{"id":109928,"date":"2025-10-14T02:05:14","date_gmt":"2025-10-14T02:05:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/109928\/"},"modified":"2025-10-14T02:05:14","modified_gmt":"2025-10-14T02:05:14","slug":"interpretes-do-brasil-e-o-desafio-da-desconstrucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/109928\/","title":{"rendered":"\u2018Int\u00e9rpretes do Brasil\u2019 e o desafio da desconstru\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p class=\"cobertura-desktop cobertura-desktop-md fix-strong-wrap\" style=\"font-size:50px;line-height:1.5\">\u2018Int\u00e9rpretes do <strong>Brasil<\/strong>\u2019 e <strong>o desafio da desconstru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"781\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Pintura-de-Vitor-Meirelles_Wikimedia-Commons-1024x781.jpg\" alt=\"Esta imagem \u00e9 a famosa e grandiosa pintura hist\u00f3rica &quot;A Primeira Missa no Brasil&quot;, de Victor Meirelles. A obra retrata uma cena ao ar livre, em uma paisagem tropical exuberante, representando o primeiro contato religioso entre portugueses e os povos ind\u00edgenas do Brasil.&#10;&#10;O ponto central \u00e9 um altar improvisado onde um padre, de vestes brancas e solenes, celebra a missa diante de uma grande cruz de madeira. Ao redor do altar, est\u00e3o os colonizadores portugueses \u2014 vestidos com trajes da \u00e9poca, incluindo armaduras, roupas nobres e h\u00e1bitos de frades \u2014 todos concentrados na cerim\u00f4nia.&#10;&#10;Em um grande semic\u00edrculo em volta dos portugueses, uma multid\u00e3o de ind\u00edgenas, com os corpos nus ou seminus, observa o ritual com express\u00f5es de curiosidade, espanto e fasc\u00ednio. Suas posturas s\u00e3o variadas: alguns est\u00e3o sentados no ch\u00e3o, outros de p\u00e9, e h\u00e1 at\u00e9 quem suba em uma \u00e1rvore para ter uma vis\u00e3o melhor da cena. A pintura transmite uma atmosfera idealizada de um encontro pac\u00edfico e solene, marcando um momento fundador na hist\u00f3ria do pa\u00eds.\" class=\"wp-image-50427\" style=\"width:700px\"  \/><strong>Pintura retrata a primeira missa no Brasil: projeto da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa visava semear um centramento na cultura europeia no Brasil<\/strong><\/p>\n<p class=\"cobertura-desktop cobertura-desktop-md fix-strong-wrap\" style=\"font-size:25px;line-height:1.5\">Silviano Santiago revisita colet\u00e2nea sobre as origens da na\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"873\" height=\"809\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/trecho.png\" alt=\"Introdu\u00e7\u00e3o\" class=\"wp-image-50438\" style=\"width:500px\"  \/><\/p>\n<p class=\"cobertura-mobile cobertura-mobile-md fix-strong-wrap\" style=\"font-size:45px;line-height:1.5\">\u2018Int\u00e9rpretes do <strong>Brasil<\/strong>\u2019 e <strong>o desafio<br \/>da desconstru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"cobertura-mobile cobertura-mobile-md fix-strong-wrap\" style=\"font-size:25px;line-height:1.5\">Silviano Santiago revisita colet\u00e2nea sobre as origens da na\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"781\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Pintura-de-Vitor-Meirelles_Wikimedia-Commons-1-1024x781.jpg\" alt=\"Esta imagem \u00e9 a famosa e grandiosa pintura hist\u00f3rica &quot;A Primeira Missa no Brasil&quot;, de Victor Meirelles. A obra retrata uma cena ao ar livre, em uma paisagem tropical exuberante, representando o primeiro contato religioso entre portugueses e os povos ind\u00edgenas do Brasil.&#10;&#10;O ponto central \u00e9 um altar improvisado onde um padre, de vestes brancas e solenes, celebra a missa diante de uma grande cruz de madeira. Ao redor do altar, est\u00e3o os colonizadores portugueses \u2014 vestidos com trajes da \u00e9poca, incluindo armaduras, roupas nobres e h\u00e1bitos de frades \u2014 todos concentrados na cerim\u00f4nia.