{"id":104477,"date":"2025-10-10T03:32:08","date_gmt":"2025-10-10T03:32:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104477\/"},"modified":"2025-10-10T03:32:08","modified_gmt":"2025-10-10T03:32:08","slug":"mindfulness-melhora-a-saude-de-mulheres-com-dor-cronica-na-mandibula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104477\/","title":{"rendered":"Mindfulness melhora a sa\u00fade de mulheres com dor cr\u00f4nica na mand\u00edbula"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fernanda Bassette | Ag\u00eancia FAPESP<\/strong> \u2013 Conviver diariamente com dor cr\u00f4nica \u00e9 uma experi\u00eancia que impacta n\u00e3o apenas o corpo, mas tamb\u00e9m a mente e as emo\u00e7\u00f5es. Essa \u00e9 a realidade de milhares de pessoas que sofrem com a disfun\u00e7\u00e3o temporomandibular (DTM), condi\u00e7\u00e3o que afeta a articula\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por abrir e fechar a boca, al\u00e9m dos m\u00fasculos da mastiga\u00e7\u00e3o. Para essas pessoas, dores constantes na mand\u00edbula, nas t\u00eamporas, na face ou ao redor do ouvido, dificuldade de mastigar e at\u00e9 mesmo dores de cabe\u00e7a podem fazer parte da rotina e afetar a sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Agora, um estudo realizado na Escola de Enfermagem de Ribeir\u00e3o Preto da Universidade de S\u00e3o Paulo (EERP-USP) e <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/auxilios\/112089\/fatores-implicados-no-efeito-da-intervencao-baseada-em-mindfulness-na-dtm-dolorosa-cronica-o-papel-d\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>financiado<\/strong><\/a> pela FAPESP mostrou que a pr\u00e1tica regular de mindfulness \u2013 t\u00e9cnica de medita\u00e7\u00e3o voltada para o foco e a aten\u00e7\u00e3o plena \u2013 pode ajudar a reduzir a sensibilidade dolorosa e melhorar a regula\u00e7\u00e3o emocional dessas pessoas. Os resultados foram <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/joor.70028\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>publicados<\/strong><\/a> no Journal of Oral Rehabilitation.<\/p>\n<p>A pesquisa foi realizada no primeiro Centro de Mindfulness e Terapias Integrativas da Universidade de S\u00e3o Paulo, criado em 2016, e conduzida pela equipe coordenada pela enfermeira <a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/178547\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Edilaine Gherardi-Donato<\/strong><\/a>, que tamb\u00e9m \u00e9 professora titular da EERP-USP. Segundo ela, a proposta do estudo foi compreender se a pr\u00e1tica de mindfulness poderia aliviar a dor cr\u00f4nica associada \u00e0 DTM e melhorar os m\u00faltiplos fatores envolvidos, desde os aspectos neurofisiol\u00f3gicos aos psicol\u00f3gicos, como estresse, ansiedade e \u201ccatastrofiza\u00e7\u00e3o da dor\u201d \u2013 quando a pessoa se concentra apenas na dor, ampliando sua percep\u00e7\u00e3o negativa, como se fosse algo incontrol\u00e1vel e insuport\u00e1vel \u2013 por meio da aten\u00e7\u00e3o plena.<\/p>\n<p>\u201cUma das condi\u00e7\u00f5es humanas que geram muito sofrimento ps\u00edquico e abalam a sa\u00fade mental \u00e9 conviver com dor. A dor \u00e9 causadora de estresse constante, fisicamente e mentalmente\u201d, explica a pesquisadora. \u201cQuando a gente promove sa\u00fade mental por meio de estrat\u00e9gias de cuidado que conectam corpo e mente, estamos prevenindo o adoecimento e promovendo qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Gherardi-Donato, a disfun\u00e7\u00e3o temporomandibular (DTM) \u00e9 de duas a tr\u00eas vezes mais comum em mulheres do que em homens e pode evoluir para um quadro de dor cr\u00f4nica quando persiste por tr\u00eas a seis meses, mesmo em repouso e ap\u00f3s medidas conservadoras. A condi\u00e7\u00e3o compromete a fun\u00e7\u00e3o, prejudica o sono, o humor e pode provocar hiperalgesia \u2013 resposta exagerada do organismo a est\u00edmulos dolorosos.<\/p>\n<p>Nessas situa\u00e7\u00f5es, o corpo entra em estado de alerta, o c\u00e9rebro se sensibiliza e a percep\u00e7\u00e3o da dor se amplia, afetando n\u00e3o apenas a regi\u00e3o da mand\u00edbula, mas tamb\u00e9m outras partes do corpo. \u201cEsses indicativos mostram que a dor deixou de ser apenas um problema articular e se tornou um fen\u00f4meno de modula\u00e7\u00e3o do sistema nervoso central, exigindo abordagem multidimensional\u201d, diz a pesquisadora.