{"id":112792,"date":"2025-10-16T07:04:32","date_gmt":"2025-10-16T07:04:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/112792\/"},"modified":"2025-10-16T07:04:32","modified_gmt":"2025-10-16T07:04:32","slug":"filosofia-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/112792\/","title":{"rendered":"Filosofia &#038; pol\u00edtica &#8211;"},"content":{"rendered":"<p>\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/filosofia-politica\/?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/pdf.png\" alt=\"image_pdf\" title=\"Ver PDF\"\/><\/a><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/filosofia-politica\/?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\"\/><\/a><\/p>\n<p>Por <strong>MARILENA CHAUI*<\/strong><\/p>\n<p>Pref\u00e1cio do livro p\u00f3stumo de Gerd Bornheim, rec\u00e9m-lan\u00e7ado.<\/p>\n<p><strong>Gerd Bornheim, fil\u00f3sofo da liberdade<\/strong><\/p>\n<p>Esta colet\u00e2nea dos ensaios de Gerd Borheim trazem no t\u00edtulo filosofia. Nada mais adequado. Com efeito, os ensaios percorrem sempre as quest\u00f5es fundamentais do pensar filos\u00f3fico para descortinar o sentido ou a prosa do mundo: o que \u00e9? (o ser), por que \u00e9 (a g\u00eanese e o devir), como \u00e9? (as conex\u00f5es necess\u00e1rias, poss\u00edveis ou contingentes), para que\/para quem \u00e9? (a finalidade), contra o que\/contra quem \u00e9? (a nega\u00e7\u00e3o, a oposi\u00e7\u00e3o, a contradi\u00e7\u00e3o e sobretudo as antinomias).<\/p>\n<p>\u00c9, pois como quest\u00e3o filos\u00f3fica que Gerd Bornheim se acerca do segundo tema do t\u00edtulo, pol\u00edtica. Nada mais significativo que o grande ensaio sobre \u201cAs medidas da liberdade\u201d se inicie com Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles e termine em Marx.<\/p>\n<p>A laboriosa e precisa apresenta\u00e7\u00e3o deste livro feita por Gaspar Paz e Tayan\u00e3 Targa dispensa um pref\u00e1cio que abarque todos os temas desenvolvidos por Gerd Bornheim. Por isso, aqui, me voltarei muito brevemente para uma quest\u00e3o que ocupou o autor desde seus in\u00edcios: a da liberdade.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 instigante que Gerd Bornheim intitule seu ensaio \u201cAs medidas da liberdade\u201d. Por que instigante? Por que temos a tend\u00eancia a considerar que a liberdade \u00e9 imensur\u00e1vel. Pelo contr\u00e1rio, enfatizando a ideia de antinomia (portanto de uma oposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se resolve nunca em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 apaziguadora contradi\u00e7\u00e3o hegeliana), Gerd Bornheim examina a liberdade em sua rela\u00e7\u00e3o permanente e inarred\u00e1vel com a n\u00e3o-liberdade, que lhe imp\u00f5e medidas (biol\u00f3gicas, psicol\u00f3gicas e sociol\u00f3gicas).<\/p>\n<p>Esse percurso se inicia com a refer\u00eancia aos fil\u00f3sofos gregos que, apesar da democracia e dos escritos \u00e9tico-pol\u00edticos, nunca se interessaram pela liberdade como quest\u00e3o, bastando lembrar que a pergunta socr\u00e1tica \u201co que \u00e9?\u201d, nunca levou a um di\u00e1logo plat\u00f4nico sobre ela e que Arist\u00f3teles lhe dedicou apenas um pequeno par\u00e1grafo.<\/p>\n<p>Em contrapartida, tudo muda de figura com advento do cristianismo e suas marcas principais: o v\u00ednculo entre o livre-arb\u00edtrio e o pecado original (levando \u00e0 ideia de servo-arb\u00edtrio) e a teologia da predestina\u00e7\u00e3o. Esta \u00faltima \u00e9, portanto, a inven\u00e7\u00e3o da primeira medida limitadora da liberdade.