{"id":110465,"date":"2025-10-14T13:20:20","date_gmt":"2025-10-14T13:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/110465\/"},"modified":"2025-10-14T13:20:20","modified_gmt":"2025-10-14T13:20:20","slug":"so-as-maes-sao-felizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/110465\/","title":{"rendered":"S\u00f3 as m\u00e3es s\u00e3o felizes"},"content":{"rendered":"<p>A certa altura de Cora\u00e7\u00e3o sem medo, o rec\u00e9m-lan\u00e7ado romance de Itamar Vieira Junior, uma das personagens, F\u00e1tima, conta para Rita Preta, a protagonista da hist\u00f3ria, do tempo em que passou na pris\u00e3o. F\u00e1tima relata que no per\u00edodo em que ficou numa col\u00f4nia penal participou de um grupo de leitura. Apesar de n\u00e3o se recordar de todos os livros, cita uma hist\u00f3ria, segundo ela, \u201ctriste e bonita: o di\u00e1rio de uma mulher chamada Carolina, moradora de uma favela em S\u00e3o Paulo\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria em quest\u00e3o \u00e9 Quarto de despejo: di\u00e1rio de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus. A refer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3ria. Ao citar esse livro, Vieria Junior faz uma escolha n\u00e3o s\u00f3 est\u00e9tica, mas tamb\u00e9m pol\u00edtica. Num ano em que leitores e espectadores parecem estar vidrados na vida da elite \u2014 a julgar pelo sucesso de Coisa de rico, de Michel Alcoforado, e pelo alarido em torno de Odete Roitman em Vale Tudo \u2014, no romance que encerra a triologia iniciada com Torto arado, o escritor reafirma seu compromisso com os vulner\u00e1veis.\u00a0<\/p>\n<p>As marcas dessa op\u00e7\u00e3o est\u00e3o por toda a parte.\u00a0 Ao encontrar Rita Preta, o leitor descobrir\u00e1 que sua trajet\u00f3ria \u00e9 r\u00edgida e ordin\u00e1ria, a ponto de poder ser confundida com in\u00fameras m\u00e3es do Brasil \u2014 mulheres que cuidam dos filhos, s\u00e3o chefes de fam\u00edlia e ainda precisam enfrentar jornadas de trabalho quase sempre degradantes em um pa\u00eds onde a renda m\u00e9dia \u00e9 baixa.\u00a0<\/p>\n<p>M\u00e3e de tr\u00eas filhos, Rita Preta j\u00e1 enfrentava uma vida de dissabores quando uma trag\u00e9dia se abate sobre sua exist\u00eancia: seu primog\u00eanito, Cid, desaparece. Para agravar a situa\u00e7\u00e3o, o \u00faltimo encontro com o filho \u00e9 marcado por uma briga, na qual criadora e criatura disputam poder. As fam\u00edlias infelizes s\u00e3o infelizes \u00e0 sua maneira. A protagonista n\u00e3o recita Tolst\u00f3i ou qualquer romance burgu\u00eas; ela pr\u00f3pria vive o negro drama.<\/p>\n<blockquote class=\"s-eye dashed-top\"><p>\n    O contraste da viol\u00eancia masculina n\u00e3o est\u00e1 na candura das mulheres, mas na sua resist\u00eancia\n<\/p><\/blockquote>\n<p>\t\t\t<a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"adv-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3008\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201056%20270'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Group-3008-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n<p>A partir dali, a parca estrutura de seu mundo come\u00e7a a ruir e ela se v\u00ea desenganada, desesperada, desamparada. A primeira parte do romance, que \u00e9 subdividido em cinco, pode ser lida como uma cr\u00f4nica de uma morte anunciada \u2014 devidamente experimentada por jovens do Brasil profundo e tamb\u00e9m nas grandes cidades.\u00a0<\/p>\n<p>Salvador, a primeira capital do Brasil, \u00e9 o lugar onde a trama acontece. Partes da filosofia da composi\u00e7\u00e3o de Vieira Junior, fic\u00e7\u00e3o e realidade se encontram: a metr\u00f3pole baiana \u00e9 uma das mais violentas do pa\u00eds, com destaque negativo para o alcance da viol\u00eancia policial. Vieira Junior \u00e9, sim, um autor pol\u00edtico, mas n\u00e3o discute pol\u00edtica partid\u00e1ria: seu romance n\u00e3o fulaniza este ou aquele partido; em vez disso, aponta para a viol\u00eancia de Estado, esp\u00e9cie de denominador comum de todas as \u00e9pocas.