<\/p>\n<p><strong>Como foi o estudo<\/strong><\/p>\n<p>No ensaio cl\u00ednico randomizado, a pesquisadora e sua equipe acompanharam 53 mulheres entre 18 e 61 anos, todas diagnosticadas com DTM cr\u00f4nica, recrutadas no servi\u00e7o especializado da Faculdade de Odontologia de Ribeir\u00e3o Preto (Forp-USP), parceira do projeto, e por meio de divulga\u00e7\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e redes sociais.<\/p>\n<p>Metade das mulheres participou de um programa de mindfulness de oito semanas, com encontros presenciais semanais de duas horas e um encontro de imers\u00e3o de quatro horas em meio \u00e0 natureza. Al\u00e9m disso, as participantes tamb\u00e9m receberam os \u00e1udios das pr\u00e1ticas de mindfulness aprendidas nos encontros presenciais, com orienta\u00e7\u00f5es para praticar a t\u00e9cnica em casa diariamente. O grupo-controle n\u00e3o recebeu nenhuma interven\u00e7\u00e3o durante o mesmo per\u00edodo e foi acompanhado para garantir que n\u00e3o iniciou outro tipo de tratamento.<\/p>\n<p>\u201cNa nossa pesquisa avaliamos apenas mulheres por serem mais afetadas pelo problema e por apresentarem variabilidade hormonal que poderia influenciar os achados. Olhamos casos de DTM dolorosa cr\u00f4nica, ou seja, de pessoas que j\u00e1 vinham convivendo com a dor h\u00e1 bastante tempo e apresentavam o quadro caracter\u00edstico de cronicidade. Essas mulheres ficam mais predispostas a sentir dor tamb\u00e9m em diferentes regi\u00f5es do corpo, por envolvimento de mecanismos de sensibiliza\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica e central, porque o sistema nervoso est\u00e1 constantemente em alerta\u201d, detalha a pesquisadora.<\/p>\n<p>O programa de mindfulness foi adaptado \u00e0 cultura brasileira, com in\u00edcio de pr\u00e1ticas mais curtas, de apenas cinco minutos, que foram sendo ampliadas ao longo das semanas at\u00e9 chegar a 30 minutos di\u00e1rios de aten\u00e7\u00e3o plena. As atividades inclu\u00edram exerc\u00edcios formais, como foco na respira\u00e7\u00e3o, no corpo, nos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es, e em diferentes posturas, como medita\u00e7\u00e3o sentada, deitada, em movimento e caminhando. Tamb\u00e9m incluiu pr\u00e1ticas informais, voltadas a trazer consci\u00eancia para tarefas rotineiras, como escovar os dentes, comer, vestir-se ou lavar a lou\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o d\u00e1 para exigir que algu\u00e9m que nunca praticou mindfulness consiga, de imediato, meditar por meia hora. A progress\u00e3o \u00e9 fundamental para que a pessoa aprenda o que \u00e9 estar presente no corpo e nas emo\u00e7\u00f5es, sem julgamento. A pr\u00e1tica deve ser confort\u00e1vel, f\u00e1cil, simples e natural\u201d, explica Gherardi-Donato.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s oito semanas de interven\u00e7\u00e3o, as mulheres que participaram do programa apresentaram melhora significativa no limiar de dor \u00e0 press\u00e3o, ou seja, suportavam mais est\u00edmulos antes de come\u00e7ar a sentir dor. Houve tamb\u00e9m redu\u00e7\u00e3o dos pontos dolorosos espalhados pelo corpo, diminui\u00e7\u00e3o do estresse e da catastrofiza\u00e7\u00e3o da dor.<\/p>\n<p>\u201cEssas mulheres relataram diminui\u00e7\u00e3o da dor e estavam menos sens\u00edveis a est\u00edmulos dolorosos leves que estavam presentes antes da interven\u00e7\u00e3o e eram inc\u00f4modos. Houve redu\u00e7\u00e3o dos pontos de dor orofaciais e de dor \u00e0 press\u00e3o nas regi\u00f5es faciais e corporais\u201d, relata a pesquisadora. \u201cElas tamb\u00e9m desenvolveram maior controle da aten\u00e7\u00e3o, conseguindo colocar a dor em perspectiva. A dor continuava presente, mas deixou de ocupar 100% da aten\u00e7\u00e3o, abrindo espa\u00e7o para o autocuidado e para lidar de forma mais consciente com emo\u00e7\u00f5es e pensamentos negativos que a acompanham e intensificam\u201d, explica.