<\/p>\n<p>Ora, explica Gerd Bornheim, eis o problema que Ren\u00e9 Descartes dever\u00e1 enfrentar, uma vez que afirma a liberdade ser evidente, que somos senhores de nossa a\u00e7\u00e3o e que nossa perfei\u00e7\u00e3o est\u00e1 em dispor do livre-arb\u00edtrio. Eis porque, embora aceite a teologia da predestina\u00e7\u00e3o, recomenda que se tome dist\u00e2ncia com rela\u00e7\u00e3o a ela. Assim, por ser infinita (e n\u00e3o ser m\u00e1 ou serva), a vontade livre, lemos na \u201cQuarta Medita\u00e7\u00e3o\u201d, se precipita e causa o erro; no entanto \u00e9 por livre vontade que o pensamento institui a d\u00favida met\u00f3dica, conduzindo ao conhecimento verdadeiro, e \u00e9 por livre vontade, lemos nas Paix\u00f5es da Alma, que podemos dominar as paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Com Ren\u00e9 Descartes, escreve Gerd Bornheim, nascem a autonomia do indiv\u00edduo, o advento da nova filosofia e da nova ci\u00eancia, a ideia de soberania individual e, numa palavra, o individualismo moderno.<\/p>\n<p>Todavia, a teologia da predestina\u00e7\u00e3o encontra um caminho para reaparecer como algo laico: ressurge na antinomia kantiana entre necessidade e liberdade. Eis o aparecimento de uma nova medida.<\/p>\n<p>Apesar do \u201cEu puro\u201d de Fichte e do percurso da eticidade hegeliana, a antinomia se torna insuper\u00e1vel quando uma nova laiciza\u00e7\u00e3o da predestina\u00e7\u00e3o encontra um novo caminho com a biologia, a psicologia, a hist\u00f3ria e a sociologia e, mais adiante, a psican\u00e1lise. Surgem, portanto, novas medidas.<\/p>\n<p>Ora, o que \u00e9 fascinante no ensaio de Gerd Bornheim \u00e9 o lugar onde ele situa uma nova rela\u00e7\u00e3o da liberdade com as medidas da n\u00e3o-liberdade: em lugar de situ\u00e1-la na filosofia, ele a situa na obra de Friedrich Schiller e, particularmente, nas Cartas sobre a educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do homem e no emprego do verbo alem\u00e3o spielen (jogar, brincar, tocar um instrumento musical, interpreta\u00e7\u00e3o teatral de um papel, praticar um esporte, brincadeiras infantis) em que, apesar do rigor das normas, regras ou medidas respeitadas por todos, introduz a espontaneidade e a criatividade individual do agente, como se v\u00ea n\u00e3o apenas nas artes, mas tamb\u00e9m nos tribunais, nas assembleias pol\u00edticas e nos jogos esportivos.<\/p>\n<p>Essa ideia, que Gerd Bornheim mostra estar presente em Bertold Brecht, o leva \u00e1s an\u00e1lises de Karl Marx sobre a criatividade do trabalho, impedida pelo capitalismo e pela linha de montagem sob a vigil\u00e2ncia taylorista, mas capaz de plenitude no comunismo.<\/p>\n<p>A antinomia contempor\u00e2nea se encontra no fato de que vivemos sob a contraposi\u00e7\u00e3o entre duas ideias da liberdade: de um lado, as medidas do livre-arb\u00edtrio cartesiano, da autonomia kantiana e da \u201cimpertin\u00eancia satriana\u201d (\u201cestamos condenados \u00e0 liberdade\u201d) e de outro, o desejo de transgredir todas as medidas.<\/p>\n<p>Eis por que Gerd conclui o ensaio escrevendo: \u201cSonhe-se, pois, na espera de um novo Schiller\u201d.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>Gostaria de concluir com algumas reflex\u00f5es sobre outros textos<a href=\"#_edn1\" id=\"_ednref1\">[i]<\/a> de Gerd sobre o surgimento da \u00e9tica na modernidade e sobre as antinomias contempor\u00e2neas entre duas experi\u00eancias da liberdade porque permitem uma compreens\u00e3o alargada do ensaio sobre \u201cAs medidas da liberdade\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar que, nesses textos, Gerd Bornheim n\u00e3o toma Kant como refer\u00eancia principal e sim Ren\u00e9 Descartes. De fato, como para ele o nascimento da \u00e9tica moderna depende do surgimento da ideia de indiv\u00edduo