{"id":106118,"date":"2025-10-11T09:31:08","date_gmt":"2025-10-11T09:31:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/106118\/"},"modified":"2025-10-11T09:31:08","modified_gmt":"2025-10-11T09:31:08","slug":"novo-romance-de-ana-margarida-de-carvalho-reflete-sobre-exaustao-e-despertenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/106118\/","title":{"rendered":"Novo romance de Ana Margarida de Carvalho reflete sobre exaust\u00e3o e &#8220;desperten\u00e7a&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&#13;<br \/>\nEm entrevista \u00e0 ag\u00eancia Lusa, a prop\u00f3sito do seu \u00faltimo romance, a autora explicou que quis explorar &#8220;v\u00e1rios tipos de exaust\u00e3o&#8221; &#8212; desde a laboral \u00e0 f\u00edsica e emocional, passando pela da pr\u00f3pria natureza. &#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#8220;H\u00e1 a exaust\u00e3o de quem trabalha numa pedreira, mas tamb\u00e9m da pr\u00f3pria pedreira, da natureza que \u00e9 devastada, que j\u00e1 n\u00e3o aguenta mais e acaba por tudo aquilo ser uma consequ\u00eancia tr\u00e1gica do que os homens lhe fizeram: o desmatamento, a devasta\u00e7\u00e3o total&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nO romance aborda tamb\u00e9m &#8220;a exaust\u00e3o de uma mulher que quer parecer nova \u00e0 viva for\u00e7a&#8221; e &#8220;a exaust\u00e3o do organismo que j\u00e1 n\u00e3o aguenta mais&#8221;, numa narrativa em que o corpo e o meio ambiente partilham o mesmo desgaste.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nA hist\u00f3ria come\u00e7a com um homem b\u00eabedo a ser transportado numa carro\u00e7a, feito prisioneiro e condenado, sem saber, a trabalhos for\u00e7ados numa pedreira escondida, onde acaba por conhecer toda uma galeria de personagens grotescas, que v\u00e3o de um cego violento at\u00e9 uma mulher sem nariz por quem todos os homens se apaixonam.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nO sentimento de &#8220;desperten\u00e7a&#8221; surge como contraponto, um sentimento que a autora confessa que lhe toca pessoalmente.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#8220;Interessa-me muito perceber onde \u00e9 que a pessoa se sente em casa, onde \u00e9 que uma pessoa sente que pertence, onde sente que j\u00e1 n\u00e3o restam mais planos de fuga, talvez porque tenha ali uma miss\u00e3o, um prop\u00f3sito de vida&#8221;, afirmou, descrevendo o espa\u00e7o da pedreira &#8212; cen\u00e1rio central do romance &#8212; como &#8220;uma esp\u00e9cie de campo de refugiados, onde h\u00e1 um grande desinvestimento em viver&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nAs personagens foram surgindo, desde logo a ideia de uma personagem visivelmente e obviamente desfigurada que pudesse ser alvo de um grande interesse por parte dos homens, mas tamb\u00e9m de um cego cruel, de homem que vive numa esp\u00e9cie de colmeia, &#8220;sendo ele a rainha-m\u00e3e&#8221;, e de um alco\u00f3lico delirante e com incompet\u00eancias de comunica\u00e7\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#8220;S\u00e3o personagens perigosas, porque j\u00e1 ca\u00edram num estado de desalento que \u00e9 um grande perigo para as pr\u00f3prias sociedades. Quando as sociedades se desencantam \u00e9 muito perigoso&#8221;, destacou a autora.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nMas s\u00e3o tamb\u00e9m personagens marcadas pela &#8220;ambival\u00eancia&#8221;: &#8220;Interessava-me uma personagem que \u00e9 cruel, mas que ao mesmo tempo cura, que trata das pessoas da comunidade, fornecendo-lhes carne, mas ao mesmo tempo trata dos mortos, que lhes contamina a \u00e1gua, mas por outro lado, no fundo, \u00e9 ela que garante a funcionalidade daquela comunidade&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nE aqui chega-se a outro tema de Ana Margarida de Carvalho, que \u00e9 &#8220;o tema do cerco, o tema das comunidades fechadas onde as regras se v\u00e3o subvertendo&#8221;, criando novas l\u00f3gicas de sobreviv\u00eancia.