{"id":109373,"date":"2025-10-13T18:12:15","date_gmt":"2025-10-13T18:12:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/109373\/"},"modified":"2025-10-13T18:12:15","modified_gmt":"2025-10-13T18:12:15","slug":"saga-de-uma-devastacao-quatro-cinco-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/109373\/","title":{"rendered":"Saga de uma devasta\u00e7\u00e3o &#8211; Quatro cinco um"},"content":{"rendered":"<p>A sensa\u00e7\u00e3o ao terminar de ler Banho de lua, de Yanick Lahens, \u00e9 a de que estamos diante de uma hist\u00f3ria de utopias. Ou talvez n\u00e3o seja bem isso. Sensa\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, um modo de dizer. \u00c9 o que sentimos quando um vento frio sopra nosso rosto quente: o arrepio \u00e9 imediato e, logo em seguida, se dissipa. Vivi a narrativa de Yanick Lahens como quem ganha um susto. Hist\u00f3rias que nos det\u00eam, nos prendem na cadeira, nos deixam alheios a tudo, horas a fio, s\u00e3o as que mais assustam. Ou melhor, n\u00e3o s\u00f3 assustam, como nos comovem e nos direcionam a digress\u00f5es profundas \u2014 sobre cultura, seres humanos, pa\u00edses e, ainda mais, suas desigualdades.<\/p>\n<p>Banho de lua se integra ao enredo de uma na\u00e7\u00e3o destro\u00e7ada pela gan\u00e2ncia e pelo medo. O romance \u00e9 n\u00edtido como um espelho que reflete, de forma nua e crua, a realidade vivida por duas fam\u00edlias historicamente rivais: os Lafleur e os M\u00e9sidor. A primeira, formada por camponeses simples que vivem do suor diuturno, da labuta do pescado e da colheita da ro\u00e7a; a segunda, claramente poderosa, formada por desp\u00f3ticos donos de terras, latifundi\u00e1rios doentios que dominam tudo na base da corrup\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Essas duas fam\u00edlias, com seus ciclos geracionais, percorrem o romance de Lahens de forma surpreendente, atadas a um realismo que aproxima a fic\u00e7\u00e3o, em seu estado de eleva\u00e7\u00e3o, \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria do Haiti, onde a narrativa se passa \u2014 um pa\u00eds forjado em conflitos sanguin\u00e1rios, assassinatos, rivalidades e guerras sem fim.<\/p>\n<blockquote class=\"s-eye dashed-top\"><p>\n    A forma loquaz com que a autora remexe no passado haitiano nos diz muito sobre seu ativismo\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao escrever Banho de lua pela \u00f3tica do crime e da corrup\u00e7\u00e3o, Lahens tra\u00e7a um painel preciso de um ponto de vista conc\u00eantrico. Seu alicerce \u00e9 a saga ut\u00f3pica da jovem Olm\u00e8se Dorival, integrante da fam\u00edlia rural, em constante luta pela sobreviv\u00eancia. Em contraponto, h\u00e1 o poderio do senhor de terras Tertulien M\u00e9sidor, perpetrador de desmandos sedento por poder, cuja personalidade \u00e9 enraizada no passado familiar forjado no dom\u00ednio arbitr\u00e1rio, na matan\u00e7a e na submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>\t\t\t<a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"adv-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3008\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201056%20270'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Group-3008-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n<p>O pa\u00eds dos personagens tem correla\u00e7\u00e3o direta com a na\u00e7\u00e3o verdadeiramente dist\u00f3pica que, desde sua origem, entre o final do s\u00e9culo 18 e o in\u00edcio do 19, vive entre rupturas coloniais e arrebatamentos consecutivos. De um lado, a forte marca do pertencimento, para al\u00e9m da ancestralidade espremida pela religi\u00e3o, misto de catolicismo e africanidade, com o vudu de permeio; e de outro, a coloniza\u00e7\u00e3o europeia. Duas dolorosas feridas abertas, que teimam em n\u00e3o cicatrizar e que ainda sangram.<\/p>\n<p>A forma loquaz com que Yanick Lahens remexe no passado do Haiti, considerado de \u201cviolenta beleza\u201d, nos diz muito sobre sua trajet\u00f3ria e seu ativismo enquanto negra e intelectual, ganhadora em 2014 \u2014 justamente por Banho de lua \u2014 do pr\u00eamio Femina, uma esp\u00e9cie de Goncourt com j\u00fari exclusivamente feminino.