aut\u00f4nomo, \u00e9 no cogito cartesiano que ele encontra esse momento inaugural e isso sob dois aspectos principais: no da experi\u00eancia absoluta da subjetividade antes da experi\u00eancia do absoluto, isto \u00e9, de Deus, e, em segundo lugar, no da nova ideia da liberdade como livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>De fato, a refer\u00eancia priorit\u00e1ria a Descartes torna-se compreens\u00edvel se nos lembrarmos de que, ao caracterizar a \u00e9tica, Gerd Bornheim enfatiza a rela\u00e7\u00e3o entre a particularidade do indiv\u00edduo e a universalidade da norma, pois sem a universalidade n\u00e3o pode haver normatividade. A tens\u00e3o entre o singular espa\u00e7o-temporal, que \u00e9 o indiv\u00edduo, e o universal, que transcende o espa\u00e7o e o tempo, sempre foi contornada pela atribui\u00e7\u00e3o de uma origem sagrada \u00e0 norma.<\/p>\n<p>Eis porque a norma deve ser posta como algo que transcende o espa\u00e7o e o tempo e que seu fundamento deva ser encontrado num universal concreto, qual seja, a divindade, \u00fanica fonte poss\u00edvel de estabilidade, necessidade e perenidade da norma. Ora, com Ren\u00e9 Descartes a refer\u00eancia da norma a Deus tende a minimizar-se e quase desaparecer, pois a experi\u00eancia do cogito \u00e9 uma experi\u00eancia absoluta do sujeito antes de sua rela\u00e7\u00e3o com Deus e nela se afirma pela primeira vez a autonomia do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Por outro lado e como consequ\u00eancia, Descartes tamb\u00e9m ser\u00e1 o primeiro, no mundo crist\u00e3o, a definir a liberdade pelo livre-arb\u00edtrio da vontade e, portanto, pelo poder infinito de decis\u00e3o que faz do homem senhor de si e senhor da natureza. Isso significa que, a partir de Ren\u00e9 Descartes, a norma (mesmo que referida em \u00faltima inst\u00e2ncia a Deus) ter\u00e1 que encontrar na finitude do homem sua garantia \u00fanica e pode faz\u00ea-lo porque a liberdade da vontade define o homem pela autonomia e, portanto, pelo poder de dar a si mesmo a universalidade da norma. Na interpreta\u00e7\u00e3o de Gerd Bornheim, caber\u00e1 a Kant concluir esse processo, cujo princ\u00edpio \u00e9 cartesiano.<\/p>\n<p>O sujeito cartesiano, insiste Gerd Bornheim, \u00e9 historicamente determinado. Em outras palavras, o cogito e o livre arb\u00edtrio da vontade, que afirmam a autonomia do indiv\u00edduo, s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis no interior de um acontecimento hist\u00f3rico: o \u201cprojeto burgu\u00eas\u201d. Desse projeto, Gerd Bornheim oferece as principais caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, trata-se do advento da ideia de autonomia do sujeito de que o cogito cartesiano \u00e9 uma das express\u00f5es, duas outras podendo ser encontradas no surgimento do retrato, na pintura, e na mudan\u00e7a da forma e do conte\u00fado da biografia, na literatura. A autonomia do sujeito pressup\u00f5e o surgimento do indiv\u00edduo e \u00e9 este que faz sua apari\u00e7\u00e3o na pintura e na literatura. At\u00e9 o in\u00edcio da modernidade, a pintura pintava universais, isto \u00e9, pintava tipos; a partir da modernidade, pinta indiv\u00edduos singulares concretos, retratos.<\/p>\n<p>At\u00e9 o in\u00edcio da modernidade, as biografias \u2013 vidas de santos e de grandes homens, \u00e0 maneira de Agostinho e de Plutarco \u2013 narravam itiner\u00e1rios exemplares e n\u00e3o os percal\u00e7os, as aventuras e desventuras de algum indiv\u00edduo, mas \u00e9 exatamente isso que agora \u00e9 narrado e, sob essa perspectiva, Descartes tamb\u00e9m \u00e9 exemplar com a abertura do Discurso do M\u00e9todo. Escreve Gerd Bornheim: \u201co individualismo funciona como uma esp\u00e9cie de a priori, como pressuposto maior que oxigenaria o projeto burgu\u00eas\u201d.