{"id":110860,"date":"2025-10-14T18:46:15","date_gmt":"2025-10-14T18:46:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/110860\/"},"modified":"2025-10-14T18:46:15","modified_gmt":"2025-10-14T18:46:15","slug":"amalia-voltou-ao-carnegie-hall-onde-ela-merece-estar-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/110860\/","title":{"rendered":"Am\u00e1lia voltou ao Carnegie Hall, &#8220;onde ela merece estar&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Na pior das hip\u00f3teses, por\u00e9m, j\u00e1 ter\u00e1 servido para voltar a evocar o nome de Am\u00e1lia, algo necess\u00e1rio porque, aponta Ricardo Ribeiro, \u201cos portugueses t\u00eam um problema de mem\u00f3ria\u201d. \u201c\u00c9 um problema do in\u00edcio do Atl\u00e2ntico e do fim do Mediterr\u00e2neo. Perdemos facilmente a mem\u00f3ria, mas de quando em vez a Am\u00e1lia vive. E quando de repente parece que j\u00e1 n\u00e3o se fala dela, vem qualquer coisa que a p\u00f5e outra vez onde ela merece estar\u201d, defende. H\u00e1 73 anos, por exemplo, mereceu ombrear com a elite nova-iorquina, quando deu a conhecer os seus encantos em terras transatl\u00e2nticas.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma rapariga portuguesa no La Vie en Rose que, para mim, \u00e9 a cantora estrangeira mais arrebatadora que os nossos night clubs apresentaram, desde h\u00e1 muitos anos\u201d. Foi desta forma que o lend\u00e1rio cr\u00edtico de teatro e m\u00fasica, Douglas Watt, se referiu a Am\u00e1lia Rodrigues nas p\u00e1ginas da revista<a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/magazine\/1952\/10\/25\/1952-10-25-143-tny-cards-000042539\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">\u00a0New Yorker<\/a>, destacando n\u00e3o s\u00f3 a qualidade da sua voz \u2014 \u201cde uma bela limpidez, assim como uma espantosa flexibilidade\u201d \u2014, mas tamb\u00e9m como a usava, equiparando a sua t\u00e9cnica ao \u201cgrito do mu\u00e9zin, chamando \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, do alto da mesquita\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos em 1952, e os EUA j\u00e1 tinham travado contacto com o fado \u2014 Erc\u00edlia Costa, a \u201csanta do fado\u201d, j\u00e1 tinha ido ao pa\u00eds duas vezes, pela m\u00e3o de Ant\u00f3nio Ferro \u2014, mas nunca desta maneira, numa fase em que Am\u00e1lia Rodrigues j\u00e1 come\u00e7ara a construir a sua lenda internacional, causando burburinho nas diferentes geografias por onde passava, cantava e ia bebericar ao cancioneiro local. Esta primeira passagem por Nova Iorque, na famosa e exclusiva boate acima mencionada, causou impacto imediato. \u201cEra para ir por tr\u00eas ou quatro semanas e fiquei catorze\u201d, afirmou a cantora ao seu bi\u00f3grafo, V\u00edtor Pav\u00e3o dos Santos, em Am\u00e1lia: Uma Biografia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o sucesso da primeira passagem, passados dois anos, Am\u00e1lia n\u00e3o s\u00f3 regressou ao La Vie en Rose, como estreou-se no igualmente prestigiado Mocambo, em Hollywood. Pelo meio, tornou-se na primeira portuguesa a figurar na televis\u00e3o americana, no popular programa do cantor Eddie Fisher (pai de <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2016\/12\/28\/carrie-fisher-lado-luminoso-lado-negro\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Carrie Fisher<\/a>), de quem ficou amiga, apesar de n\u00e3o ter gostado nem da experi\u00eancia de cantar neste formato \u2014 \u201c\u00e9 demasiadamente frio\u201d \u2014 nem de ter bebido Coca-Cola pela primeira vez na vida.<\/p>\n<p>Esses tempos dos anos 50, conta, foram marcados por jantares com os Sinatra ou convites \u00e0s festas no lend\u00e1rio hotel Waldorf-Astoria, onde paravam figuras como James Stewart ou Jennifer Jones e onde chegou a cantar casualmente com Nat King Cole ou Eartha Kitt. No entanto, destas passagens resultaram tamb\u00e9m solicita\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias, como uma proposta por parte do ator Danny Kaye para que entrasse com ele num espet\u00e1culo da Broadway. \u201cEu n\u00e3o quis. Quem sabe, se tivesse ido, correndo-me bem as coisas, como sempre correram em toda a parte, talvez eu tivesse partido dali para uma coisa importante. Eu podia ter sido muita coisa, se n\u00e3o tivesse sido aquilo que sou\u201d, admitiu. Mais \u00e0 frente, ter\u00e1 tamb\u00e9m sido sondada para participar num filme em Hollywood, algo que tamb\u00e9m recusou.