<\/p>\n<p>Imers\u00e3o<\/p>\n<p>Educada na Fran\u00e7a, onde se graduou em literatura comparada na tradicional Universidade Sorbonne, a autora retornou a Porto Pr\u00edncipe, seu territ\u00f3rio de nascen\u00e7a, aos 25 anos, em 1978, para repensar e lecionar sobre os escombros herdados do per\u00edodo da escravid\u00e3o. Nessa conjuntura, fundou a Associa\u00e7\u00e3o dos Escritores Haitianos, que molda o esp\u00edrito militante de sua escrita e mant\u00e9m o projeto \u201cRota da Escravatura\u201d \u2014 cujos encontros e debates procuram remover as camadas do atraso cultural e econ\u00f4mico caribenho.<\/p>\n<p>Mesmo pelo vi\u00e9s da destrui\u00e7\u00e3o e do massacre, \u00e9 poss\u00edvel enxergar na narrativa a conex\u00e3o de beleza e poesia, de leveza e de ac\u00famulo cultural. O romance tamb\u00e9m pode ser entendido como pequeno manual de aprendizados \u2014 tanto pelos rituais das divindades do vudu, que cada vez mais se sincroniza com a religi\u00e3o cat\u00f3lica, quanto pela preserva\u00e7\u00e3o dos falares crioulos, originados do embate lingu\u00edstico dos idiomas de matriz africana com o franc\u00eas do colonizador.<\/p>\n<p>Mais do que isso, Banho de lua \u00e9 uma hist\u00f3ria que nos anestesia \u2014 ou melhor, nos causa nan d\u00f2mi (doce sonol\u00eancia, em crioulo haitiano). Aos solavancos, entramos e sa\u00edmos dela com uma ideia para \u201cal\u00e9m daquilo que \u00e9ramos capazes de inventar\u201d. O romance n\u00e3o diz respeito apenas a uma pura e simples fabula\u00e7\u00e3o, termo que se emprega aqui com conota\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 sua raiz etimol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Narradora concisa, habilidosa no traquejo lingu\u00edstico e na cria\u00e7\u00e3o de tramas seguras e convincentes, Yanick Lahens oportunamente nos conecta a uma \u201chist\u00f3ria de tumultos e de eventos ordin\u00e1rios. \u00c0s vezes, de f\u00faria e fome. Por momentos, de corpos que exultam e encantam. Por outros, de sangue e sil\u00eancio\u201d, como professa o livro.<\/p>\n<p>Talvez venha da\u00ed o que nos leva a imergir na narrativa, num mergulho indelevelmente sem volta para dentro de uma obra que nos emociona e alimenta a ponto de nos condicionar a \u201ccomer a pr\u00f3pria fome\u201d. Quase assumindo o lugar da autora, tomamos nas nossas m\u00e3os o destino das personagens, arrogando o poder de vida e morte sobre elas.<\/p>\n<p>O que Yanick Lahens escreve n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de ser ingerido, mas \u00e9 altamente necess\u00e1rio \u2014 para o Haiti, para o mundo. Os tra\u00e7os coloniais \u2014 marcadores da exist\u00eancia dos povos das Am\u00e9ricas, sobretudo os de origem africana \u2014 est\u00e3o por toda parte no continente, como um medidor de viol\u00eancia e atrocidades, a exemplo do que acontece no Brasil.<\/p>\n<p>Sob tal perspectiva, Banho de lua se transforma no caminho do sentir do povo haitiano \u2014 e, igualmente, do nosso sentir. Os registros epid\u00e9rmicos nos carregam pelo mesmo tempo de dor, de desilus\u00e3o, de buscar saber quem somos e de onde viemos.<\/p>\n<p>Neste particular, Yanick Lahens nos deixa algumas pistas, mas n\u00e3o muitas. A tradu\u00e7\u00e3o de seu romance premiado nos permite conectar com sua di\u00e1spora, que n\u00e3o est\u00e1 muito distante da nossa.<\/p>\n<p>\t<a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"adv-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3010\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201056%20270'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Group-3010-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A sensa\u00e7\u00e3o ao terminar de ler Banho de lua, de Yanick Lahens, \u00e9 a de que estamos diante&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":109374,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-109373","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109373"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109373\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/109374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}