<a href=\"#_edn2\" id=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/p>\n<p>Em segundo lugar, a modernidade d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho como condi\u00e7\u00e3o da constitui\u00e7\u00e3o da personalidade. Em terceiro lugar, p\u00f5e como fundamento do indiv\u00edduo e do trabalho a propriedade privada e, portanto, em quarto lugar, o capitalismo.<\/p>\n<p>Esses dados hist\u00f3ricos, por sua vez determinam dois outros, que formam as duas \u00faltimas caracter\u00edsticas apontadas por Gerd Bornheim, quais sejam, o novo sentido dado ao conhecimento humano \u2013 isto \u00e9, o advento do sujeito do conhecimento como fundamento do objeto do conhecimento e o advento da tecnologia ou da manipula\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do objeto do conhecimento \u2013 e, finalmente, a concep\u00e7\u00e3o cartesiana da liberdade como independ\u00eancia e autonomia.<\/p>\n<p>Com esses elementos, Gerd Bornheim pode salientar um outro aspecto da modernidade ou do \u201cprojeto burgu\u00eas\u201d, qual seja, o efeito do ate\u00edsmo. De fato, o que o cogito e a liberdade cartesianos anunciam \u00e9 a possibilidade de conceber o indiv\u00edduo, sua a\u00e7\u00e3o e as normas sem refer\u00eancia a um fundamento divino. Esse abandono do fundamento divino da norma aparece com clareza na concep\u00e7\u00e3o moderna do advento da vida pol\u00edtica a partir de uma decis\u00e3o humana, isto \u00e9, com o contrato social.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>Temos, assim, o quadro hist\u00f3rico que nos permite compreender porque, ao fim e ao cabo do processo, Kant s\u00f3 poderia recuperar a universalidade da norma atribuindo-a \u00e0 autonomia do sujeito moral, mas esvaziando-a de todo conte\u00fado para deix\u00e1-la exprimir-se como pura forma.<\/p>\n<p>A partir de Kant, compreende-se tamb\u00e9m que Hegel s\u00f3 pudesse expor a eticidade como movimento que vai da bela totalidade \u00e9tica \u2013 plena identidade entre a singularidade do indiv\u00edduo e a universalidade da norma \u2013 \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o moderna entre a particularidade do indiv\u00edduo e a universalidade da norma quando esta \u00e9 dotada de conte\u00fado hist\u00f3rico, contradi\u00e7\u00e3o que s\u00f3 poder\u00e1 ser hegelianamente resolvida pela universalidade concreta do Estado.<\/p>\n<p>Se seguirmos as indica\u00e7\u00f5es de Gerd Bornheim, podemos dizer que a \u00e9tica procura definir antes de tudo a figura do agente \u00e9tico e de suas a\u00e7\u00f5es bem como o conjunto normas que balizam o campo de uma a\u00e7\u00e3o que se considere \u00e9tica. A partir da modernidade, o agente \u00e9tico \u00e9 pensado como sujeito \u00e9tico, isto \u00e9, como um indiv\u00edduo racional e consciente que sabe o que faz, como um indiv\u00edduo dotado de livre arb\u00edtrio que decide e escolhe o que faz, e como um indiv\u00edduo respons\u00e1vel que responde pelo que faz.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o \u00e9tica \u00e9 balizada pelas normas que permitem a diferencia\u00e7\u00e3o do bem e do mal, do justo e do injusto, da virtude e do v\u00edcio. Assim, uma a\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 \u00e9tica se for consciente, livre e respons\u00e1vel e ser\u00e1 virtuosa se for realizada em conformidade com o bom e o justo. Por seu turno, a a\u00e7\u00e3o \u00e9tica s\u00f3 ser\u00e1 virtuosa se for livre e s\u00f3 ser\u00e1 livre se for aut\u00f4noma, isto \u00e9, se resultar de uma decis\u00e3o interior do pr\u00f3prio agente e n\u00e3o de uma press\u00e3o externa.