{"id":104934,"date":"2025-10-10T12:36:13","date_gmt":"2025-10-10T12:36:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104934\/"},"modified":"2025-10-10T12:36:13","modified_gmt":"2025-10-10T12:36:13","slug":"ha-que-temer-os-comecos-ensina-ruy-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/104934\/","title":{"rendered":"H\u00e1 que temer os come\u00e7os, ensina Ruy Castro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"Paragraph SCXW107983165 BCX8\">Tudo come\u00e7ou ao abrir <strong>\u201cTrincheira Tropical\u201d, de Ruy Castro<\/strong>, lan\u00e7ado pela Tinta-da-China, e encontrar a descri\u00e7\u00e3o de como nasceu o movimento integralista no Brasil. O livro <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/revista\/2023-08-12-Ruy-Castro-o-mestre-das-biografias-Sou-um-gigolo-das-memorias-74357ca9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">vai muito mais longe<\/a> \u2013 com epicentro no Rio de Janeiro, conta como foi no pa\u00eds vivida a Segunda Guerra Mundial, quem foram os seus her\u00f3is e v\u00edtimas, quem \u2018ganhou\u2019 e quem perdeu. Que tipo de quest\u00f5es o conflito europeu inoculou na sociedade brasileira, e como 25 mil jovens da For\u00e7a Expedicion\u00e1ria acabaram a combater na frente italiana. Mas, dizia, gra\u00e7as \u00e0 mestria do autor, <strong>logo as primeiras p\u00e1ginas mostram a hist\u00f3ria do Brasil a pulsar ao ritmo do que no resto do mundo se gerava, a dan\u00e7ar pelo mesmo batuque de um homem s\u00f3<\/strong>, recebido em 1931 por Mussolini no Palazzo de Venezia, que cumprimentava estendendo o bra\u00e7o direito na posi\u00e7\u00e3o vertical, \u201cexclamando \u2018Anau\u00ea\u2019\u201d.<\/p>\n<p class=\"Paragraph SCXW107983165 BCX8\">Era a extrema-direita brasileira, que para se distinguir envergava camisas e blusas verdes, e <strong>que \u201cempolgou\u201d personalidades muito importantes do Rio e de S\u00e3o Paulo, advogados, economistas, poetas \u2013 entre os quais o pr\u00f3prio Vin\u00edcius de Moraes -, atores e atrizes, escritores, gram\u00e1ticos, jornalistas, soci\u00f3logos, m\u00e9dicos, professores, diplomatas, arquitetos, empres\u00e1rios<\/strong>. Entre 1933 e 1937, publicaram-se mais de 50 livros sobre o integralismo. Por essa altura, os \u201cProtocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o\u201d tiveram edi\u00e7\u00e3o brasileira, vendendo 18 mil exemplares em dois meses \u201ce tendo cont\u00ednuas reimpress\u00f5es\u201d. <\/p>\n<p>\u201cO aparato das passeatas do integralismo, com as multid\u00f5es fardadas e coreografadas, a floresta de estandartes, bandeiras e faixas, as agressivas palavras de ordem e a marcha militarizada (&#8230;) reproduzia o modelo nazista. O mesmo quando \u00e0 estrat\u00e9gia de propaganda, decalcada na de Hitler e Mussolini. Pela primeira vez no Brasil, um movimento usou o r\u00e1dio, o cinema, livros, discos, fotografia, imprensa, an\u00fancios, cartazes, fl\u00e2mulas, voltantes e \u2018santinhos\u2019 na agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d, <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/revista\/culturas\/livros\/2023-01-29-Livros-Ruy-Castro-e-a-liberdade-de-contar-o-que-podia-ter-sido-40221597\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">escreve Ruy Castro<\/a>, que ressalva como, de in\u00edcio, n\u00e3o eram levados a s\u00e9rio, congregando na primeira passeata \u2013 na avenida Paulista, em 1932 \u2013 apenas uns 40 homens. <strong>H\u00e1 que temer os come\u00e7os. <\/strong><\/p>\n<p class=\"Paragraph SCXW107983165 BCX8\">Mas n\u00e3o os dos livros, como este em que a autora e investigadora finlandesa <strong>Iida Turpeinen<\/strong> nos diz: \u201cTodas as expedi\u00e7\u00f5es come\u00e7am com uma ch\u00e1vena de ch\u00e1.