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nA escritora reconhece que este romance tem muitas das suas marcas, como o movimento, pois todos os seus romances &#8220;come\u00e7am em andamento, que \u00e9 uma ideia tamb\u00e9m muito simb\u00f3lica&#8221;, e a que este &#8220;A chuva que lan\u00e7a a areia do Saara&#8221; n\u00e3o escapa.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nO romance abre com o protagonista a caminho da pedreira e, nesse percurso, entre divaga\u00e7\u00f5es mentais e conversas com um amigo imagin\u00e1rio, conduz o leitor por &#8220;um terreno pantanoso, o terreno da sugest\u00e3o&#8221;, onde &#8220;nada \u00e9 o que parece&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#8220;Quem anda, quem viaja, deixa para tr\u00e1s, torna tudo passado. E \u00e9 uma personagem que vai delirando, que vai buscando, de uma forma muito divagativa e derivativa, buscando as suas refer\u00eancias, as suas mem\u00f3rias, que j\u00e1 est\u00e3o um pouco confusas porque ele est\u00e1 alcoolizado em fase terminal. Esta \u00e9 outra das exaust\u00f5es, a exaust\u00e3o do organismo que j\u00e1 n\u00e3o aguenta mais, os seus \u00f3rg\u00e3os est\u00e3o \u00e0 beira do colapso porque n\u00e3o aguentam mais essa condi\u00e7\u00e3o&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nO t\u00edtulo do livro \u00e9 retirado de uma m\u00fasica escrita por Caetano Veloso, intitulada &#8220;Reconvexo&#8221; e que come\u00e7a com a frase &#8220;Eu sou a chuva que lan\u00e7a a areia do Saara\/Sobre os autom\u00f3veis de Roma&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nA escolha deste t\u00edtulo prendeu-se com o &#8220;efeito de espelho&#8221; que o livro tem, em que &#8220;todos os atos das personagens se refletem uns nos outros&#8221;, uma ideia que se estende \u00e0 met\u00e1fora da tempestade de areia do Saara que atravessa continentes: &#8220;Uma convuls\u00e3o de areias no deserto acaba por se refletir aqui na Europa, nessa pel\u00edcula mate que cobre os carros e at\u00e9 nos provoca alergias&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#8220;E `reconvexar`, uma palavra que n\u00e3o existe, tamb\u00e9m me seduz muito. Podia existir, mas n\u00e3o existe, e seduz-me muito esta capacidade de criar novas linguagens e novas palavras&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\nPara Ana Margarida de Carvalho, tudo isto &#8220;\u00e9 um exclusivo da fic\u00e7\u00e3o, porque a verdade absoluta n\u00e3o existe&#8221;.&#13;\n<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n&#8220;A maior verdade absoluta do mundo \u00e9 que ela n\u00e3o existe, e a segunda ser\u00e1 que a verdade mais fi\u00e1vel \u00e9 aquela que se encontra na fic\u00e7\u00e3o, porque est\u00e1 livre de dogmas, de ideologias, de inten\u00e7\u00f5es. \u00c9 s\u00f3 a nossa verdade com que n\u00f3s constru\u00edmos a mentira&#8221;.&#13;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#13; Em entrevista \u00e0 ag\u00eancia Lusa, a prop\u00f3sito do seu \u00faltimo romance, a autora explicou que quis explorar&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":106119,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[25466,1753,169,315,114,115,170,32,33,1016],"class_list":{"0":"post-106118","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-ana-margarida-de-carvalho","9":"tag-artes","10":"tag-books","11":"tag-cultura","12":"tag-entertainment","13":"tag-entretenimento","14":"tag-livros","15":"tag-portugal","16":"tag-pt","17":"tag-romance"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106118","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=106118"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106118\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/106119"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=106118"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=106118"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=106118"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}