{"id":104595,"date":"2025-10-10T06:39:08","date_gmt":"2025-10-10T06:39:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104595\/"},"modified":"2025-10-10T06:39:08","modified_gmt":"2025-10-10T06:39:08","slug":"hoje-o-leitor-nao-quer-ser-contrariado-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104595\/","title":{"rendered":"&#8220;Hoje o leitor n\u00e3o quer ser contrariado&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p><strong>O que ser\u00e1? A seguran\u00e7a que o controlo transmite?<br \/><\/strong>Sim, uma no\u00e7\u00e3o de poder meio irrevers\u00edvel, justamente. Fico pensando qual \u00e9 o lugar da fic\u00e7\u00e3o e da literatura nisso, da\u00ed a minha urg\u00eancia nesse livro. Outro dia, eu estava lendo uma fil\u00f3sofa\u2026 esqueci o nome dela. Me mandaram, porque sabem que isso me interessa: uma fil\u00f3sofa eslovena que fez um post. Ela \u00e9 do grupo do Zizek, sabe? \u00c9 ligada \u00e0 psican\u00e1lise, \u00e9 lacaniana [Alenka Zupan\u010di\u010d]. Ela dizia que a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o vai ter nunca \u201co outro\u201d, o real. Logo, ela n\u00e3o pode ter a contradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode ter o desconhecido, o mist\u00e9rio. Ent\u00e3o, como resist\u00eancia, s\u00f3 nos resta \u201co outro\u201d, o verdadeiro outro, o real, a morte, o desconhecido, porque isso a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o tem.<\/p>\n<p><strong>A computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica vai introduzir o aleat\u00f3rio, a contradi\u00e7\u00e3o. Falava-se numa previs\u00e3o de 20 anos para a sua total funcionalidade, antecipou-se h\u00e1 pouco tempo para cinco.<br \/><\/strong>Por enquanto, espero ainda poder usar isso [\u201co outro\u201d] como algum tipo de resist\u00eancia. A literatura est\u00e1 nesse lugar, ou deveria estar, enquanto a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica n\u00e3o chega. Se h\u00e1 alguma possibilidade de resist\u00eancia pol\u00edtica, existencial, \u00e9 no sentido da fic\u00e7\u00e3o \u2014 como confronto com o mist\u00e9rio, com o que n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o, com o que voc\u00ea desconhece. O que me parece \u00e9 que h\u00e1 uma esp\u00e9cie de rendi\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da literatura, sobretudo por quest\u00f5es talvez oportunistas de mercado em nome de \u201cum outro\u201d que, na verdade, \u00e9 puro reconhecimento [de si pr\u00f3prio], que \u00e9 mais uma impostura. \u00c9 nesse sentido que eu digo que a fic\u00e7\u00e3o tem a ver com a verdade, porque \u00e9 uma forma de voc\u00ea manter esse desconhecimento, esse mist\u00e9rio do mundo. N\u00f3s, como somos finitos, temos uma certa urg\u00eancia que a m\u00e1quina n\u00e3o tem.<\/p>\n<p><strong>A m\u00e1quina n\u00e3o morre.<br \/><\/strong>A hist\u00f3ria da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no livro \u00e9 a da m\u00e1quina, que vem e se apodera. O que cria uma urg\u00eancia, uma revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 curiosa a duplicidade da ideia de mem\u00f3ria, aqui: a de algu\u00e9m que n\u00e3o tem mem\u00f3ria, n\u00e3o tem afeta\u00e7\u00f5es, que consegue matar os outros que v\u00eam fazer mal; e a dos que reconhecem os familiares [e n\u00e3o conseguem resistir-lhes]. A revolu\u00e7\u00e3o partiu da \u00fanica pessoa que n\u00e3o se lembrava de nada. Ela \u00e9, na verdade, a anti-m\u00e1quina, porque ela n\u00e3o tem mem\u00f3ria. Mas o ser humano n\u00e3o existe sem mem\u00f3ria. Isso \u00e9 um silogismo: a mem\u00f3ria estar ligada ao controle e a n\u00e3o-mem\u00f3ria estar ligada \u00e0 salva\u00e7\u00e3o. \u00c9 \u00f3bvio que isso \u00e9 uma invers\u00e3o tamb\u00e9m, porque eu acho que a mem\u00f3ria salva. Mas acho interessante no livro a anti-m\u00e1quina ser a salva\u00e7\u00e3o da mesma forma que o amor existe na viol\u00eancia, no caso, o amor paternal. Foi um amor absolutamente verdadeiro que salvou o menino [da hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica], n\u00e3o deixando que a mem\u00f3ria fosse inoculada nele. Foi o verdadeiro pai, a verdadeira m\u00e3e, n\u00e3o se sabe, quem conferiu nele a possibilidade de revolu\u00e7\u00e3o, de escapar \u00e0 regra \u00e0 qual todos est\u00e3o sujeitos. Algo que a m\u00e1quina nunca faria.