{"id":10336,"date":"2025-07-31T15:59:08","date_gmt":"2025-07-31T15:59:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/10336\/"},"modified":"2025-07-31T15:59:08","modified_gmt":"2025-07-31T15:59:08","slug":"flip-neige-sinno-aborda-o-estupro-como-trauma-coletivo-31-07-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/10336\/","title":{"rendered":"Flip: Neige Sinno aborda o estupro como trauma coletivo &#8211; 31\/07\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe segredo ou suspense em &#8220;Triste Tigre&#8221;, de Neige Sinno. A parte mais dura de se ler, a expl\u00edcita, que corta o ar e faz as m\u00e3os suarem vem logo de cara.<\/p>\n<p>Na obra, vencedora de pr\u00eamios como Femina e Goncourt des Lyc\u00e9ens, a autora francesa escreve sobre os estupros sequenciais que sofreu do padrasto, sua decis\u00e3o de denunci\u00e1-lo ainda \u00e0 \u00e9poca, o julgamento que se seguiu e sua pr\u00f3pria vida p\u00f3s-viol\u00eancia. A autora apresenta no livro na <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/flip\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Flip<\/a> nesta quinta, em palco \u00e0s 12h com Anabela Mota Ribeiro.<\/p>\n<p>Sem se preocupar em poupar quem l\u00ea, mas sim em escrutinar as entranhas do abuso sexual enquanto fen\u00f4meno psicossocial, o texto de Sinno alterna descri\u00e7\u00f5es quase gr\u00e1ficas e um esfor\u00e7o genu\u00edno de compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>A autora quer entender a Justi\u00e7a e suas assimetrias em casos de crimes sexuais; a sociedade e seu perd\u00e3o seletivo; o direito \u00e0 ressocializa\u00e7\u00e3o de quem comete tamanha brutalidade contra uma crian\u00e7a; a vergonha; o perfil da v\u00edtima, o que pensam as v\u00edtimas e, principalmente, o que pensam os algozes.<\/p>\n<p>Com todas essas ang\u00fastias passeando pelos seus relatos, Sinno desenrola uma colagem de mem\u00f3rias repleta de an\u00e1lises complexas sobre os aspectos psicol\u00f3gicos, sociol\u00f3gicos e legais que envolvem, alimentam e perpetuam a pr\u00e1tica do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/estupro\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">estupro<\/a>. Uma densa, mas n\u00e3o exagerada, dose de teoria subjaz ao texto, assim como as men\u00e7\u00f5es aos trabalhos de escritoras como Toni Morrison, Virginia Woolf e Virginie Despentes.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo da obra \u00e9 tamb\u00e9m uma refer\u00eancia liter\u00e1ria, uma par\u00e1frase de &#8220;Tigre, Tigre&#8221; de Margaux Fragoso, que mergulha no mesmo tema e, por sua vez, se inspira em um poema de William Blake.<\/p>\n<p>O tigre \u00e9, para Sinno, o abusador em contraposi\u00e7\u00e3o ao cordeiro, a v\u00edtima. E esse antropomorfismo intriga a autora, que \u2014a partir de sua experi\u00eancia familiar de abuso\u2014 passa a indagar se \u00e9 poss\u00edvel, como questiona o poeta, que tigre e cordeiro sejam feitos do mesmo material.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Embora escale todo um repert\u00f3rio de atrocidades ao redor do mundo para subsidiar suas reflex\u00f5es, Neige Sinno nunca esquece de seu pr\u00f3prio lugar social, de uma mulher branca, francesa e pobre.<\/p>\n<p>Busca informa\u00e7\u00f5es na psican\u00e1lise, pensa a viol\u00eancia a partir de livros sobre a escravid\u00e3o, o Holocausto, a guerra da Arg\u00e9lia, tece paralelos cuidadosos com as caracter\u00edsticas dos traumas, a crueldade e manipula\u00e7\u00e3o, o lugar de poder do abusador e as cicatrizes que a viol\u00eancia imprime no corpo e no esp\u00edrito desse &#8220;ex\u00e9rcito de sombras&#8221; \u2014como ela vai chama o conjunto de quem passa pela experi\u00eancia do abuso sexual.<\/p>\n<p>N\u00e3o ignorar seus pr\u00f3prios marcadores permite que ela estabele\u00e7a, de forma sensata e respeitosa, as diferentes propor\u00e7\u00f5es dos sofrimentos que relata \u2014seja em primeira ou terceira pessoa.<\/p>\n<p>O repert\u00f3rio anal\u00edtico ainda busca paralelos com hist\u00f3rias de outras pessoas pr\u00f3ximas ou noticiadas pelos jornais. Estas \u00faltimas, critica Sinno, pendulam entre alimentar o trauma coletivo da viola\u00e7\u00e3o e relativizar os danos causados \u00e0s v\u00edtimas, seja pela fetichiza\u00e7\u00e3o do ato, seja pela exalta\u00e7\u00e3o das hist\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas, quase sempre falaciosas, segundo a vis\u00e3o da autora.<\/p>\n<p>No fim das contas, o mal-estar que a obra provoca n\u00e3o se restringe ao trauma do estupro que a autora sofreu em idade de alfabetiza\u00e7\u00e3o, mas se amplia ao fato de que ela nos envolve no trauma coletivo.<\/p>\n<p>Sinno faz da sociedade inteira part\u00edcipe. E \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o perene, pois &#8220;quem foi v\u00edtima uma vez \u00e9 sempre v\u00edtima e, principalmente, \u00e9 v\u00edtima pra sempre&#8221;, afirma a autora \u2014n\u00e3o sem se censurar depois pelo risco de generalizar as experi\u00eancias de viol\u00eancia sexual.<\/p>\n<p>Generalizando ou n\u00e3o, a experi\u00eancia desta autora, hoje com 48 anos de idade, \u00e9 bastante comum. S\u00f3 em 2022 no Brasil, de acordo com o F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, foram registrados mais de 74 mil casos de estupro. Cerca de 61% das v\u00edtimas s\u00e3o crian\u00e7as e adolescentes com at\u00e9 13 anos de idade. Eis o nosso pr\u00f3prio &#8220;ex\u00e9rcito de sombras&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"N\u00e3o existe segredo ou suspense em &#8220;Triste Tigre&#8221;, de Neige Sinno. 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