<\/p>\n<p>A trama engrossa. Ainda na primeira parte do romance, o narrador d\u00e1 as pistas daquele que pode ter sido o destino de Cid. S\u00e3o ind\u00edcios que levam Rita Preta e o leitor de um lado para o outro, numa busca incessante e sem respostas.\u00a0<\/p>\n<p>Embora veross\u00edmil, a cr\u00f4nica policial n\u00e3o tem o apelo arrebatador de um thriller, e o romance, ainda que correto, soaria comum se ficasse nisso. \u00c9 a partir do trecho final da primeira parte que a escrita de Vieira Junior se transforma, quando acontece o confronto entre Rita Preta e o filho do meio, Cainho.\u00a0<\/p>\n<p>A despeito do cuidado para tratar de quest\u00f5es sens\u00edveis como maternidade, solid\u00e3o feminina, ang\u00fastia (as personagens parecem a todo tempo conscientes de sua condi\u00e7\u00e3o), para que a literatura tenha for\u00e7a \u00e9 preciso torcer a palavra de modo a punir, e n\u00e3o somente a vigiar. Assim, se por um lado existem momentos em que o texto abusa de imagens desgastadas (como a do ch\u00e3o desmoronando sob os p\u00e9s de Rita Preta), por outro \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filho, sobreviventes de um luto sem fim, que mostra ao leitor que n\u00e3o existe meio termo quando se trata de capturar a sensa\u00e7\u00e3o de dor.<\/p>\n<p>Homens em f\u00faria<\/p>\n<p>Se o Estado representa o algoz invis\u00edvel \u2014 com sua viol\u00eancia praticada pelos agentes que deveriam garantir a ordem e a seguran\u00e7a \u2014, os homens se revelam fr\u00e1geis sobretudo quando irrompem em f\u00faria. O eixo de Cora\u00e7\u00e3o sem medo se estrutura na ideia de que os personagens masculinos s\u00e3o quebrados, mesmo quando querem exalar autoridade; s\u00e3o fracos, mesmo quando ambicionam demonstrar for\u00e7a; e s\u00e3o incapazes de agir corretamente, ainda que o mal se manifeste em sua frente. A exce\u00e7\u00e3o que comprova a regra talvez seja um auxiliar de escriv\u00e3o, Edgar (mesmo assim, ele \u00e9 opaco demais para ficar muito tempo ao lado das \u201cmulheres fortes\u201d). Quanto aos pais dos filhos de Rita Preta, cada qual \u00e0 sua maneira, n\u00e3o passam de meninos grandes:n\u00e3o t\u00eam senso de responsabilidade, tampouco cuidado para n\u00e3o decepcionar as mulheres que acompanham.\u00a0<\/p>\n<p>O contraste da viol\u00eancia masculina n\u00e3o est\u00e1 na candura das mulheres, mas na sua resist\u00eancia. Cora\u00e7\u00e3o sem medo \u00e9 uma elegia \u00e0 coragem feminina e se legitima n\u00e3o porque seu autor descreve exemplos de demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a da protagonista e de suas coadjuvantes. A legitimidade decorre do fato de que as den\u00fancias de viol\u00eancia obst\u00e9trica, policial e pol\u00edtica s\u00e3o rebatidas com o espa\u00e7o seguro do sonho, da imagina\u00e7\u00e3o e da mem\u00f3ria que ratificam a import\u00e2ncia de enfrentar as afli\u00e7\u00f5es. Rita Preta \u00e9 v\u00edtima, mas n\u00e3o se deixa abater, mesmo que o cen\u00e1rio seja adverso em toda a narrativa.<\/p>\n<p>Quando encontra aqueles que transtornaram a vida de sua fam\u00edlia, ela os enfrenta com altivez. E s\u00f3 consegue fazer isso porque, aos poucos, se reconcilia consigo mesma. Em uma das cenas mais marcantes do livro, ao assistir a mais um epis\u00f3dio de maus tratos praticados pela pol\u00edcia, Rita Preta se revolta:<\/p>\n<p>Quem fala n\u00e3o \u00e9 mais a mulher, a trabalhadora, a amante que quer seguir sua vida. Quem clama \u00e9 a m\u00e3e. Quem ruge \u00e9 a fera.