{"id":114018,"date":"2025-10-17T01:10:22","date_gmt":"2025-10-17T01:10:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/114018\/"},"modified":"2025-10-17T01:10:22","modified_gmt":"2025-10-17T01:10:22","slug":"inteligencia-artificial-questoes-eticas-e-ovelhas-eletricas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/114018\/","title":{"rendered":"Intelig\u00eancia artificial, quest\u00f5es \u00e9ticas e ovelhas el\u00e9tricas"},"content":{"rendered":"<p>            <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-293465\" class=\"size-full wp-image-293465\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Comunicacao-etica-e-IA.jpeg\" alt=\"\" width=\"1023\" height=\"1436\"  \/><\/p>\n<p id=\"caption-attachment-293465\" class=\"wp-caption-text\">(Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que na semana em que voc\u00ea l\u00ea este livro um punhado de novidades tenha sido anunciado no campo da intelig\u00eancia artificial (IA), da rob\u00f3tica e dos sistemas pretensamente aut\u00f4nomos. Isso vem acontecendo nos \u00faltimos anos, chamando a aten\u00e7\u00e3o de quem entende e quem nada sabe sobre o assunto. E em t\u00e3o pouco tempo \u2013 sejamos honestos! \u2013, nosso imagin\u00e1rio foi novamente assaltado por enigm\u00e1ticos personagens sint\u00e9ticos, promessas de realiza\u00e7\u00f5es milagrosas, incertezas sobre o futuro imediato e amea\u00e7as ao nosso velho mundo. Entre a especula\u00e7\u00e3o, o tecnosolucionismo, o marketing digital e os frutos efetivos do desenvolvimento existe uma gal\u00e1xia de desejos, sonhos, frustra\u00e7\u00f5es e fantasmas. Isso \u00e9 natural porque estamos no continuum dessa hist\u00f3ria, longe de ter todas as respostas \u00e0s muitas perguntas que nos assombram.<\/p>\n<p>Gestado no campo dos estudos da comunica\u00e7\u00e3o, este livro se soma a outros esfor\u00e7os para tentar compreender o que alguns consideram ser um divisor de \u00e1guas na hist\u00f3ria humana e na do pr\u00f3prio planeta. Para os mais entusiasmados, haver\u00e1 um antes e um depois da IA; para os mais pessimistas, essa profecia s\u00f3 aumenta o entulho das nossas preocupa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, \u00e9ticas e comunicativas. Nossas pr\u00f3ximas p\u00e1ginas n\u00e3o se dedicam apenas \u00e0s tens\u00f5es e di\u00e1logos com a IA, abrigando tamb\u00e9m debates sobre moralidade, \u00e9tica aplicada, desafios profissionais e redimensionamento dos processos comunicacionais.<\/p>\n<p>Um leque t\u00e3o variado tem sua raz\u00e3o de ser: este livro re\u00fane textos selecionados que foram apresentados na oitava edi\u00e7\u00e3o da \u201cMedia Ethics Conference\u201d, em 2024. O evento teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, numa realiza\u00e7\u00e3o conjunta com a Universidade de Sevilha (Espanha), Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil), do Centro de Estudos Interdisciplinares e do Centro de Estudos de Comunica\u00e7\u00e3o e Sociedade da Universidade do Minho (ambos de Portugal).<\/p>\n<p>Para dar conta da multiplicidade de abordagens, dividimos os cap\u00edtulos em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es apenas para enfatizar afinidades tem\u00e1ticas. Isso n\u00e3o impede que sejam feitas leituras n\u00e3o-sequenciais dos textos, por exemplo, e que haja um fluxo err\u00e1tico de consumo das p\u00e1ginas. Na pr\u00e1tica, a liberdade de decidir por onde ir \u00e9 de quem est\u00e1 segurando este volume. Cabe aos organizadores apresentar rapidamente os cap\u00edtulos a seguir.<\/p>\n<p>Composta por sete textos, a primeira se\u00e7\u00e3o aborda preocupa\u00e7\u00f5es reais para as IA. Come\u00e7amos com uma astuta afirma\u00e7\u00e3o de Rafael Capurro: Joseph Weizenbaum encarna a ideia de parres\u00eda na era digital. Para lembrar: os gregos antigos chamavam de \u201cparres\u00eda\u201d a coragem de dizer a verdade mesmo diante de riscos; e Weizenbaum foi um importante nome da ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o quando ela se preparava para dominar o mundo. Quando ainda est\u00e1vamos deslumbrados com o potencial das m\u00e1quinas, Weizenbaum chamou a aten\u00e7\u00e3o para aspectos \u00e9ticos, como a centraliza\u00e7\u00e3o desse poder e a distribui\u00e7\u00e3o global dos benef\u00edcios dessa revolu\u00e7\u00e3o. O argumento de Capurro foi apresentado na forma de confer\u00eancia na \u201cMedia Ethics Conference\u201d, publicada neste livro de forma in\u00e9dita em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia, Luis Borges Gouveia, Maria Beatriz Marques e Miguel Santos perguntam se as plataformas digitais podem ser transformadas pela IA. Longe de um exerc\u00edcio ret\u00f3rico, os autores est\u00e3o interessados em discutir como dois recentes instrumentos regulat\u00f3rios europeus \u2013 o Regulamento Servi\u00e7os Digitais e o Regulamento Mercados Digitais \u2013 podem impactar o desenvolvimento de sistemas de IA que n\u00e3o podem se esquivar de aspectos como seguran\u00e7a, privacidade e responsabilidade.