{"id":106983,"date":"2025-10-11T23:33:15","date_gmt":"2025-10-11T23:33:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/106983\/"},"modified":"2025-10-11T23:33:15","modified_gmt":"2025-10-11T23:33:15","slug":"coracao-sem-medo-e-o-livro-mais-consistente-de-itamar-11-10-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/106983\/","title":{"rendered":"&#8216;Cora\u00e7\u00e3o sem Medo&#8217; \u00e9 o livro mais consistente de Itamar &#8211; 11\/10\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Com ep\u00edgrafe de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2021\/09\/tentaram-destruir-os-negros-mas-estamos-aqui-fazendo-barulho-diz-ricardo-aleixo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Ricardo Aleixo<\/a> \u2014o mais impressionante nome da poesia contempor\u00e2nea\u2014 e dividido em cinco partes, o novo romance &#8220;Cora\u00e7\u00e3o sem Medo&#8221;, do baiano <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/itamar-vieira-junior\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Itamar Vieira Junior<\/a>, oferece 336 p\u00e1ginas de ang\u00fastia, desespero e reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 21 \u00e9 proibido dar <a href=\"https:\/\/f5.folha.uol.com.br\/televisao\/2014\/10\/1527063-cientistas-defendem-que-spoilers-fazem-telespectadores-se-interessarem-mais-pela-historia.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">spoilers<\/a>, mas devo avisar que, de tudo o que Itamar Vieira Junior escreveu at\u00e9 o momento, essa \u00e9 a parte mais interessante e consistente de seu projeto liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 um livro que parece sugerir ser a forma tr\u00e1gica inventada pelos brancos o g\u00eanero no qual a vida negra cabe com exatid\u00e3o.<\/p>\n<p>Para os pessimistas, &#8220;Cora\u00e7\u00e3o sem Medo&#8221; \u2014parte final da trilogia da terra, composta ainda por <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/04\/torto-arado-do-brasileiro-itamar-vieira-junior-vence-premio-literario-na-franca.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Torto Arado&#8221; e &#8220;Salvar o Fogo&#8221;<\/a>\u2014 \u00e9 uma convoca\u00e7\u00e3o \u00e0s repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e uma cataloga\u00e7\u00e3o dos resqu\u00edcios institucionais da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ditadura-militar\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">ditadura militar<\/a> que, para o povo preto, n\u00e3o terminou em 1985 nem come\u00e7ou em 1964.<\/p>\n<p>A protagonista \u00e9 Rita Preta, que adquire esse sobrenome-adjetivo para diferenci\u00e1-la da Rita-branca, a propriet\u00e1ria da casa onde ela passa a morar. Fruto do \u00eaxodo rural, Rita Preta \u00e9 bisneta de Donana, personagem-raiz de &#8220;Torto Arado&#8221;, e passa a maior parte do livro na busca de um filho desaparecido.<\/p>\n<p>Em sua jornada de hero\u00edna, ela descende, empreende e transcende, construindo coletivamente suas mem\u00f3rias individuais; Rita Preta se transforma, sob nossos olhos, em uma Ant\u00edgona que lixa nossos p\u00e9s e faz nossas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Desse modo, Itamar arquiteta uma inesperada e estridente ode \u00e0 for\u00e7a da fam\u00edlia brasileira pobre, que n\u00e3o nasce do melhor modo, que n\u00e3o vive da melhor forma, mas cuja capacidade de resili\u00eancia sustenta a sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Ao longo da narrativa, o autor domina bem a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/arte\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">arte<\/a> de segurar quem o l\u00ea, mesmo que sucumba \u2014bem mais vezes do que o desej\u00e1vel\u2014 a constantes interven\u00e7\u00f5es pedagogizantes no texto, como se n\u00e3o confiasse na efici\u00eancia est\u00e9tica de sua f\u00e1bula.<\/p>\n<p>Nessas horas \u2014s\u00e3o poucas, mas muito inc\u00f4modas\u2014, o didatismo do narrador arranha a imagina\u00e7\u00e3o do autor, e a renitente tentativa de domestica\u00e7\u00e3o do que \u00e9 genuinamente selvagem em seus personagens profundamente humanos faz com que nos sintamos em uma par\u00e1bola moralista.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Quando resiste a isso, entretanto, a obra cresce e \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar o que deu ao autor <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/11\/jabuti-premia-victor-heringer-por-livro-publicado-no-exterior-apos-sua-morte-acompanhe.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">dois Jabutis<\/a>, um pr\u00eamio LeYa e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/12\/torto-arado-de-itamar-vieira-junior-e-o-livro-vencedor-do-oceanos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">um pr\u00eamio Oceanos<\/a>: a capacidade de criar atmosferas nas quais os valores colonialistas se desmancham no ar.<\/p>\n<p>As p\u00e1ginas de &#8220;Cora\u00e7\u00e3o sem Medo&#8221; comovem, entret\u00eam e justificam o lugar de seu autor na lista dos mais vendidos. Ainda espero dele um narrador que n\u00e3o seja reverente ao mundo do leitor, mas tudo medido e tudo somado, \u00e9 um livro que consegue combater a precariedade do mundo social com a fertilidade luminosa das fabula\u00e7\u00f5es individuais.<\/p>\n<p>O romance responde com compet\u00eancia \u00e0 frequente acusa\u00e7\u00e3o, feita a todo autor cujos av\u00f3s n\u00e3o vieram para esse pa\u00eds para dirigir f\u00e1bricas, de que mudar as perspectivas antropol\u00f3gicas de uma tradi\u00e7\u00e3o ficcional resulta obrigatoriamente na redu\u00e7\u00e3o das ambi\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas das literaturas daqueles que, at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s, s\u00f3 tinham direito \u00e0 <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a> dos outros.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2025\/08\/itamar-ernaux-e-ferrante-sao-interessantes-mas-nao-literatura-diz-aurora-bernardini.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">discuss\u00e3o sobre forma e conte\u00fado<\/a>, que nos \u00faltimos tempos tomou conta dos debates nas altas rodas liter\u00e1rias da Vila Madalena e nos caf\u00e9s da Santa Cec\u00edlia, encontrar\u00e1 na publica\u00e7\u00e3o de &#8220;Cora\u00e7\u00e3o sem Medo&#8221; um novo cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>Contudo, o eventual predom\u00ednio midi\u00e1tico de obras em que a sinopse parece importar mais que o trabalho de linguagem dos autores \u00e9 um problema do mercado, n\u00e3o da literatura.<\/p>\n<p>A confus\u00e3o entre essas duas inst\u00e2ncias \u00e9 sintoma de quem j\u00e1 perdeu a capacidade de compreender os fen\u00f4menos contempor\u00e2neos e que, por isso, busca inibir o nascimento de tudo aquilo que n\u00e3o pare\u00e7a sintoma de velhas doen\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com ep\u00edgrafe de Ricardo Aleixo \u2014o mais impressionante nome da poesia contempor\u00e2nea\u2014 e dividido em cinco partes, o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":106984,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,7830,114,115,1907,236,4173,864,237,170,7831,32,33,7832,1016,4176],"class_list":{"0":"post-106983","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-cultura-negra","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-escritores","13":"tag-folha","14":"tag-itamar-vieira-junior","15":"tag-literatura","16":"tag-livro","17":"tag-livros","18":"tag-negro","19":"tag-portugal","20":"tag-pt","21":"tag-representatividade-negra","22":"tag-romance","23":"tag-torto-arado"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106983","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=106983"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/106983\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/106984"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=106983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=106983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=106983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}