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante apontado no estudo foi a melhora da consci\u00eancia corporal e da regula\u00e7\u00e3o emocional. De acordo com Gherardi-Donato, a pr\u00e1tica ajudou as participantes a lidar de forma mais equilibrada com as sensa\u00e7\u00f5es desafiadoras. \u201cA mente de quem sente dor cr\u00f4nica tende a ruminar, alimentando um medo de que a dor s\u00f3 vai piorar. Isso aumenta o estresse e o risco de ansiedade e depress\u00e3o. Com a pr\u00e1tica de mindfulness, a mulher passa a reconhecer a dor como algo impermanente, que n\u00e3o precisa dominar sua vida.\u201d<\/p>\n<p>Embora o estudo n\u00e3o tenha mostrado mudan\u00e7as significativas nos sintomas de ansiedade e depress\u00e3o, Gherardi-Donato ressalta que os benef\u00edcios observados na diminui\u00e7\u00e3o do estresse e da ansiedade, na percep\u00e7\u00e3o da dor e no fortalecimento de habilidades cognitivas e atencionais representam um avan\u00e7o importante.<\/p>\n<p><strong>Baixo custo e dispon\u00edvel no SUS<\/strong><\/p>\n<p>Os resultados refor\u00e7am que pr\u00e1ticas integrativas e complementares em sa\u00fade como o mindfulness podem ser uma ferramenta importante no manejo da dor cr\u00f4nica, especialmente em condi\u00e7\u00f5es complexas como a DTM. Al\u00e9m disso, trata-se de uma pr\u00e1tica de baixo custo, de f\u00e1cil implementa\u00e7\u00e3o e que pode ser incorporada aos servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u201cO mindfulness, por ser um tipo de medita\u00e7\u00e3o, j\u00e1 est\u00e1 previsto na Pol\u00edtica Nacional de Pr\u00e1ticas Integrativas e Complementares do SUS desde 2017 [<strong><a href=\"https:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/saudelegis\/gm\/2017\/prt0849_28_03_2017.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">portaria n\u00ba 84<\/a><\/strong>9]. Isso significa que pode e deve ser ofertado como cuidado acess\u00edvel para a popula\u00e7\u00e3o, representando a amplia\u00e7\u00e3o do modelo de cuidado\u201d, destaca.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, o impacto do mindfulness vai al\u00e9m do al\u00edvio f\u00edsico ao promover uma mudan\u00e7a de postura diante da vida. \u201cO programa resgata habilidades cognitivas e emocionais essenciais, melhora o autoconhecimento e o autocuidado. A pessoa aprende a sustentar a aten\u00e7\u00e3o por mais tempo e a acessar esse estado de presen\u00e7a tamb\u00e9m nas atividades cotidianas. N\u00e3o se trata apenas de sentar e meditar, mas de contemplar compassivamente o amplo conjunto das nossas experi\u00eancias, fazer escolhas mais conscientes, de viver com mais consci\u00eancia no dia a dia, momento a momento\u201d, conclui.<\/p>\n<p>O artigo Impact of a mindfulness-based intervention on pain and psychological factors in women with chronic painful temporomandibular disorders pode ser lido em: <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/joor.70028\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1111\/joor.70028<\/strong><\/a>.<br \/>&#13;<br \/>\n\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fernanda Bassette | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Conviver diariamente com dor cr\u00f4nica \u00e9 uma experi\u00eancia que impacta n\u00e3o apenas&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":104478,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[25229,25228,5474,9968,25227,116,11555,21872,15239,32,33,117,5618,1030],"class_list":{"0":"post-104477","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-atencao-plena","9":"tag-disfuncao-temporomandibular","10":"tag-dor","11":"tag-dor-cronica","12":"tag-dtm","13":"tag-health","14":"tag-mandibula","15":"tag-meditacao","16":"tag-mindfulness","17":"tag-portugal","18":"tag-pt","19":"tag-saude","20":"tag-saude-da-mulher","21":"tag-saude-mental"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104477","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=104477"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104477\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/104478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=104477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}