<\/p>\n<p>Enfim, a a\u00e7\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 \u00e9tica se realizar a natureza racional, livre e respons\u00e1vel do agente e se este respeitar a racionalidade, liberdade e responsabilidade dos outros agentes, de sorte que a subjetividade \u00e9tica s\u00f3 pode ser concebida como intersubjetividade.<\/p>\n<p>Evidentemente, como salienta Gerd Bornheim, a \u00e9tica precisa lidar com a tens\u00e3o entre o sujeito e a norma, isto \u00e9, a exig\u00eancia de autonomia do sujeito \u00e9tico pode estar em conflito com a heteronomia que lhe \u00e9 imposta pelas normas de sua sociedade.<\/p>\n<p>Para que n\u00e3o haja tal conflito ser\u00e1 preciso, \u00e0 maneira kantiana, afirmar que o agente reconhece as normas de sua sociedade como se tivessem sido institu\u00eddas por ele pr\u00f3prio enquanto sujeito universal aut\u00f4nomo, pois ter\u00e1 dado a si mesmo sua pr\u00f3pria lei de a\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, a tens\u00e3o s\u00f3 pode ser resolvida por meio da distin\u00e7\u00e3o entre os valores institu\u00eddos por uma sociedade e a vontade moral livre a qual n\u00e3o se guia por tais valores particulares e sim por leis e m\u00e1ximas universais, v\u00e1lidas para todo ser racional, uma vez que s\u00e3o institu\u00eddas pela raz\u00e3o humana enquanto faculdade pr\u00e1tica universal que legisla moralmente para toda a humanidade.<\/p>\n<p>Uma vez que leis e m\u00e1ximas morais nascem da pr\u00f3pria raz\u00e3o, todo sujeito moral pode reconhecer-se como autor delas e, enquanto tal, \u00e9 aut\u00f4nomo. Gra\u00e7as, ali\u00e1s, a essa universalidade e autonomia, o sujeito moral pode julgar os valores de sua sociedade para determinar quais s\u00e3o \u00e9ticos (concordam com a raz\u00e3o pr\u00e1tica universal) e quais n\u00e3o o s\u00e3o e devem ser rejeitados.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 esse mesmo conflito entre sujeito e sociedade que Jean-Paul Sartre tematiza de maneira radical na pe\u00e7a teatral A portas fechadas. A ontologia sartriana<a href=\"#_edn3\" id=\"_ednref3\">[iii]<\/a> funda-se na cis\u00e3o entre o ser (as coisas, o mundo, os objetos) e o nada (a consci\u00eancia como pura atividade livre), de tal maneira que aquele que invoca raz\u00f5es e motivos (econ\u00f4micos, sociais, pol\u00edticos, religiosos, psicol\u00f3gicos) que o impediriam de ser livre, simplesmente usa de m\u00e1-f\u00e9, pois a liberdade \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o mesma da ess\u00eancia da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Ora, em A portas fechadas, a liberdade ou a autonomia de cada um \u00e9 destru\u00edda pelo olhar dos outros, perante os quais cada um perde a condi\u00e7\u00e3o de sujeito e se torna um objeto \u2013 cada consci\u00eancia s\u00f3 pode perceber o outro n\u00e3o como consci\u00eancia e liberdade, mas como uma coisa no mundo. Donde a express\u00e3o c\u00e9lebre: \u201co inferno s\u00e3o os outros\u201d.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre a norma, conduz Gerd a uma pergunta precisa. Perante a formaliza\u00e7\u00e3o kantiana, indaga: \u201cO que passa a interessar \u00e9 a responsabilidade aut\u00f4noma de cada indiv\u00edduo. A soberania da norma, agora totalmente formalizada, nem consegue mais entrar em conflito com a soberania do indiv\u00edduo aut\u00f4nomo, tudo depender\u00e1 do \u00edntimo de sua consci\u00eancia; a norma se restringe assim ao ato de cada indiv\u00edduo ter de assumir a sua responsabilidade universal. (\u2026). N\u00e3o obstante a bem-sucedida formaliza\u00e7\u00e3o kantiana \u00e9 pertinente que se pergunte: cabe falar em uma \u00e9tica destitu\u00edda de normatividade, alheia ao dever-ser dos velhos valores objetivos?