{"id":104404,"date":"2025-10-10T02:02:13","date_gmt":"2025-10-10T02:02:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104404\/"},"modified":"2025-10-10T02:02:13","modified_gmt":"2025-10-10T02:02:13","slug":"historias-de-vida-de-humanidade-e-de-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104404\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias de vida, de humanidade e de esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p>Albufeira \u2013 Hist\u00f3rias da nossa gente \u00e9 o \u00faltimo livro de Ana Sofia Brito (colaboradora do <a href=\"https:\/\/setemargens.com\/author\/ana-sofia-brito\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">7MARGENS<\/a>) com capa e ilustra\u00e7\u00f5es de Guilherme Lim\u00e3o, primo e c\u00famplice de muitas aventuras. E tudo come\u00e7ou numa conversa entre os dois sobre a mem\u00f3ria e o seu papel nas gera\u00e7\u00f5es vindouras.<\/p>\n<p>Ler Ana Sofia Brito \u00e9 um prazer e um deleite que nos deixa um pouco mais esperan\u00e7osos no meio de tanto desassossego que \u00e9 a vida das suas personagens. E tamb\u00e9m a nossa.<\/p>\n<p>Ana Sofia, como \u00e9 seu timbre, sabe mostrar-nos o melhor que h\u00e1 na humanidade, apesar da dramaticidade da vida e de todos os defeitos, fragilidades e at\u00e9 brutalidade que cada uma das suas personagens transporta. Por isso nos deixa mais sossegados, mais esperan\u00e7osos, porque existe sempre uma pequena luz de humanidade onde se vislumbra um outro futuro poss\u00edvel. Desinstala-nos, sossegando-nos.<\/p>\n<p>Essa esperan\u00e7a na humanidade feita gratid\u00e3o de quem se cond\u00f3i espelhada nas palavras de Zeferino Sem Tino: \u00d3 menina, a dona Alexandrina vai morrer, eu agora estou triste, eu gosto da dona Alexandrina, ela d\u00e1-me p\u00e3o e doce.\u201d Ou a amargura de uma m\u00e3e que deixa um filho n\u00e3o evitado \u00e0 porta de algu\u00e9m: \u201cN\u00e3o se deixa os filhos \u00e0 porta de qualquer uma. Voc\u00eas \u00e9 que pensam todos que a gente n\u00e3o sabe o que faz, que somos burras, bichos sem sentimentos\u201d.<\/p>\n<p>Pouco importa, tal como escreve Ana Sofia na introdu\u00e7\u00e3o, se as hist\u00f3rias correspondem \u00e0 realidade dos factos ou se na mem\u00f3ria outros pontos se acrescentaram, j\u00e1 que \u00e9 nesses pequenos acrescentos que se faz poesia \u00e0 medida de cada uma das personagens. Pouco importa, porque Albufeira e as suas gentes est\u00e3o l\u00e1 como imagens de um espelho devolvidas ao presente ou ao futuro daqueles e daquelas que um dia pisar\u00e3o o mesmo ch\u00e3o, mas n\u00e3o os mesmos lugares. Os lugares desaparecem, mas a mem\u00f3ria permanece para al\u00e9m do tempo que foi o seu. N\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil a quem l\u00ea estas hist\u00f3rias sentir-se pr\u00f3ximo de algumas delas, mesmo sendo de lugares diferentes. Elas s\u00e3o tamb\u00e9m o espelho de um tempo e de um pa\u00eds que corria atr\u00e1s de um futuro que teimava em escapar-lhe. \u201c(\u2026) os desgostos n\u00e3o t\u00eam de ser um fado eterno, que as alegrias tamb\u00e9m sabem ressuscitar at\u00e9 das mais profundas descren\u00e7as\u201d. Era um tempo de \u201cgrandes fomes\u201d, talvez tamb\u00e9m de desesperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m de muita esperan\u00e7a revelada nas mais pequenas viv\u00eancias do quotidiano.<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-98724 alignleft lazyload\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ASB-Albufeira.