&#10;&#10;Em um grande semic\u00edrculo em volta dos portugueses, uma multid\u00e3o de ind\u00edgenas, com os corpos nus ou seminus, observa o ritual com express\u00f5es de curiosidade, espanto e fasc\u00ednio. Suas posturas s\u00e3o variadas: alguns est\u00e3o sentados no ch\u00e3o, outros de p\u00e9, e h\u00e1 at\u00e9 quem suba em uma \u00e1rvore para ter uma vis\u00e3o melhor da cena. A pintura transmite uma atmosfera idealizada de um encontro pac\u00edfico e solene, marcando um momento fundador na hist\u00f3ria do pa\u00eds.\" class=\"wp-image-50429\" style=\"object-fit:cover\"  \/>Pintura retrata a primeira missa no Brasil: projeto da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa visava semear um centramento na cultura europeia no Brasil<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"873\" height=\"809\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/trecho.png\" alt=\"Introdu\u00e7\u00e3o\" class=\"wp-image-50438\" style=\"width:500px\"  \/><\/p>\n<p class=\"has-drop-cap\" style=\"line-height:1.5\">O trecho final da carta de Pero Vaz de Caminha endere\u00e7ada ao rei portugu\u00eas D. Manuel I, primeiro documento escrito sobre o Brasil, deu o tom de como seria nossa coloniza\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s se depararem com a exuber\u00e2ncia da natureza tropical e com os nativos \u2014 aqueles \u201csem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas\u201d \u2014, cabia aos colonizadores estabelecer a f\u00e9 cat\u00f3lica e a cultura europeia como modelos civilizat\u00f3rios da nova terra.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Quinhentos anos depois de lavrada nossa certid\u00e3o de nascimento, coube a Silviano Santiago, cr\u00edtico liter\u00e1rio, ensa\u00edsta, romancista e um dos maiores intelectuais do pa\u00eds, um desafio digno dos que se lan\u00e7aram \u201cpor mares nunca dantes navegados\u201d. A convite da Comiss\u00e3o Nacional do Quinto Centen\u00e1rio do Descobrimento, formada por membros do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Santiago foi o organizador da colet\u00e2nea \u201cInt\u00e9rpretes do Brasil\u201d, que reuniu diferentes obras com o objetivo de lan\u00e7ar luz sobre aspectos de nossas origens, sociedade e cultura. O resultado foi publicado em tr\u00eas volumes pela editora Nova Aguilar, em 2000, totalizando mais de 4.600 p\u00e1ginas, e \u00e9 composto por uma sele\u00e7\u00e3o de dez textos entre os muitos que se tornaram fundamentais em nossa hist\u00f3ria. \u201cSem d\u00favida, a encomenda mais temerosa e arriscada\u201d, lembra o cr\u00edtico 25 anos depois.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Para celebrar o 25\u00ba anivers\u00e1rio de lan\u00e7amento da obra, Santiago participou de uma confer\u00eancia realizada pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, na qual falou sobre sua forma\u00e7\u00e3o intelectual e sobre os fatores que o influenciaram na sele\u00e7\u00e3o dos textos. Em uma conversa com o Jornal da Unicamp, ele tamb\u00e9m refletiu sobre a literatura brasileira contempor\u00e2nea e sobre como sua ideia de entre-lugar, proposta nos anos 1970, continua a ser uma ferramenta \u00fatil para apreci\u00e1-la, al\u00e9m de contar como tem se equilibrado na corda bamba que considera ser a velhice.<\/p>\n<p style=\"font-size:25px;line-height:1.5\"><strong>Interpreta\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Se o convite havia sido ambicioso, Santiago dobrou a aposta no in\u00edcio, sugerindo uma cole\u00e7\u00e3o de 60 volumes que abrangesse um panorama universal do pensamento desde o s\u00e9culo 16 at\u00e9 o quinto centen\u00e1rio do pa\u00eds. \u201cInfelizmente, meu editor julgou a proposta meio descabida\u201d, lembra. Ainda assim, pensou que seria pouco restringir a sele\u00e7\u00e3o aos romances, sua \u00e1rea de especialidade, optando por lan\u00e7ar um olhar cr\u00edtico \u00e0 vasta produ\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica do Brasil e sobre o Brasil.