\u201d.<a href=\"#_edn4\" id=\"_ednref4\">[iv]<\/a><\/p>\n<p>A resposta de Gerd Bornheim ser\u00e1 negativa, mas de maneira surpreendente e muito original. Meditando sobre a hist\u00f3ria da arte, observa que a norma est\u00e9tica passou por uma hist\u00f3ria bastante semelhante \u00e0 da norma \u00e9tica. Havia, antes da modernidade, a norma absoluta, referida \u00e0 beleza das coisas absolutas e que fazia da arte a manifesta\u00e7\u00e3o do esplendor da verdade divina.<\/p>\n<p>A modernidade, por\u00e9m, introduziu regras racionais est\u00e1veis que passaram a nortear a obra de arte sem a refer\u00eancia ao absoluto e ao divino. E, no s\u00e9culo XX, desapareceu a pr\u00f3pria id\u00e9ia de uma est\u00e9tica normativa, pois a \u00fanica norma para a arte tornou-se a \u201ccriatividade do artista\u201d. A est\u00e9tica normativa e transcendente cedeu lugar a uma est\u00e9tica imanente ao ato art\u00edstico (aquela de Schiller, apresentada em \u201cAs medidas da liberdade\u201d). O mesmo poderia ser dito no caso da \u00e9tica.<\/p>\n<p>Escreve Gerd Bornheim: \u201cA criatividade transfere-se agora para o campo da a\u00e7\u00e3o moral do indiv\u00edduo, e transforma-se ent\u00e3o em responsabilidade. Deixo claro: a cria\u00e7\u00e3o estaria para a obra de arte assim como a responsabilidade estaria para a a\u00e7\u00e3o moral. Neste ponto, Sartre foi sem d\u00favida o fil\u00f3sofo mais contundente. Se Deus existe, diz ele luteranamente, o homem perde a sua liberdade. Como Deus n\u00e3o existe, conclui ele satrianamente, o homem n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 livre como deve assumir sua liberdade absoluta. E acrescento: liberdade absoluta quer dizer antes de tudo responsabilidade absoluta. Por a\u00ed a norma desfalece em sua pr\u00f3pria raz\u00e3o de ser. Assim mesmo, continua de p\u00e9 (\u2026) a quest\u00e3o dos limites de tal responsabilidade, de sua poss\u00edvel extens\u00e3o \u2013 extens\u00e3o no sentido mais preciso da palavra: o geogr\u00e1fico e o hist\u00f3rico\u201d.<a href=\"#_edn5\" id=\"_ednref5\">[v]<\/a><\/p>\n<p>Onde se encontra o radicalismo de Jean-Paul Sartre? Responde Gerd Bornheim: em ter coroado o \u201cprojeto burgu\u00eas\u201d e levado \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias a tese cartesiana da autonomia do sujeito. Ora, isso significa, de um lado, que nele encontramos uma medita\u00e7\u00e3o radical sobre a liberdade entendida como libera\u00e7\u00e3o do homem, mas tamb\u00e9m, de outro, que ele aponta \u201cpara a gravidade da crise dentro da qual nos movemos\u201d.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a crise em que nos movemos? \u201cRealmente, ter-se-ia de perguntar o que \u00e9 feito hoje daquela espl\u00eandida autonomia. Porque o trabalho se robotiza, o capitalismo se batiza de selvagem, a liberdade trope\u00e7a em seu pr\u00f3prio absurdo, e por a\u00ed afora\u201d.<a href=\"#_edn6\" id=\"_ednref6\">[vi]<\/a><\/p>\n<p>Reencontramos, assim, \u201cAs medidas da liberdade\u201d, quando Gerd Bornheim indaga: como continuar afirmando a autonomia e a responsabilidade absoluta do sujeito depois da descoberta do inconsciente por Freud? Como manter a distin\u00e7\u00e3o kantiana do homem como ser sens\u00edvel e supra-sens\u00edvel depois da biologia gen\u00e9tica?<\/p>\n<p>Como, depois de Marx, esquecer a determina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e hist\u00f3rica da a\u00e7\u00e3o dos homens? Como esquecer que a primeira apresenta\u00e7\u00e3o da intersubjetividade feita na filosofia \u00e9 a dial\u00e9tica hegeliana do senhor e do escravo e a luta mortal das consci\u00eancias?