<\/p>\n<p>Trechos como esse sobram em Cora\u00e7\u00e3o sem medo. N\u00e3o as palavras de ordem, mas passagens que exibem tens\u00e3o, como que preparando para o pr\u00f3ximo ato. Em contrapartida, n\u00e3o s\u00e3o raras as vezes em que o narrador oferece uma digress\u00e3o, seja para aludir a outros personagens da trilogia, seja para oferecer contexto da hist\u00f3ria em curso. \u00c9 nesse sentido que a trama ganha f\u00f4lego e se aproxima do mist\u00e9rio. Os sonhos v\u00e3o ganhando mais relev\u00e2ncia com o avan\u00e7o da narrativa, que vai se fragmentando, sem deixar escapar a tem\u00e1tica principal.\u00a0<\/p>\n<p>Na passagem que recupera os acontecimentos envolvendo o desaparecimento de Cid, os s\u00edmbolos est\u00e3o por toda parte: o nome do principal algoz, Fara\u00f3 (um dos respons\u00e1veis pela persegui\u00e7\u00e3o ao primog\u00eanito de Rita Preta), o contraste entre o policial torturador que age como um pai afetuoso dentro de casa etc.<\/p>\n<p>Ditadura<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o conectar os pontos: Cora\u00e7\u00e3o sem medo dialoga com a produ\u00e7\u00e3o cultural contempor\u00e2nea acerca da ditadura civil-militar de 1964. Afinal, Rita Preta \u00e9 mais uma mulher que a um s\u00f3 tempo busca justi\u00e7a para aqueles que fizeram desaparecer seu filho e quer ter o direito de viver o luto.\u00a0<\/p>\n<p>Em outra passagem do livro, ela declara:\u00a0<\/p>\n<p>Quero justi\u00e7a. Estou defendendo meu filho, minha fam\u00edlia. A ditadura n\u00e3o acabou aqui, governador. Nunca atinei para os estudos, mas meus filhos me ensinam muita coisa. Para as m\u00e3es de periferia, a ditadura nunca acabou. Voc\u00eas continuam a sumir com nossos filhos.\u00a0<\/p>\n<p>Cora\u00e7\u00e3o sem medo guarda um tom amargo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. N\u00e3o apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 elite que \u201cem nada difere dos senhores e conquistadores de outros tempos\u201d, mas tamb\u00e9m junto aos poderes estabelecidos, que, na \u00faltima hora, podem alterar decis\u00f5es esperadas h\u00e1 tempos.\u00a0<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria reserva para os filhos de Rita Preta uma condi\u00e7\u00e3o especial no que se refere \u00e0 sensibilidade e \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o de afetos. Se num primeiro momento eles s\u00e3o ing\u00eanuos \u2014 adolescentes ora irritadi\u00e7os, ora angustiados \u2014, com o desenrolar da narrativa eles amadurecem, a ponto de um deles, Cainho, merecer um segmento com destaque para os seus cadernos, textos escritos por ele que ajudam a dar sentido ao drama da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Sem o cinismo dos mais intelectualizados, ou a afeta\u00e7\u00e3o de certo discurso progressista, que mesmo ao criticar os muito ricos n\u00e3o esconde certa admira\u00e7\u00e3o, Cora\u00e7\u00e3o sem medo atesta que ainda h\u00e1 muito sofrimento represado em uma sociedade cujo denominador comum \u00e9 a desigualdade. Mesmo assim, o compromisso do autor com os pobres sempre reaparece: deixar de sonhar n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\t<a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"adv-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3010\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201056%20270'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Group-3010-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A certa altura de Cora\u00e7\u00e3o sem medo, o rec\u00e9m-lan\u00e7ado romance de Itamar Vieira Junior, uma das personagens, F\u00e1tima,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":110466,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-110465","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110465","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110465"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110465\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/110466"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}