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">As obras escolhidas foram: O abolicionismo, de Joaquim Nabuco; A Am\u00e9rica Latina, de Manuel Bonfim; Popula\u00e7\u00f5es meridionais do Brasil, de Oliveira Viana; Vida e morte do bandeirante, de Alc\u00e2ntara Machado; Retrato do Brasil, de Paulo Prado; Hist\u00f3ria da sociedade patriarcal do Brasil (que re\u00fane Casa Grande &amp; Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e Progresso), de Gilberto Freyre; Ra\u00edzes do Brasil, de S\u00e9rgio Buarque de Hollanda; Forma\u00e7\u00e3o do Brasil contempor\u00e2neo, de Caio Prado J\u00fanior; e A revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes. Todos os textos foram acompanhados por pref\u00e1cios, escritos por acad\u00eamicos contempor\u00e2neos, que contextualizam as obras. A primeira edi\u00e7\u00e3o da colet\u00e2nea contava, ainda, com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, \u00fanico romance selecionado. Por\u00e9m, a partir da segunda edi\u00e7\u00e3o, a comiss\u00e3o optou por manter apenas os ensaios na publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Os textos compreendem um esfor\u00e7o de pensadores brasileiros em propor interpreta\u00e7\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o nacional, o que explica serem originais do fim do s\u00e9culo 19, tempo em que a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica j\u00e1 estava bem estabelecida, at\u00e9 os anos 1970, com destaque para o per\u00edodo entre as d\u00e9cadas de 1920 a 1940. Santiago avalia que a abund\u00e2ncia de textos de car\u00e1ter interpretativo tem rela\u00e7\u00e3o com a demora para que as universidades fossem instaladas no pa\u00eds \u2014 a Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), por exemplo, surgiu em 1934. \u201cNa Am\u00e9rica Latina, os brasileiros s\u00e3o os \u00fanicos a trabalhar a interpreta\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o inicialmente sob a forma de ensaio liter\u00e1rio e, posteriormente, com metodologia que parte dos princ\u00edpios rigorosos e cient\u00edficos de uma disciplina das ci\u00eancias sociais\u201d, aponta.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Segundo o cr\u00edtico, a inten\u00e7\u00e3o foi de somar \u00e0 leitura epistemol\u00f3gica, de car\u00e1ter cient\u00edfico, a tradi\u00e7\u00e3o ensa\u00edstica do pa\u00eds. \u201cFoi como uma vingan\u00e7a da hermen\u00eautica\u201d, brinca Santiago, ressaltando que a escolha do t\u00edtulo, Int\u00e9rpretes, \u00e9 uma forma de evidenciar que cada texto mira um aspecto da na\u00e7\u00e3o e que a interpreta\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e9 um projeto em aberto. Conforme mencionado no fim da introdu\u00e7\u00e3o do primeiro volume, Santiago considera o pa\u00eds um \u201cclaro enigma\u201d, em refer\u00eancia a uma das colet\u00e2neas de poemas de Carlos Drummond de Andrade. \u201cConvivemos hoje com claros enigmas e a dissolu\u00e7\u00e3o de toda e qualquer refer\u00eancia a um mundo mais justo. Prato cheio para os novos int\u00e9rpretes do Brasil e do mundo.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"865\" height=\"994\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20250910_3_Silviano-Santiago_visita_Cedae_scarpa_AJS_6745.jpg\" alt=\"Esta imagem \u00e9 um retrato em plano m\u00e9dio de um homem idoso, branco, com a cabe\u00e7a calva e um bigode branco bem aparado. Ele usa \u00f3culos de arma\u00e7\u00e3o escura e tem uma express\u00e3o facial engajada, com a boca ligeiramente aberta, como se estivesse no meio de uma conversa ou palestra.