<\/p>\n<p>Na verdade, diz Gerd Bornheim, o homem contempor\u00e2neo se v\u00ea \u00e0s voltas com duas concep\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias da liberdade: \u201cPois, de um lado, o homem moderno vive a liberdade como forma da experi\u00eancia absoluta: ele se faz um ser aut\u00f4nomo, independente e a liberdade lhe pertence como um bem maior. (\u2026). E no entanto, de outro lado, o homem ainda que habitado pelas \u00e2nsias dessa liberdade total a transgredir todos os limites, admite tamb\u00e9m, nas mais simples experi\u00eancias da cotidianidade contempor\u00e2nea, o reconhecimento das fronteiras condicionantes da liberdade, simplesmente porque esse homem frequenta o m\u00e9dico, as perquiri\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas, e aflige-se com os avassaladores conflitos do mundo social e pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p><strong>*Marilena Chaui<\/strong>\u00a0\u00e9 professora Em\u00e9rita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Cidadania cultural: pol\u00edtica cultural e cultura pol\u00edtica novas (Aut\u00eantica) [<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3T98Ywk\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">https:\/\/amzn.to\/3T98Ywk<\/a>]<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"201\" height=\"256\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Gerd-Borheim.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-56014\"  \/><\/p>\n<p>Gerd Borheim. Filosofia &amp; pol\u00edtica. Organiza\u00e7\u00e3o: Gaspar Paz &amp; Tayan\u00e3 Targa. Vit\u00f3ria, EDUFES, 2025, 280 p\u00e1gs. [<a href=\"https:\/\/edufes.ufes.br\/items\/show\/758\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Neste link<\/a>]<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" id=\"_edn1\">[i]<\/a> Gerd Borheim \u201cNotas para o estudo de uma \u00e9tica enquanto problema\u201d, in: Metaf\u00edsica e finitude. S\u00e3o Paulo, Perspectiva, 2001; \u201cO sujeito e a norma\u201d, in A. Novaes (org.) \u00c9tica. S\u00e3o Paulo, Cia. das Letras, 1992; O avesso da liberdade. S\u00e3o Paulo, Cia das Letras, 2002.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" id=\"_edn2\">[ii]<\/a> G. Borheim \u201cO sujeito e a norma\u201d, op. cit., p. 249.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref3\" id=\"_edn3\">[iii]<\/a> Gerd A. Borheim. Sartre, Parte I, S\u00e3o Paulo, Editora Perspectiva, 1971.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref4\" id=\"_edn4\">[iv]<\/a> G. Borheim \u201cNotas para o estudo de uma \u00e9tica enquanto problema\u201d, op. cit., p. 33<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref5\" id=\"_edn5\">[v]<\/a> Idem, ibidem p. 34.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref6\" id=\"_edn6\">[vi]<\/a> G. Borheim \u201cO sujeito e a norma\u201d, op. cit., p. 256.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center has-background\" style=\"background-color:#e99152\"><strong>A Terra \u00e9 Redonda\u00a0existe gra\u00e7as<\/strong>\u00a0<strong>aos nossos leitores e apoiadores.<br \/>Ajude-nos a manter esta ideia.<br \/><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/CONTRIBUA\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\"><strong\/><\/a><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/CONTRIBUA\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">C O N T R I B U A<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por MARILENA CHAUI* Pref\u00e1cio do livro p\u00f3stumo de Gerd Bornheim, rec\u00e9m-lan\u00e7ado. 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