<\/p>\n<p>No entanto, nem s\u00f3 de \u201cn\u00e3os\u201d se fizeram estas primeiras passagens da fadista pelos EUA. Foi neste pa\u00eds onde editou o seu primeiro vinil longa-dura\u00e7\u00e3o, tecnologia recentemente estreada: <a href=\"https:\/\/www.discogs.com\/release\/5456211-Am%C3%A1lia-Rodrigues-Am%C3%A1lia-Rodrigues-Sings-Fado-From-Portugal-Flamenco-From-Spain?srsltid=AfmBOorYBrqGIEF_P1b7Vgh3I7hARaSiEDQrioXXNkcOqvyw4eRcq3wL\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Amalia Rodrigues Sings Fado From Portugal and Flamenco From Spain<\/a>. Lan\u00e7ado em 1954 pela Angel Records, este, segundo a investiga\u00e7\u00e3o de Miguel Carvalho em <a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/a-pide-o-pcp-a-propaganda-e-a-revolucao-amalia-rodrigues-entre-o-regime-e-a-resistencia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Am\u00e1lia \u2013 Ditadura e Revolu\u00e7\u00e3o<\/a>, ter\u00e1 sido financiado pela ag\u00eancia publicit\u00e1ria George Peabody and Associates, por sua vez contratada pelo Estado Novo para promover a imagem de Portugal. Am\u00e1lia, no entanto, sempre reclamou independ\u00eancia face ao regime e a Ant\u00f3nio Ferro \u2014 \u201cachava que eu era a melhor toalha que tinham em casa, mas nunca me ajudou a ser a Am\u00e1lia Rodrigues\u201d, defendeu\u00a0na sua biografia \u2014, tanto que, nessa fase, recusou propostas subsequentes para gravar cl\u00e1ssicos de Cole Porter e Ira Gershwin. \u201cFiquei muito contente de me terem convidado, mas estava farta da Am\u00e9rica e vim-me embora\u201d, assume.<\/p>\n<p>O seu destino, por\u00e9m, cruzar-se-ia profundamente com os EUA nas d\u00e9cadas seguintes. Em 1964, mereceria <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/1964\/08\/29\/archives\/high-priestess-of-fado-singing-returns-nostalgically-to-lisbon.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">um perfil<\/a> do The New York Times, sendo descrita como \u201ca sumo-sacerdotisa do culto do amor; dos amores perdidos, atrai\u00e7oados, amaldi\u00e7oados e n\u00e3o correspondidos\u201d. J\u00e1 no final da d\u00e9cada, em atua\u00e7\u00f5es no clube Chateau Madrid, onde os melhores artistas ib\u00e9ricos paravam na \u201cBig Apple\u201d, seria apontada pela revista Newsweek como \u201co equivalente portugu\u00eas de Edith Piaf e Billie Holiday\u201d, com \u201cum voz escura e emocionante, carregada de nuances subtis de um imenso colorido, que tornam a dor quente e a paix\u00e3o fria\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na pior das hip\u00f3teses, por\u00e9m, j\u00e1 ter\u00e1 servido para voltar a evocar o nome de Am\u00e1lia, algo necess\u00e1rio&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":110861,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[145],"tags":[26262,624,211,210,315,114,115,623,2131,339,62,1035,32,33],"class_list":{"0":"post-110860","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-celebridades","8":"tag-amu00e1lia-rodrigues","9":"tag-amu00e9rica","10":"tag-celebridades","11":"tag-celebrities","12":"tag-cultura","13":"tag-entertainment","14":"tag-entretenimento","15":"tag-estados-unidos-da-amu00e9rica","16":"tag-fado","17":"tag-mu00fasica","18":"tag-mundo","19":"tag-nova-iorque","20":"tag-portugal","21":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=110860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/110860\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/110861"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=110860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=110860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=110860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}