<p>&#8220;Minha filha \u00e9 formada em filosofia, ent\u00e3o eu pedi para ela ler o roteiro. Perguntei se aquela professora parecia cr\u00edvel, e felizmente ela meu deu o sinal verde&#8221;, diz a atriz. &#8220;\u00c9 que eu quis ter uma compreens\u00e3o mais profunda do que eu estava apresentando. Todos aqueles ensinamentos filos\u00f3ficos em sala de aula&#8230; Voc\u00ea tem que entender o que est\u00e1 falando. E essa linguagem \u00e9 t\u00e3o particular, com jarg\u00f5es pr\u00f3prios. Ser professora \u00e9 profundamente significativo para Alma, ela realmente ama desvendar o quebra-cabe\u00e7a nas mentes dos alunos jovens e ajud\u00e1-los a entender o mundo.&#8221;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 em palavr\u00f3rio que o filme se estrutura: h\u00e1 tamb\u00e9m bastante m\u00fasica. E Guadagnino, como j\u00e1 havia feito em &#8220;Queer&#8221;, com Caetano Veloso, recorre a algumas vozes brasileiras no novo longa. E a escolha por vezes tem a ver com o que a pr\u00f3pria letra diz, mesmo em portugu\u00eas, ainda que o longa seja falado em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>&#8220;O filme quer que uma reconcilia\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a, e n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a m\u00fasica que aparece ali muitas vezes, de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1994\/12\/09\/caderno_especial\/4.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Antonio Carlos Jobim<\/a> [na verdade, de autoria de Carlos Coqueijo e Alcivando Luz], \u00e9 \u2018\u00c9 Preciso Perdoar\u2019. Porque o perd\u00e3o \u00e9 importante, e o longa \u00e9 tamb\u00e9m sobre isso. H\u00e1 ali uma esp\u00e9cie de necessidade de entender o outro. Acho que \u00e9 um filme muito esperan\u00e7oso.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fazia tempo que uma personagem n\u00e3o trazia a Julia Roberts tanta repercuss\u00e3o \u2014e tantos elogios\u2014 como Alma, a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":102228,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[15016,207,470,114,115,147,148,236,15027,15029,146,32,33],"class_list":{"0":"post-102227","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-andrew-garfield","9":"tag-arte","10":"tag-cinema","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-film","14":"tag-filmes","15":"tag-folha","16":"tag-julia-roberts","17":"tag-luca-guadagnino","18":"tag-movies","19":"tag-portugal","20":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=102227"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/102227\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/102228"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=102227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=102227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=102227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}