&#10;&#10;Ele est\u00e1 gesticulando com ambas as m\u00e3os \u00e0 sua frente para enfatizar um ponto. Veste um su\u00e9ter de malha cinza com gola em V, por baixo do qual se v\u00ea uma camisa social. Um detalhe not\u00e1vel s\u00e3o as duas listras amarelas vibrantes nos antebra\u00e7os do su\u00e9ter. O fundo \u00e9 liso e de cor clara, o que mant\u00e9m todo o foco na figura do homem.\" class=\"wp-image-50450\" style=\"width:600px\"  \/><strong>O escritor e professor Silviano Santiago: n\u00e3o faltam intelectuais no pa\u00eds, por\u00e9m h\u00e1 o deslocamento da palavra escrita para uma cultura imag\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"865\" height=\"994\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/20250910_3_Silviano-Santiago_visita_Cedae_scarpa_AJS_6745-1.jpg\" alt=\"Esta imagem \u00e9 um retrato em plano m\u00e9dio de um homem idoso, branco, com a cabe\u00e7a calva e um bigode branco bem aparado. Ele usa \u00f3culos de arma\u00e7\u00e3o escura e tem uma express\u00e3o facial engajada, com a boca ligeiramente aberta, como se estivesse no meio de uma conversa ou palestra.&#10;&#10;Ele est\u00e1 gesticulando com ambas as m\u00e3os \u00e0 sua frente para enfatizar um ponto. Veste um su\u00e9ter de malha cinza com gola em V, por baixo do qual se v\u00ea uma camisa social. Um detalhe not\u00e1vel s\u00e3o as duas listras amarelas vibrantes nos antebra\u00e7os do su\u00e9ter. O fundo \u00e9 liso e de cor clara, o que mant\u00e9m todo o foco na figura do homem.\" class=\"wp-image-50452\" style=\"width:400px\"  \/><strong>O escritor e professor Silviano Santiago: n\u00e3o faltam intelectuais no pa\u00eds, por\u00e9m h\u00e1 o deslocamento da palavra escrita para uma cultura imag\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-size:25px;line-height:1.5\"><strong>Entre-lugar<\/strong><\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">A afinidade de Santiago por obras que buscam compreender o pa\u00eds remonta a sua forma\u00e7\u00e3o multicultural, cujo princ\u00edpio norteador se caracteriza pelo esfor\u00e7o de romper com o eurocentrismo cultural em pa\u00edses como o Brasil e pela percep\u00e7\u00e3o do quanto a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, sobretudo a liter\u00e1ria, \u00e9 um reflexo dessa dualidade entre a ruptura com o padr\u00e3o estabelecido e a sua reprodu\u00e7\u00e3o. Ao longo de sua trajet\u00f3ria, Santiago sintetizou este pensamento na ideia do \u201centre-lugar\u201d da literatura brasileira e latino-americana. Segundo o cr\u00edtico, trata-se de uma ferramenta de leitura com a qual \u00e9 poss\u00edvel extrair o sentido dos textos liter\u00e1rios a partir do contraste e da diferen\u00e7a. \u201cO entre-lugar empenha-se em conceber uma an\u00e1lise cultural, n\u00e3o apenas est\u00e9tica, da literatura. Na verdade, trata-se de uma an\u00e1lise multicultural\u201d, define.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Essa perspectiva p\u00f3s-colonial vai ao encontro do pensamento de Jacques Derrida, fil\u00f3sofo franco-argelino c\u00e9lebre pela filosofia da desconstru\u00e7\u00e3o, que questiona a suposta rigidez entre significantes e significados, propondo que a linguagem \u00e9 complexa, inst\u00e1vel e fluida, o que abriu espa\u00e7o para o questionamento dos centralismos culturais estabelecidos pelas rela\u00e7\u00f5es coloniais. Apesar de consider\u00e1-lo um de seus mestres, Santiago conta que sua sensibilidade para este pensamento foi forjada antes mesmo das obras de Derrida terem sido publicadas. Formado em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), rumou para Paris em 1961 para o doutorado em Literatura Francesa pela Universidade de Paris-Sorbonne. \u201cDei de cara com a Guerra de Independ\u00eancia da Arg\u00e9lia\u201d, lembra o professor, que passou a conviver com a realidade de argelinos e tunisianos na capital de seus colonizadores.