{"id":104836,"date":"2025-10-10T11:17:09","date_gmt":"2025-10-10T11:17:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104836\/"},"modified":"2025-10-10T11:17:09","modified_gmt":"2025-10-10T11:17:09","slug":"eles-trabalham-na-maior-lixeira-de-africa-ocidental-enquanto-sonham-chegar-a-europa-encontros-da-imagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104836\/","title":{"rendered":"Eles trabalham na maior lixeira de \u00c1frica Ocidental enquanto sonham chegar \u00e0 Europa | Encontros da Imagem"},"content":{"rendered":"<p>Para muitos migrantes provenientes de pa\u00edses africanos, a jornada em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa n\u00e3o come\u00e7a num barco, a cruzar perigosamente o Mediterr\u00e2neo, mas sim muito antes. \u201cPor vezes, come\u00e7a em lugares como Mbeubeuss, a maior lixeira a c\u00e9u aberto de \u00c1frica Ocidental, que fica nos arredores de Dacar, no Senegal\u201d, diz ao P3, em entrevista, o fot\u00f3grafo grego <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/stefanospaikos\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Stefanos Paikos<\/a>, o autor do projecto Reaching for Dusk, que se encontra em exposi\u00e7\u00e3o ao longo da parte pedonal da Avenida da Liberdade, em Braga. \u201cO debate pol\u00edtico [em torno da migra\u00e7\u00e3o] foca-se geralmente nas causas \u2013 a guerra, a pobreza, as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas \u2013 e deixa de fora uma quest\u00e3o essencial: como \u00e9 que as pessoas financiam a sua jornada [at\u00e9 \u00e0 Europa]?\u201d<\/p>\n<p>Mbeubeuss \u00e9, nas palavras do fot\u00f3grafo, um \u201cdesastre ambiental\u201d e ocupa, sensivelmente, uma \u00e1rea semelhante \u00e0 do Parque das Na\u00e7\u00f5es, em Lisboa. Transformou-se, ao longo dos anos, num \u201csistema fr\u00e1gil e informal de trabalho e sobreviv\u00eancia\u201d, l\u00ea-se no artigo redigido por Paikos, que esteve no Senegal em Dezembro de 2024 e Mar\u00e7o de 2025. \u201cMilhares de pessoas, homens, mulheres e crian\u00e7as, vivem e trabalham em <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/06\/17\/questoes-sociais\/fotogaleria\/senegal-lixo-408301\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Mbeubeuss<\/a> sob condi\u00e7\u00f5es extremamente prec\u00e1rias. Recolhem metal, garrafas de vidro, cabos, e queimam pl\u00e1stico para dele extrair materiais reutiliz\u00e1veis \u2013 sem utilizar material de protec\u00e7\u00e3o e rodeado de fumo t\u00f3xico e fagulhas afiadas.\u201d<\/p>\n<p>Quem l\u00e1 trabalha, senegaleses e imigrantes de pa\u00edses vizinhos, ganha entre quatro e nove euros por dia, dependendo da qualidade e quantidade dos materiais que recolhe; muitos demoram anos a juntar o valor de que precisam porque os valores pagos aos trabalhadores s\u00e3o bastante baixos. Por cada quilo de cobre ou metal indiferenciado, cada trabalhador recebe quase quatro euros; por alum\u00ednio, recebe pouco mais de 50 c\u00eantimos e o valor decresce progressivamente: as latas s\u00e3o pagas a 0,27 euros por quilo e os pl\u00e1sticos e o vidro a 0,11 euros.<\/p>\n<p>\u201cO objectivo de quase todas as pessoas com quem falei \u00e9 juntar dinheiro para chegar \u00e0 Europa\u201d, refere <a href=\"https:\/\/www.stefanospaikos.com\/portfolio\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Stefanos Paikos<\/a>. \u201cCerca de tr\u00eas mil pessoas trabalham ali, competindo pelos artigos mais rent\u00e1veis. \u00c9 um ambiente que facilmente se torna agressivo.\u201d<\/p>\n<p>Ami Ndiaye trabalha em Mbeubeuss, tem 26 anos e \u00e9 natural de Kaolack, regi\u00e3o que fica a 190 quil\u00f3metros a sudeste de Dacar. \u201cEla \u00e9 a pessoa mais forte que conheci l\u00e1\u201d, recorda o fot\u00f3grafo. Ela e o seu filho Babacar de dois anos vivem muito perto de Mbeubeuss.\u00a0<\/p>\n<p>Ami trabalha longas horas na lixeira apenas com um objectivo em mente: o de pisar solo europeu. \u201cNo in\u00edcio quer ir sozinha, encontrar trabalho, e mais tarde quer trazer tamb\u00e9m o filho\u201d, refere o grego. No \u00faltimo dia que Stefanos e Ami passaram juntos, \u201cela chegou com um vestido longo amarelo e um len\u00e7o azul na cabe\u00e7a\u201d, recorda o fot\u00f3grafo. \u201cQuando o vento pressionou o tecido contra o seu corpo, ficou claro: Ami est\u00e1 gr\u00e1vida. Tudo o que ela suporta, o trabalho \u00e1rduo naquele lugar e criar o seu filho, ela faz enquanto carrega outra crian\u00e7a no ventre.