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel Sim\u00f5es e Wilson Caldeira se det\u00eam sobre a modalidade mais comentada atualmente de IA, a generativa. Os autores reconhecem os muitos avan\u00e7os que podem vir a surgir dessas novidades, mas refor\u00e7am a preocupa\u00e7\u00e3o de buscar harmonizar cria\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica e integridade, efici\u00eancia t\u00e9cnica e valores humanos. Francilene Silva e Rita Paulino se debru\u00e7am sobre pol\u00edticas de uso de IA de cinco meios brasileiros, detectando riscos como pl\u00e1gio, opacidade, preconceitos, vieses e desinforma\u00e7\u00e3o. Para a autora, a n\u00e3o-rara ocorr\u00eancia de erros e a necessidade inadi\u00e1vel de supervis\u00e3o humana apontam para a urg\u00eancia de refinamentos t\u00e9cnicos e \u00e9ticos para assegurar qualidade e precis\u00e3o nos produtos jornal\u00edsticos.<\/p>\n<p>Mais otimistas, William Henrique Fran\u00e7a e Marco Schneider adotam uma postura pragm\u00e1tica ao tentar demonstrar a aplicabilidade de solu\u00e7\u00f5es de IA para a detec\u00e7\u00e3o e remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fados desinformativos do ambiente online. A tecnologia ajuda a enfrentar o problema, mas os autores tamb\u00e9m reconhecem a necessidade de acionamento do direito regulat\u00f3rio para fixar par\u00e2metros de seguran\u00e7a e estabelecer contrapartidas e responsabilidades dos criadores dos sistemas de IA.<\/p>\n<p>Antonino Mario Oliveri e Gabriella Polizzi lan\u00e7am m\u00e3o da teoria dos sistemas e da teoria do enquadramento para analisar a comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica da ci\u00eancia e dos problemas sociais em tempos de midiatiza\u00e7\u00e3o. No contexto italiano, suas conclus\u00f5es indicam uma inclina\u00e7\u00e3o comum em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 objetifica\u00e7\u00e3o de dados, o que est\u00e1 diretamente associado a pr\u00e1ticas discursivas para a constru\u00e7\u00e3o de apar\u00eancia de verdade nos relatos.<\/p>\n<p>Jorge Rafael Martins Garrido e Jo\u00e3o Carlos Vicente Sarmento discutem o uso de solu\u00e7\u00f5es de IA em elei\u00e7\u00f5es, observando aspectos \u00e9ticos nos processos de comunica\u00e7\u00e3o entre os atores pol\u00edticos e os eleitores.<\/p>\n<p>Na segunda parte do livro, s\u00e3o abordados o que chamamos de \u201ceticidades comunicativas\u201d, isto \u00e9, dom\u00ednios e funcionamentos de valores, atos e consequ\u00eancias no \u00e2mbito das comunica\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Juan Figuereo-Ben\u00edtez e Julietti-Sussi de Oliveira avaliam o uso de novos formatos de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como o emprego do TikTok nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 2023 na Espanha. Entre os resultados da pesquisa est\u00e1 a observa\u00e7\u00e3o de que partidos mais novos, como o Vox \u2013 da extrema-direita \u2013 e Sumar \u2013 da esquerda \u2013 utilizaram recursos e linguagens da rede social chinesa com mais efic\u00e1cia diante de audi\u00eancias segmentadas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m mergulhadas no contexto espanhol, Lorena Chiwerto Callejo e Gemma Teodoro Bald\u00f3 abordam os desafios para regulamentar a atividade de novos atores da comunica\u00e7\u00e3o, como os influenciadores digitais. Para tanto, avaliam legisla\u00e7\u00f5es recentes e contrastam a atua\u00e7\u00e3o desses personagens com os padr\u00f5es \u00e9ticos do jornalismo profissional local.<\/p>\n<p>Do outro lado do Atl\u00e2ntico, Raphaelle Batista, Natalia Huff e Kalianny Bezerra fazem um mapeamento de valores deontol\u00f3gicos indicados por profissionais na pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro 2021. Apoiado em mais de 6.000 respostas, o estudo observou a rela\u00e7\u00e3o entre qualidade de vida no trabalho, indicadores de precariza\u00e7\u00e3o e valores da \u00e9tica profissional, revelando a crescente import\u00e2ncia de condicionantes como credibilidade e transpar\u00eancia para a atua\u00e7\u00e3o \u00e9tica.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m atento \u00e0s mudan\u00e7as na vida e no modo de trabalho de jornalistas, Marcelo Balbino discute acelera\u00e7\u00e3o social e velocidade nos processos de produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcias, cujos impactos s\u00e3o sentidos nas reda\u00e7\u00f5es e no pr\u00f3prio status desses profissionais.