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"697\"\/><\/p>\n<p>As hist\u00f3rias transportam-nos para uma Albufeira de outros tempos, mem\u00f3rias de gente tecidas na desgra\u00e7a e na pobreza, de um futuro que n\u00e3o ia al\u00e9m da soleira da porta. Mas esse tamb\u00e9m era um tempo em que a solidariedade conseguia colar os cacos da vida e lhe restituir de novo a dignidade necess\u00e1ria. Atrav\u00e9s das hist\u00f3rias embrenhamo-nos nas vidas daquelas gentes \u2013 caracter\u00edstica da escrita de Ana Sofia \u2013 e vamos acompanhando as pequenas mudan\u00e7as na vila: o mundo fabril, as m\u00e3es solteiras enxotadas e obrigadas a esconderem-se das m\u00e1s-l\u00ednguas e dos olhos alheios, os equ\u00edvocos da guerra e os casamentos por procura\u00e7\u00e3o, a chegada dos primeiros estrangeiros, aparecimento das discotecas como lugar de encontro em detrimento dos caf\u00e9s e das tascas, toxicodepend\u00eancia, emigra\u00e7\u00e3o, o cinema como lugar de todos os sonhos, o risco de amores proibidos \u2026 E o mar ali ao lado, \u00e1guas de sustento e de tantas tormentas, homens de devo\u00e7\u00e3o, porque sabem que a vida \u00e9 uma doa\u00e7\u00e3o da qual devem estar gratos: \u201cSe h\u00e1 coisa que n\u00e3o falta nem pode faltar aos homens do mar \u00e9 a verdadeira devo\u00e7\u00e3o; bem sabemos que no mundo das tormentas n\u00e3o h\u00e1 aliados como as divindades, que a solid\u00e3o \u00e9 coisa de avivar os medos quando a vida est\u00e1 em perigo\u201d.<\/p>\n<p>Novos tempos, novas gentes, novos h\u00e1bitos e tudo foi mudando:<br \/>\u201cO Sangria mudou, o Bodega mudou, o Valter mudou. Eu tamb\u00e9m devo ter mudado.\u201d<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias curtas mostram a capacidade da autora em nos mostrar o essencial sem se perder em pormenores para l\u00e1 do necess\u00e1rio ou receio em ignorar outros. O essencial est\u00e1 l\u00e1 e o resto adivinha-se! Arrisco dizer que numa prova liter\u00e1ria cega seria f\u00e1cil identificar a autora destas hist\u00f3rias. E quando assim \u00e9, significa que ela se vai construindo como autora e descobrindo a sua pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>Avisadas as palavras de Jorge Girino, homem do mar, onde cabem todas as solid\u00f5es, mas onde a esperan\u00e7a se esconde na pr\u00f3pria morte, porque intensa:<br \/>\u201cQue quanto mais se vive, mais intensamente depois se morre. Que quanto mais se conhece, mais sozinhos nos deixam. E quanto mais lugares percorremos, mais longe ficamos de tudo.\u201d<\/p>\n<p>Finalmente, dizer-vos que gostei das ilustra\u00e7\u00f5es do Guilherme Lim\u00e3o, desde a capa passando pelas ilustra\u00e7\u00f5es no canto superior, funcionando quase como um antet\u00edtulo gr\u00e1fico. Encantou-me a forma como numa simples e reduzida ilustra\u00e7\u00e3o conseguiu transmitir-nos o essencial da hist\u00f3ria. Artista albufeirense, com alguns pr\u00e9mios, teria merecido, mesmo se brev\u00edssima, a sua apresenta\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Albufeira \u2013 Hist\u00f3rias da Nossa Gente<br \/>Ana Sofia Brito<br \/>Ilustra\u00e7\u00f5es de Guilherme Lim\u00e3o<br \/>Editora \u201c<a href=\"https:\/\/www.onyva.pt\/2025\/02\/11\/1954\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">On y va<\/a>\u201d<br \/>112 pgs.<br \/>14 \u20ac<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00a0 Albufeira \u2013 Hist\u00f3rias da nossa gente \u00e9 o \u00faltimo livro de Ana Sofia Brito (colaboradora do 7MARGENS)&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":104405,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-104404","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104404","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=104404"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104404\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/104405"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=104404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}