\u201d Intitulado <strong>\u201cA Exist\u00eancia de Vida\u201d<\/strong>, o romance \u00e9 o primeiro da autora, traduzido por c\u00e1 pela Livros do Brasil. Finalista do <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/semanario\/revista-e\/-e\/2024-05-09-paolo-giordano-autor-de-a-solidao-dos-numeros-primos-em-entrevista-a-idade-da-mulher-e-o-ultimo-tabu-9026e123\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Pr\u00e9mio Strega<\/a> Europeu e do Pr\u00e9mio de Melhor Romance Estrangeiro em Fran\u00e7a, aborda a hist\u00f3ria, em 1700, da expedi\u00e7\u00e3o \u2018fracassada\u2019 de Vitus Bering que pretendia encontrar uma rota mar\u00edtima da \u00c1sia para Am\u00e9rica e o matou na tentativa, mas levou \u00e0 descoberta de um mam\u00edfero marinho desconhecido pelo naturalista a bordo, o brilhante <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/sustentabilidade\/ambiente\/2025-07-30-leoes-marinhos-em-panico-mergulham-no-mar-durante-o-violento-sismo-na-russia-e83825bd\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Georg Steller<\/a>. A hist\u00f3ria desdobra-se em tr\u00eas tempos, avan\u00e7ando para a procura, em 1859, do esqueleto daquele animal, e para o restauro deste no Museu Finland\u00eas de Hist\u00f3ria Natural. <\/p>\n<p>Quase tudo se resume \u00e0 <strong>velha contenda entre predadores e presas, e o humano est\u00e1 sempre entre os primeiros<\/strong>. Uma frase: \u201cFoi assim que Deus quis, criou a Terra e as suas criaturas para que estas fossem dominadas pelo homem.\u201d Outra frase: \u201cA expedi\u00e7\u00e3o de Bering massacra uma quarentena de vacas-marinhas. Desses animais mortos, um quinto ser\u00e1 consumido, entre cinco a oito animais, e o resto lan\u00e7ado \u00e0s ondas. Depois, o homem abandona a ilha.\u201d Iida Turpeinen trata ambos \u2013 homens e animais \u2013 com a mesma compaix\u00e3o. Como se uma lei irrevog\u00e1vel os guiasse. Os seus genes circulam nas gera\u00e7\u00f5es seguintes, e mesmo as vacas-marinhas de Steller, cujas ossadas perduram intactas num museu gra\u00e7as ao esfor\u00e7o de alguns humanos com mem\u00f3ria, t\u00eam familiares que ainda lutam por n\u00e3o se extinguir.<\/p>\n<p class=\"Paragraph SCXW107983165 BCX8\">\u201cO meu pa\u00eds \u00e9 s\u00f3 meu. Dele me v\u00eam as alegrias, os eventos e motivos da minha f\u00e9 nele, meu pa\u00eds da luz e da vit\u00f3ria sobre o tempo da tristeza antiga de que nos libert\u00e1mos em 1974: <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2025-09-03-da-ditadura-do-gosto-ao-gosto-pela-ditadura-b0893ce6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">a ditadura<\/a>, o colonialismo, a injusti\u00e7a social de um regime que n\u00f3s combatemos, pelo menos em esp\u00edrito e em esperan\u00e7a, no seio deste povo de que somos filhos\u201d, vemo-lo a escrever uma ter\u00e7a-feira, 14 de fevereiro de 2017, antes de comentar os \u201ccomentadores de tudo\u201d e que tudo sabem, depois dizer que n\u00e3o, que n\u00e3o est\u00e1 triste, mas sim resignado. Falamos de <strong>\u201cNovas Fases da Lua\u201d, de Jo\u00e3o de Melo<\/strong>, que saiu pela D. Quixote, di\u00e1rio pessoal entre aquele ano e 2024. <\/p>\n<p>O autor de \u201cGente Feliz com L\u00e1grimas\u201d disseca o mundo \u2013 o terror no M\u00e9dio Oriente, a guerra russo-ucraniana \u2013, o encerro da pandemia, os alertas do planeta, a escrita. \u201cJ\u00e1 o disseram outros antes de mim, mas n\u00e3o deixo de o repetir: <strong>ser escritor e viver da escrita nesta terra prometida, s\u00f3 por ilus\u00e3o ou por desatino. <\/strong><a href=\"https:\/\/leitor.expresso.pt\/semanario\/semanario2617\/html\/revista-e\/culturas\/a-independencia-do-livro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Quem compra os livros, quem os l\u00ea? <\/a>Que tipo de obras se vendem, hoje, nas livrarias?\u201d. Em janeiro de 2023, estas eram as perguntas. Em novembro de 2024, n\u00e3o mudaram assim tanto: \u201cQue tenho a propor a quem me l\u00ea? Serm\u00f5es, lavagens da mente, exerc\u00edcios de estilo, autojustifica\u00e7\u00e3o do escritor? Oxal\u00e1 o mundo ouvisse o meu sil\u00eancio. E mo aceitasse como um modo de falar \u00e0 consci\u00eancia do nosso tempo.