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Outra experi\u00eancia que o despertou para a mesma consci\u00eancia foi o per\u00edodo em que lecionou na Universidade do Novo M\u00e9xico, nos Estados Unidos, local em que teve contato com ind\u00edgenas e latinos. Ver tantas diferen\u00e7as nos mesmos espa\u00e7os fez com que Santiago refletisse sobre a realidade do pr\u00f3prio pa\u00eds. \u201cDe repente, me deparei com um Brasil que desconhecia. Sou constru\u00eddo pela diferen\u00e7a\u201d, conclui. \u201cFui constru\u00eddo para encontrar as ideias de Derrida em meu caminho.\u201d<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Um dos primeiros exerc\u00edcios do cr\u00edtico que o conduziram ao entre-lugar foi, justamente, o trabalho com a Carta de Caminha nas aulas em Albuquerque, no Novo M\u00e9xico. \u201cComo ensinar a Carta sem recair nos lugares comuns da coloniza\u00e7\u00e3o europeia, na catequese religiosa e na nudez ignorante?\u201d, questiona Santiago, que prop\u00f4s uma leitura do documento associando o poder colonial portugu\u00eas contido no texto \u00e0 met\u00e1fora da semente, refer\u00eancia tanto \u00e0 fertilidade da terra brasileira, quanto \u00e0 sugest\u00e3o dada a D. Manuel I de semear a cultura europeia na col\u00f4nia \u2014 met\u00e1fora que, ao longo de sua trajet\u00f3ria, Santiago estendeu \u00e0 viol\u00eancia sexual cometida contra as mulheres ind\u00edgenas e africanas. \u201cN\u00e3o h\u00e1 origem mais realista para se pensar o Brasil do que seu come\u00e7o na Carta do escriv\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">A vis\u00e3o se manteve ao longo da carreira e se revela na sele\u00e7\u00e3o de textos que comp\u00f5em \u201cInt\u00e9rpretes do Brasil\u201d. Um exemplo disso \u00e9 o primeiro texto da colet\u00e2nea, O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco, que evidencia a quest\u00e3o racial como um dos pilares da forma\u00e7\u00e3o nacional e, consequentemente, um dos temas que devem ser enfrentados na desconstru\u00e7\u00e3o do centramento da cultura europeia. \u201cCentramento este que \u00e9 respons\u00e1vel pela exclus\u00e3o lenta, gradativa, arbitr\u00e1ria e violenta das culturas dos povos origin\u00e1rios e dos povos africanos diasp\u00f3ricos\u201d, avalia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2132\" height=\"2560\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mosaico-1-scaled.jpg\" alt=\"Esta imagem \u00e9 uma colagem formada por quatro retratos de homens, organizados em uma grade com duas fotos em cima e duas embaixo. Todos parecem ser intelectuais ou escritores de diferentes \u00e9pocas.&#10;&#10;No canto superior esquerdo, h\u00e1 uma fotografia antiga e formal de um homem com cabelo escuro e um bigode grande e vistoso, que encara a c\u00e2mera seriamente.&#10;&#10;No canto superior direito, uma foto em preto e branco mostra um homem de meia-idade com \u00f3culos de aros grossos e uma express\u00e3o s\u00e9ria, sentado diante de uma estante cheia de livros.&#10;&#10;No canto inferior esquerdo, outra foto em preto e branco retrata um homem mais velho, calvo e de \u00f3culos, com um olhar melanc\u00f3lico e pensativo, direcionado para baixo.&#10;&#10;Finalmente, no canto inferior direito, h\u00e1 o retrato em preto e branco de um homem idoso, de cabelo e bigode brancos, que oferece um sorriso leve e amig\u00e1vel.