\u201d<\/p>\n<p>A maioria dos que trabalham em Mbeubeuss s\u00e3o de outras paragens, de dentro ou de fora do Senegal. \u201cMuitos v\u00eam de pa\u00edses como Guin\u00e9-Bissau, Mali ou Maurit\u00e2nia. Deixam as suas casas por uma grande variedade de raz\u00f5es: secas prolongadas, desespero econ\u00f3mico, instabilidade pol\u00edtica.\u201d Neste contexto, a Mbeusseus \u00e9 sempre uma paragem, nunca o destino final. Quem chega, raramente o faz sozinho. \u201cAmigos, familiares, vizinhos j\u00e1 abriram caminho para a sua chegada\u201d, l\u00ea-se no artigo que acompanha o projecto. \u201cAtrav\u00e9s de redes informais, espalha-se a palavra de que pelo menos ali \u00e9 poss\u00edvel ganhar um pouco de dinheiro. Para muitos, \u00e9 a \u00fanica oportunidade de dar continuidade \u00e0 sua jornada em direc\u00e7\u00e3o a norte.\u201d<\/p>\n<p>Demba Bald\u00e9 nasceu em Gabu, na Guin\u00e9-Bissau, h\u00e1 25 anos e chegou a Dacar h\u00e1 dois, depois da morte do pai. Trabalha em Mbeubeuss diariamente por quatro a cinco euros por dia para poder enviar para casa uma parte porque a m\u00e3e est\u00e1 gravemente doente. \u201cA fam\u00edlia n\u00e3o consegue suportar os custos do tratamento m\u00e9dico dela e \u00e9 dif\u00edcil encontrar trabalho na Guin\u00e9, \u00e9 dif\u00edcil construir uma vida melhor.\u201d<\/p>\n<p>Demba tem uma rotina \u201cmon\u00f3tona, mas perigosa\u201d, descreve Paikos. \u201c\u00c9 comum haver disputas violentas por achados valiosos em Mbeubeuss.\u201d O guineense tem no bra\u00e7o uma cicatriz que resultou de uma facada desferida por outro trabalhador. \u201cO seu objectivo \u00e9 chegar a Portugal porque consegue falar a l\u00edngua e acredita que isso facilitar\u00e1 na sua busca de emprego. Disse-me que se houver racismo, se as pessoas n\u00e3o gostarem de mim l\u00e1, eu n\u00e3o me irei importar porque \u00e9 a \u00fanica chance que tenho de ter uma vida melhor.\u201d At\u00e9 Mar\u00e7o de 2025, altura em que o fot\u00f3grafo tirou o seu retrato em Mbeubeuss, Demba ainda n\u00e3o tinha conseguido a quantia necess\u00e1ria para seguir viagem.<\/p>\n<p>\u201cTodo este fluxo migrat\u00f3rio tem, no fundo, uma s\u00f3 raiz: a Europa e o seu passado\u201d, observa o grego. \u201cA instabilidade que existe em muitos pa\u00edses africanos, os conflitos que l\u00e1 existem, s\u00e3o, n\u00e3o raramente, uma heran\u00e7a da coloniza\u00e7\u00e3o europeia \u2013 que, mesmo no presente, se mant\u00e9m por via econ\u00f3mica. As pessoas que sofrem com esses problemas, em \u00c1frica, querem ir para a Europa para procurar uma vida melhor, mas agora os pa\u00edses europeus n\u00e3o as querem.\u201d O grego sentiu nos migrantes uma desesperan\u00e7a esmagadora. \u201cMuitos acham que n\u00e3o t\u00eam hip\u00f3tese alguma de mudar algo nos seus pa\u00edses por acreditarem que esses est\u00e3o, ainda que de forma n\u00e3o declarada, sob dom\u00ednio externo.\u201d<\/p>\n<p>O projecto Reaching for Dusk est\u00e1 dividido em v\u00e1rios cap\u00edtulos \u2013 um realizado na Gr\u00e9cia, outro na Tun\u00edsia e outro na Turquia \u2013, todos dedicados ao tema da migra\u00e7\u00e3o. \u201cAcredito que, no futuro, me irei debru\u00e7ar cada vez mais sobre os problemas que os pa\u00edses europeus levaram at\u00e9 aos pa\u00edses onde se verificam esses \u00eaxodos em massa.\u201d<\/p>\n<p>\t\t\t\t<script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para muitos migrantes provenientes de pa\u00edses africanos, a jornada em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa n\u00e3o come\u00e7a num barco, a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":104837,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-104836","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-mundo","18":"tag-news","19":"tag-noticias","20":"tag-noticias-principais","21":"tag-noticiasprincipais","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-top-stories","25":"tag-topstories","26":"tag-ultimas","27":"tag-ultimas-noticias","28":"tag-ultimasnoticias","29":"tag-world","30":"tag-world-news","31":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104836","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=104836"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104836\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/104837"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=104836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}