<\/p>\n<p>No \u00faltimo cap\u00edtulo da segunda se\u00e7\u00e3o, Leon\u00ed Serpa discute os dilemas da proximidade informativa entre m\u00eddia de fonte, divulgadores cient\u00edficos e jornalistas quando o assunto \u00e9 not\u00edcias sobre o espa\u00e7o. Num comparativo entre as paisagens brasileira e portuguesa, a autora identifica caracter\u00edsticas de funcionamento que alertam para a depend\u00eancia das ag\u00eancias espaciais na produ\u00e7\u00e3o do notici\u00e1rio, dada a preval\u00eancia de divulgadores e n\u00e3o jornalistas como comunicadores principais.<\/p>\n<p>Na parte final deste livro, outros quatro cap\u00edtulos nos oferecem estudos ou perspectivas que nos estimulam a manter nossa mirada no horizonte. Ivone Rocha e Rita Paulino documentam a violenta campanha de ataques online sofridos por uma blogueira por conta de seu ativismo feminista. Milene Migliano prop\u00f5e pensar sobre uma \u00e9tica da repara\u00e7\u00e3o a partir de perfis nas redes sociais de uma rapper ind\u00edgena. Pela \u00f3tica dos estudos decoloniais, Jorge Kanehide Ijuim e Sandra Madalena Barbosa da Luz analisam coberturas jornal\u00edsticas de duas opera\u00e7\u00f5es policiais num cen\u00e1rio de viol\u00eancia no Brasil. Ana Carolina Trindade lista contribui\u00e7\u00f5es da literacia medi\u00e1tica no contexto comunicacional portugu\u00eas.<\/p>\n<p>O sum\u00e1rio deste livro \u00e9 quase t\u00e3o vertiginoso quanto um livro de Philip K. Dick. H\u00e1 quase 60 anos, ali\u00e1s, o escritor imaginou um futuro em que rob\u00f4s estivessem t\u00e3o integrados \u00e0 vida dos humanos que as fronteiras entre natural e artificial ficassem borradas. Nesse mundo imaginado, as cidades s\u00e3o insalubres, as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00f3xicas como a atmosfera, e o cidad\u00e3o ordin\u00e1rio anseia ter animais de estima\u00e7\u00e3o verdadeiramente biol\u00f3gicos j\u00e1 que est\u00e3o dispon\u00edveis apenas exemplares sint\u00e9ticos. Androides sonham com ovelhas el\u00e9tricas?, pergunta Dick no t\u00edtulo do livro, chamando a aten\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es que ajudam a compor a nossa filosofia de ser e a nossa pr\u00f3pria forma de existir.<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00e3o distantes desse futuro, ainda insistimos em indagar sobre a natureza de nossas escolhas, a legitimidade de nossos atos e as consequ\u00eancias desses gestos. Recorremos aos sistemas de IA como os antigos buscavam o Or\u00e1culo de Delfos. Ainda repetimos velhas perguntas, revisitamos infinitas pol\u00eamicas, mas ainda n\u00e3o desejamos ovelhas el\u00e9tricas. Talvez porque outros anseios povoem nossas almas, talvez porque ainda conservemos uma natureza incerta ou talvez ainda porque nossos sonhos permanecem indom\u00e1veis e insond\u00e1veis.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u201cComunica\u00e7\u00e3o, \u00c9tica e IA: di\u00e1logos sobre desafios e perspectivas na era digital\u201d, organizado por Carlos Camponez, Rog\u00e9rio Christofoletti e Juan Carlos Suarez Villegas e que acaba de ser lan\u00e7ado pela Editora Uminho e CECS, de Braga, Portugal.<\/p>\n<p>O livro pode ser baixado gratuitamente aqui: <a href=\"https:\/\/www.cecs.uminho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/comunicacao_etica_ia-1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">https:\/\/www.cecs.uminho.pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/comunicacao_etica_ia-1.pdf<\/a>\u00a0<\/p>\n<p><strong>***<\/strong><\/p>\n<p><strong>Carlos Camponez \u00e9<\/strong> professor da Universidade de Coimbra (Portugal).<\/p>\n<p><strong>Rog\u00e9rio Christofoletti \u00e9<\/strong> professor da Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil). <\/p>\n<p><strong>Juan Carlos Su\u00e1rez Villegas<\/strong> \u00e9 professor da Universidad de Sevilla (Espanha).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"(Imagem: Divulga\u00e7\u00e3o) \u00c9 muito prov\u00e1vel que na semana em que voc\u00ea l\u00ea este livro um punhado de novidades&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":114019,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,414,933,1428,170,32,33],"class_list":{"0":"post-114018","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-ia","12":"tag-inteligencia-artificial","13":"tag-jornalismo","14":"tag-livros","15":"tag-portugal","16":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114018","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=114018"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114018\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114019"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=114018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=114018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=114018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}