<\/p>\n<p><strong>Esperan\u00e7a. \u00c9 essa a fun\u00e7\u00e3o narrativa de ter acrescentado esta hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e0 hist\u00f3ria do livro?<br \/><\/strong>\u00c9 estranho\u2026 Falando, parece que eu pensei tudo e que o livro \u00e9 todo organizado, \u00e9 uma mera ilustra\u00e7\u00e3o de uma tese que eu tenho a priori. E n\u00e3o \u00e9. Acontece sempre assim: eu tenho algumas vontades, muitas delas s\u00e3o inconscientes, e o pr\u00f3prio texto vai me guiando, vai me dizendo coisas. Acho que, muitas vezes, h\u00e1 frases que eu n\u00e3o entendo porque elas est\u00e3o ali, e essas frases s\u00e3o as mais importantes do romance.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 do tipo de escritores que, quando come\u00e7a a escrever, n\u00e3o sabe como o livro vai acabar?<br \/><\/strong>\u00c0s vezes, at\u00e9 sei como gostaria de acabar, onde eu mais ou menos quero chegar. Mas n\u00e3o sei, de verdade. Ttenho at\u00e9 uma defici\u00eancia mental de compreens\u00e3o das coisas. Por vezes, a escrita \u00e9 como se fosse um fluxo inercial, em que o texto me leva para lugares sobre os quais eu, ou por pregui\u00e7a, ou por cansa\u00e7o, ou por limite, n\u00e3o tenho dom\u00ednio absoluto. Ele vai se compondo, depois eu vou entendendo. \u00c0s vezes, surgem frases que me fazem reescrever o texto inteiro.<\/p>\n<p><strong>Rel\u00ea o que escreve?<br \/><\/strong>Enquanto estou a escrever, sim, releio. Mas, quando acabo, n\u00e3o, n\u00e3o releio mais.<\/p>\n<p><strong>Sen\u00e3o nunca consegue acabar, vai sempre querer mudar alguma coisa?<br \/><\/strong>Ou posso ter uma ideia de mim que n\u00e3o quero contradizer e que, se ler os livros, vou ver que n\u00e3o sou o que achava que era.<\/p>\n<p><strong>Mas isso \u00e9 bom. Ou n\u00e3o?<br \/><\/strong>\u00c9 bom, \u00e9 bom, e tamb\u00e9m faz voc\u00ea passar para uma outra etapa, seguir em frente, fazer outras coisas. Voc\u00ea acha que s\u00e3o outras coisas, mas, no final, \u00e9 sempre o mesmo. H\u00e1 coisas que se repetem, que eu n\u00e3o sei de onde v\u00eam. Por exemplo, a estrutura do livro. Em quase todos os meus livros, acontece uma coisa e, de repente, h\u00e1 um salto, uma viagem \u2014 o ep\u00edlogo decorre em outro lugar. E isso sempre acontece, outro tempo, outro lugar, em que as coisas n\u00e3o se resolvem mas se ressignificam. O Nove Noites tamb\u00e9m tem uma hist\u00f3ria e, de repente, h\u00e1 um salto para um outro lugar. De repente, o narrador vai a Nova Iorque. Neste, ele vai a Berlim. Isso se repete constantemente, \u00e9 autom\u00e1tico. Essa ideia de sair fora, de deslocamento, de voc\u00ea n\u00e3o pertencer ao lugar, \u00e9 important\u00edssimo para mim. Mesmo no meu lugar. Sou s\u00f3 brasileiro, n\u00e3o sou outra coisa, n\u00e3o venho de nenhum outro lugar, sou absolutamente brasileiro. Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 importante para mim eu me sentir mal, me sentir n\u00e3o totalmente pertencente a esse lugar, entendeu?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O que ser\u00e1? A seguran\u00e7a que o controlo transmite?Sim, uma no\u00e7\u00e3o de poder meio irrevers\u00edvel, justamente. 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