{"id":107519,"date":"2025-10-12T11:17:08","date_gmt":"2025-10-12T11:17:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/107519\/"},"modified":"2025-10-12T11:17:08","modified_gmt":"2025-10-12T11:17:08","slug":"cartografia-do-desamparo-em-brasilia-c7nema-net","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/107519\/","title":{"rendered":"cartografia do desamparo em Bras\u00edlia \u2014 C7nema.net"},"content":{"rendered":"<p>Uma quadra sobre uma cidade que se escreve assim, \u00f3:<\/p>\n<p>\u201centre,<br \/>entre por favor<br \/>entre blocos<br \/>entre quadras<br \/>entre,<br \/>entre por favor\u201d<\/p>\n<p>\u2014 j\u00e1 antecipa que o seu c\u00f3digo-postal \u00e9 a solid\u00e3o, a sua regi\u00e3o administrativa o desamparo e que a sua gente se liga nas desconex\u00f5es de uma terra pensada como marco arquitet\u00f3nico. Fala-se de Bras\u00edlia, causa (e \u201ccauso\u201d) dos versos de Nicola Behr (um trovador do Cerrado) no livro Poes\u00edlia (2010), que cobre muitos dos sentimentos retratados em <strong>Pequenas Criaturas<\/strong>, um filme de afli\u00e7\u00e3o que, pouco a pouco, desce encostas at\u00e9 ao aconchego. O Distrito Federal, territ\u00f3rio do Centro-Oeste do Brasil onde, desde o in\u00edcio dos anos 60, passou a operar a capital republicana, \u00e9 espa\u00e7o \u2014 e personagem \u2014 do sufocante exerc\u00edcio de (auto)geografia de Anne Pinheiro Guimar\u00e3es, que encerrou a sele\u00e7\u00e3o competitiva do Festival do Rio 2025. O miolo dos anos 80, j\u00e1 ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o que se seguiu a 21 anos de ditadura (1964\u20131985), \u00e9 o m\u00f3dulo temporal onde \u00e1lgebras sentimentais se instalam num ambiente famoso pela vastid\u00e3o do c\u00e9u. O seu povo sai de l\u00e1, mas esse \u201cl\u00e1\u201d n\u00e3o sai do seu povo, como escreveu Behr, ao dizer: \u201cme abandone\/ te imploro\/ te pe\u00e7o\/ suplico\/ me abandone\/ que eu preciso sofrer\u201d. A trama de Anne est\u00e1 toda a\u00ed, sintetizada nesses verbos.<\/p>\n<p>Realizadora de <strong>Transe<\/strong> (em coautoria com Carolina Jabor, 2022), a cineasta estaciona o argumento de <strong>Pequenas Criaturas<\/strong> no labirinto de bet\u00e3o da Bras\u00edlia de 1986, quando o rock ganhava sotaque brasileiro em bandas como RPM, Paralamas do Sucesso e Legi\u00e3o Urbana. Nesse cen\u00e1rio, surge uma ciranda de personagens, numa estrutura em painel que lembra Robert Altman \u2014 n\u00e3o pelas colis\u00f5es de n\u00facleos dos seus filmes corais dos anos 90\/2000 (<strong>Short Cuts<\/strong>, <strong>The Player<\/strong>), mas por um clima seco mais pr\u00f3ximo de <strong>3 Women<\/strong> (1977). Carolina Dieckmann \u2014 mais conhecida da televis\u00e3o \u2014 faz pouco cinema, mas quando o faz (veja-se <strong>Onde Andar\u00e1 Dulce Veiga?<\/strong> e <strong>O Sil\u00eancio do C\u00e9u<\/strong>), testa as condi\u00e7\u00f5es normais de temperatura e press\u00e3o do drama.<\/p>\n<p>Cabe-lhe ser uma das \u201cpequenas criaturas\u201d do t\u00edtulo: Helena, m\u00e3e perseverante e esposa infeliz que, mal se instala com a fam\u00edlia na capital futurista do Brasil, v\u00ea o marido partir em viagem de neg\u00f3cios. Liga para o hotel dele, longe, e quem atende \u00e9 uma voz feminina, num \u201cal\u00f4\u201d de gelar a espinha. Abandonada numa megal\u00f3pole desenhada em superquadras, questiona as suas escolhas, frustrada e perdida. Outra vez, a po\u00e9tica de Behr ilumina as sensa\u00e7\u00f5es da personagem: \u201cBras\u00edlia j\u00e1 teve de mim\/ o peda\u00e7o que queria\/ o peda\u00e7o fedia\u201d. A perce\u00e7\u00e3o de ter escolhido o estado errado agrava-se com a revolta do filho adolescente \u2014 que descobre o primeiro amor sob o peso do bullying \u2014, enquanto o mi\u00fado de sete anos encontra magia em amizades improv\u00e1veis, incluindo a de um vizinho esquisit\u00e3o (um Fernando Eiras com modos de Boris Karloff e uma vulnerabilidade pantagru\u00e9lica).<\/p>\n<p>Numa democracia com menos de um ano de idade, todos vivem num limbo entre o que foi e o que poderia ser, na sensa\u00e7\u00e3o de que o futuro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 como dantes. A luz da dire\u00e7\u00e3o de fotografia de Pablo Bai\u00e3o sublinha a grandiosidade n\u00e3o de um porvir, mas do hiato afetivo, do que h\u00e1 de oco. A delicada montagem de Mar\u00edlia Moraes, paciente com os engasgos e atenta \u00e0s esperan\u00e7as, acomoda bem as lufadas de calmaria. H\u00e1 a vizinha (Let\u00edcia Sabatella), que funcionar\u00e1 como rede de apoio, e h\u00e1 Caco Ciocler \u2014 um dos int\u00e9rpretes em melhor forma desta Premi\u00e8re Brasil \u2014 no papel do melhor \u201cquase-namorado\u201d que qualquer namorado sonharia ser. Ali, em meio a um projeto de amanh\u00e3 que teima em n\u00e3o avan\u00e7ar, alian\u00e7as firmam-se at\u00e9 que rasgos de fantasia fragmentam o realismo \u00e1spero de Anne e nos oferecem, como mimo, um final que fita as alturas \u2014 gesto de consolo numa longa-metragem de variadas destrezas.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma quadra sobre uma cidade que se escreve assim, \u00f3: \u201centre,entre por favorentre blocosentre quadrasentre,entre por favor\u201d \u2014&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":107520,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[114,115,147,148,146,32,33],"class_list":{"0":"post-107519","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-film","11":"tag-filmes","12":"tag-movies","13":"tag-portugal","14":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=107519"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/107519\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/107520"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=107519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=107519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=107519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}