\u201d <\/p>\n<p><strong>N\u00e3o s\u00f3 aceitamos, como agradecemos.<\/strong><\/p>\n<p>   <strong>OUTROS LIVROS POR ARRUMAR<\/strong>  <\/p>\n<p class=\"Paragraph SCXW107983165 BCX8\"><strong>FIC\u00c7\u00c3O <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cSetembro Negro\u201d, de Sandro Veronesi (Quetzal) <\/strong><\/p>\n<p>Do autor de \u201cColibri\u201d, nascido em Floren\u00e7a, um romance com esta primeira frase: \u201cPara poder come\u00e7ar a contar-vos esta hist\u00f3ria tenho de falar dos meus pais. Naquela \u00e9poca eram os guardi\u00f5es da minha serenidade e isto quer dizer que eram ambos bons pais.\u201d<\/p>\n<p><strong>\u201cGaspar Ruiz e um par de outros hist\u00f3rias\u201d, de Joseph Conrad (Minotauro) <\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas novelas do <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/podcasts\/tempo-ao-tempo\/2025-08-14-joseph-conrad-nasceu-na-ucrania-escreveu-em-ingles-e-sonhou-em-polaco-o-escritor-que-antecipou-a-globalizacao-segundo-rui-tavares-e3a5f727\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">primeiro Conrad<\/a>, a que d\u00e1 o t\u00edtulo ao livro publicada em 1906, seguida de \u201cO Delator\u201d, do mesmo ano, e de \u201cOs Idiotas\u201d, ainda anterior, de 1896. <\/p>\n<p><strong>\u201cMake Sequ\u00f3ias Great Again\u201d, de Ant\u00f3nio Cabrita (The Poets and Dragons Society) <\/strong><\/p>\n<p>Contos sobre o nosso tempo de um escritor portugu\u00eas prol\u00edfico, com o devido tom sarc\u00e1stico j\u00e1 esbo\u00e7ado no subt\u00edtulo &#8211; \u2018Cr\u00f3nicas da Era Trump\u2019.<\/p>\n<p class=\"Paragraph SCXW107983165 BCX8\"><strong>N\u00c3O-FIC\u00c7\u00c3O<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u201cUma Hist\u00f3ria da Filosofia\u201d, de Luc Ferry (Guerra &amp; Paz)<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p>\u201cA filosofia \u00e9 a melhor e principal chave para compreender a realidade, e penso que, se dedicar algum tempo a este livro, tamb\u00e9m compreender\u00e1 porqu\u00ea\u201d, diz-nos o fil\u00f3sofo franc\u00eas, doutorado em ci\u00eancia pol\u00edtica. <\/p>\n<p><strong>\u201cA Rota do Ouro\u201d, de William <\/strong><strong>Dalrymple<\/strong><strong> (D. Quixote)<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Salman Rushdie comentou que este comp\u00eandio \u00e9 uma \u201craridade\u201d: e \u00e9. A \u00cdndia antiga transformou mesmo o mundo e o livro, brilhantemente escrito, explica de que modo.<\/p>\n<p><strong>\u201cConversas sobre Deus \u2013 Um Di\u00e1logo com Simone Weil\u201d, de <\/strong><strong>Byung-Chul<\/strong><strong> Han (Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua)<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Um ensaio do fil\u00f3sofo sul-coreano sobre o pensamento de Simone Weil. Lemos no Pref\u00e1cio: \u201cH\u00e1 algum tempo, Simone Weil introduziu-se em mim. Instalou-se na minha alma. Agora, continua a viver e a falar dentro de mim. Iniciei uma conversa \u00edntima e ardente com ela.\u201d <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Tudo come\u00e7ou ao abrir \u201cTrincheira Tropical\u201d, de Ruy Castro, lan\u00e7ado pela Tinta-da-China, e encontrar a descri\u00e7\u00e3o de como&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":87530,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-104934","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104934","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=104934"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/104934\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87530"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=104934"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=104934"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=104934"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}