{"id":103840,"date":"2025-10-09T17:50:08","date_gmt":"2025-10-09T17:50:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/103840\/"},"modified":"2025-10-09T17:50:08","modified_gmt":"2025-10-09T17:50:08","slug":"comprei-um-livro-das-maos-de-plinio-marcos-09-10-2025-andancas-na-metropole","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/103840\/","title":{"rendered":"Comprei um livro das m\u00e3os de Pl\u00ednio Marcos &#8211; 09\/10\/2025 &#8211; Andan\u00e7as na metr\u00f3pole"},"content":{"rendered":"<p>Em 1983, num s\u00e1bado, comprei um livro das m\u00e3os do dramaturgo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-100-anos\/2021\/08\/plinio-marcos-escreveu-cronicas-da-quebrada-para-folha-dos-anos-1970.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Pl\u00ednio Marcos<\/a> no <a href=\"https:\/\/memoriaccsp.org.br\/o-que-e-o-memorias-ccsp\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Centro Cultural S\u00e3o Paulo<\/a>, no bairro do Para\u00edso. Estava ali para ver um show, acho que do grupo Premeditando o Breque. O t\u00edtulo da obra era Madame Blavatsky, pe\u00e7a teatral que conta a vida da m\u00edstica russa Helena Blavatsky, cujas ideias misturavam filosofia hindu, ci\u00eancia e esoterismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro quanto paguei por ele, mas foi bem barato. Tratava-se de uma edi\u00e7\u00e3o de bolso, com capa verde e papel de m\u00e1 qualidade, produzida pelo pr\u00f3prio Pl\u00ednio. Anos mais tarde, dei de presente para uma namorada. A pe\u00e7a seria montada pelo diretor Jorge Takla em 1985. Foi um grande sucesso. Recentemente, inspirou o mon\u00f3logo <a href=\"https:\/\/cultura.uol.com.br\/entretenimento\/noticias\/2023\/03\/13\/6219_mel-lisboa-estreia-solo-madame-blavatsky-amores-ocultos-nesta-quarta-feira-15.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">&#8220;Madame Blavatsky \u2013 Amores Ocultos&#8221;<\/a>, com a atriz Mel Lisboa.<\/p>\n<p>O dramaturgo, que completaria 90 anos em setembro, se definia como um &#8220;camel\u00f4 da literatura&#8221;. At\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1980, perseguido pela ditadura, podia ser visto em portas de cinemas, teatros, restaurantes, como o Gigetto e o Piolin, casas de espet\u00e1culos e locais de aglomera\u00e7\u00e3o de jovens, como a pra\u00e7a Roosevelt, vendendo seus livros, humildemente, para quem quisesse comprar.<\/p>\n<p>J\u00e1 era um autor consagrado h\u00e1 d\u00e9cadas por pe\u00e7as como <a href=\"https:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/1729554477582417-veja-trechos-da-hq-barrela-adaptada-da-peca-homonima-de-plinio-marcos\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Barrela&#8221;<\/a>, &#8220;Navalha na Carne&#8221; e &#8220;Dois Perdidos numa Noite Suja&#8221;, mas dependia do trabalho nas ruas. Era considerado pornogr\u00e1fico e subversivo e se tornou um alvo preferencial da censura durante o regime militar.<\/p>\n<p>Foi detido e preso v\u00e1rias vezes e viu as portas se fecharem para qualquer emprego. Era tamb\u00e9m jornalista e ator. Atuou na novela &#8220;Beto Rockfeller&#8221;, por exemplo.<\/p>\n<p>No <a href=\"https:\/\/www.pliniomarcos.com\/dados\/origens.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">site oficial<\/a> de Pl\u00ednio h\u00e1 declara\u00e7\u00f5es que exp\u00f5em sua situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria. &#8220;Eu era proibido em todos os of\u00edcios que tinha \u2013cronista esportivo, cronista de carnaval, trabalhar na televis\u00e3o. Mas batalhei e voltei \u00e0s minhas origens. Camel\u00f4, vender meus livros na rua para sobreviver&#8221;, disse.<\/p>\n<p>&#8220;Sou um camel\u00f4 da literatura. Hoje (1986) posso dizer que \u00e9 muito dif\u00edcil ainda. \u00c9 dif\u00edcil ter espa\u00e7o nos jornais, encontrar lugar para vender livro. Cheguei a ser expulso de v\u00e1rios lugares. \u00c9 uma brutalidade \u00fanica.&#8221;<\/p>\n<p>Pl\u00ednio fazia seu trabalho com dignidade. Ganhava seu p\u00e3o sem se envergonhar e via sua atividade como uma forma de resist\u00eancia. Lembro bem de sua altivez e desenvoltura. &#8220;N\u00e3o tem tu, vai tu mesmo. Era assim. Eu ia vendendo meus livros (&#8230;). Um pouco aqui, um pouco ali. Batendo papo, contando hist\u00f3rias e faturando uma grana. Sabe, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil vender livros em terra de analfabeto com fome&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Quem comprava um de seus livros em algum ponto da cidade reconhecia que aquilo era uma forma de resistir \u00e0 opress\u00e3o. Muitos sabiam de sua condi\u00e7\u00e3o de homem implacavelmente perseguido. Al\u00e9m disso, era um excelente vendedor. Dava aut\u00f3grafos e estava sempre disposto a conversar com seus clientes. Falava de pol\u00edtica, da obra que estava vendendo e sentia prazer em trocar ideias e debater.<\/p>\n<p>&#8220;Era uma parada dura. Mas eu n\u00e3o me acanhava. N\u00e3o me queixava. Conhe\u00e7o bem a lei do choque do retorno: Quem planta vento colhe tempestade. E eu incomodava mesmo. Era perseguido, mas fiz por merecer. Eu encarava todas do jeito que viessem. \u00c0s vezes, apareciam uns e outros querendo me humilhar. Era p\u00e9ssima viagem. Eu pegava bem. Dava duro&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Pl\u00ednio foi um her\u00f3i brasileiro, um g\u00eanio da ra\u00e7a. Nunca se vitimizou e nem perdeu o humor e a ironia. Morreu em 1999, aos 64 anos, deixando uma obra grandiosa. &#8220;Eu sou um escritor imortal, n\u00e3o da Academia Brasileira de Letras, mas porque n\u00e3o tenho onde cair morto&#8221;, afirmou certa vez.<\/p>\n<p class=\"c-context__content\">&#13;<br \/>\n    <strong>LINK PRESENTE:<\/strong> Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. 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