\" class=\"wp-image-50456\" style=\"width:600px\"  \/><strong>Joaquim Nabuco, Florestan Fernandes, S\u00e9rgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre: textos dos pensadores integraram a colet\u00e2nea de interpreta\u00e7\u00f5es sobre a forma\u00e7\u00e3o nacional brasileira<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2132\" height=\"2560\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mosaico-scaled.jpg\" alt=\"Esta imagem \u00e9 uma colagem formada por quatro retratos de homens, organizados em uma grade com duas fotos em cima e duas embaixo. Todos parecem ser intelectuais ou escritores de diferentes \u00e9pocas.&#10;&#10;No canto superior esquerdo, h\u00e1 uma fotografia antiga e formal de um homem com cabelo escuro e um bigode grande e vistoso, que encara a c\u00e2mera seriamente.&#10;&#10;No canto superior direito, uma foto em preto e branco mostra um homem de meia-idade com \u00f3culos de aros grossos e uma express\u00e3o s\u00e9ria, sentado diante de uma estante cheia de livros.&#10;&#10;No canto inferior esquerdo, outra foto em preto e branco retrata um homem mais velho, calvo e de \u00f3culos, com um olhar melanc\u00f3lico e pensativo, direcionado para baixo.&#10;&#10;Finalmente, no canto inferior direito, h\u00e1 o retrato em preto e branco de um homem idoso, de cabelo e bigode brancos, que oferece um sorriso leve e amig\u00e1vel.\" class=\"wp-image-50454\" style=\"width:400px\"  \/><strong>Joaquim Nabuco, Florestan Fernandes, S\u00e9rgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre: textos dos pensadores integraram a colet\u00e2nea de interpreta\u00e7\u00f5es sobre a forma\u00e7\u00e3o nacional brasileira<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-size:25px;line-height:1.5\"><strong>Na corda bamba<\/strong><\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Se o primeiro texto da colet\u00e2nea data ainda do Brasil Imp\u00e9rio, per\u00edodo pr\u00e9-aboli\u00e7\u00e3o, a \u00faltima obra selecionada por Santiago, Revolu\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil (1974), de Florestan Fernandes, j\u00e1 tem mais de 50 anos. De l\u00e1 para c\u00e1, o pa\u00eds passou por transforma\u00e7\u00f5es significativas, terreno f\u00e9rtil para o surgimento de novos int\u00e9rpretes e interpreta\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, o cen\u00e1rio contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 marcado pela efervesc\u00eancia registrada nos anos 1930 e 1940. Na vis\u00e3o do cr\u00edtico, n\u00e3o h\u00e1 no pa\u00eds uma escassez de intelectuais. \u201cTalvez os tenhamos at\u00e9 em excesso\u201d, comenta. Para Santiago, o que parece dificultar o surgimento dessas novas reflex\u00f5es \u00e9 um deslocamento da palavra escrita para uma cultura excessivamente de imagens. \u201cA palavra perde o seu lugar de soberana no processo de representa\u00e7\u00e3o do pensamento humano. De repente aparece o computador. O teclado se torna um objeto contradit\u00f3rio e ser\u00e1 o principal respons\u00e1vel por uma revolu\u00e7\u00e3o inesperada no modo de o ser humano se expressar e at\u00e9 no modo de agir\u201d, reflete.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Aos novos intelectuais que se aventurarem em tecer interpreta\u00e7\u00f5es acerca do pa\u00eds, Santiago acredita que a ideia de forma\u00e7\u00e3o nacional, hoje, seria mais bem explorada em dois recortes: a inser\u00e7\u00e3o da \u201clinguagem Brasil\u201d no cen\u00e1rio internacional \u2014 fen\u00f4meno do qual destaca a ascens\u00e3o dos Brics [alian\u00e7a intergovernamental composta por Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul] e que entra em rota de colis\u00e3o com l\u00edderes como Donald Trump na presid\u00eancia dos Estados Unidos \u2014 e a inclus\u00e3o de grupos sociais reprimidos no processo civilizat\u00f3rio brasileiro. Este \u00faltimo t\u00eam protagonizado debates recentes acerca de movimentos identit\u00e1rios e da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria contempor\u00e2nea. Um exemplo dessas discuss\u00f5es ocorreu no fim de agosto deste ano. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a tradutora e professora da USP Aurora Bernardini defendeu que parte dos autores contempor\u00e2neos prezam mais pelo conte\u00fado do que pelo estilo liter\u00e1rio e que a produ\u00e7\u00e3o recente do pa\u00eds teria um excesso identit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Santiago avalia que tensionamentos do tipo fazem parte desse recorte e s\u00e3o necess\u00e1rios para se pensar o pa\u00eds. \u201cA presen\u00e7a do identitarismo na literatura n\u00e3o ocorre \u00e0 toa. Ela acontece porque essas identidades s\u00f3 podem ser bem expressas por meio de sua subjetividade\u201d, que se reflete na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Para o professor, a desconstru\u00e7\u00e3o do centramento da cultura europeia implica a percep\u00e7\u00e3o de que grupos ind\u00edgenas e africanos sempre sofreram desclassifica\u00e7\u00f5es. \u201cHoje, h\u00e1 um retorno desses que foram desclassificados\u201d, defende.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">Aos 89 anos e com um vasto arcabou\u00e7o intelectual constru\u00eddo, Santiago n\u00e3o refuta o peso da velhice. \u201cA melhor met\u00e1fora que revela as contradi\u00e7\u00f5es do per\u00edodo \u00e9 a do \u2018andar na corda bamba\u2019. A longa experi\u00eancia de vida ajuda, mas qualquer passo em falso \u00e9 fatal. As redes de prote\u00e7\u00e3o s\u00e3o os m\u00e9dicos\u201d. Talvez a experi\u00eancia tenha o gabaritado para desenvolver um profundo interesse pela obra de Machado de Assis. Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de seu romance Machado, laureado com um Pr\u00eamio Jabuti em 2017, que se concentra nos \u00faltimos anos de vida do \u201cBruxo do Cosme Velho\u201d, o professor acredita ter inaugurado um novo g\u00eanero liter\u00e1rio, um \u201cromance da sobreviv\u00eancia\u201d, a volta do caminho dos c\u00e9lebres romances de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"line-height:1.5\">O contato pr\u00f3ximo com a obra de Machado tem feito Santiago se debru\u00e7ar sobre os \u00faltimos romances do escritor e contrast\u00e1-los com Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, de forma a identificar nessas obras a inven\u00e7\u00e3o da moderna narrativa introspectiva em l\u00edngua portuguesa. \u201cNo momento presente, eu me tornei monoman\u00edaco, at\u00e9 onde consigo ser\u201d, reflete o cr\u00edtico ao encontrar em Machado de Assis mais do que outra rede de prote\u00e7\u00e3o: uma fonte de equil\u00edbrio para seguir em frente na sua corda bamba.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u2018Int\u00e9rpretes do Brasil\u2019 e o desafio da desconstru\u00e7\u00e3o Pintura retrata a primeira missa no Brasil: projeto da coloniza\u00e7\u00e3o&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":109929,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,203,201,202,204,114,115,32,33],"class_list":{"0":"post-109928","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-arts","12":"tag-arts-and-design","13":"tag-artsanddesign","14":"tag-design","15":"tag-entertainment","16":"tag-entretenimento","17":"tag-portugal","18":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109928","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=109928"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/109928\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/109929"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=109928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=109928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=109928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}