{"id":114088,"date":"2025-10-17T02:21:10","date_gmt":"2025-10-17T02:21:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/114088\/"},"modified":"2025-10-17T02:21:10","modified_gmt":"2025-10-17T02:21:10","slug":"baleias-sao-os-babuinos-do-mar-16-10-2025-suzana-herculano-houzel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/114088\/","title":{"rendered":"Baleias s\u00e3o os babu\u00ednos do mar &#8211; 16\/10\/2025 &#8211; Suzana Herculano-Houzel"},"content":{"rendered":"<p>Elas s\u00e3o majestosas e vivem num outro mundo, longe de nossos olhares cotidianos. O c\u00e9rebro, que chega a ser cinco vezes maior do que o humano, convida a pergunta: qu\u00e3o inteligentes s\u00e3o as <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2025\/08\/como-cientistas-estao-usando-drones-para-estudar-baleias.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">baleias<\/a>? Para uns, responder a esta pergunta \u00e9 importante para decidir se elas deveriam ser confinadas e exibidas em parques aqu\u00e1ticos como reles peixes, presumivelmente burrinhos, incapazes de representar sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. Para outros, \u00e9 uma quest\u00e3o de curiosidade b\u00e1sica e fascina\u00e7\u00e3o com seres cujos rabos gigantescos costumam ser a \u00fanica parte do corpo avistada.<\/p>\n<p>Para mim, era uma quest\u00e3o de compreender os padr\u00f5es por tr\u00e1s da evolu\u00e7\u00e3o da diversidade da vida, e de quebra testar uma hip\u00f3tese: baleias deveriam compartilhar com seus irm\u00e3os artiod\u00e1ctilos (bois, girafas e outros bichos de n\u00famero par de cascos) a rela\u00e7\u00e3o entre o tamanho das partes do c\u00e9rebro e seu n\u00famero de neur\u00f4nios. Em particular, descobrir de quantos neur\u00f4nios \u00e9 feito o c\u00f3rtex cerebral das baleias, a principal parte do c\u00e9rebro que contribui para a flexibilidade cognitiva que eu defino como intelig\u00eancia, permitiria estabelecer o lugar das baleias no ranking com outras esp\u00e9cies, inclusive a humana, sem precisar encontrar testes de intelig\u00eancia que valham igualmente para todos.<\/p>\n<p>A oportunidade se apresentou com o c\u00e9rebro de uma baleia-de-minke, uma das menores baleias, coletado por meu colaborador de longa data, Paul Manger. Transformar o c\u00e9rebro de 2,6 quilos em sopa para contar c\u00e9lulas foi o trabalho da tese de mestrado, ainda em meu laborat\u00f3rio na UFRJ, da Kamilla Avelino de Souza, que depois fundou a Rede Brasileira de Neurobiodiversidade que ela hoje dirige, financiada pelo Instituto Serrapilheira.<\/p>\n<p>O trabalho da Kamilla, finalmente publicado, mostra que a baleia-de-minke se encaixa exatamente onde esperado para um artiod\u00e1ctilo gen\u00e9rico com um c\u00f3rtex cerebral de dois quilos. Com o dobro do volume do c\u00f3rtex humano, esta baleia tem ainda assim apenas 3,2 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios corticais, um quinto dos nossos 16 bilh\u00f5es. Um n\u00famero bem menor, mas nem um pouco desprez\u00edvel: junto com a minke est\u00e3o babu\u00ednos e, pelas minhas estimativas, o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2024\/05\/tyrannosaurus-rex-esta-no-centro-de-debate-sobre-a-inteligencia-dos-dinossauros.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Tyrannosaurus <\/a><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2024\/05\/tyrannosaurus-rex-esta-no-centro-de-debate-sobre-a-inteligencia-dos-dinossauros.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">rex<\/a>. A concord\u00e2ncia da minke com o esperado para artiod\u00e1ctilos tamb\u00e9m permite estimar que, mesmo com oito quilos, o c\u00e9rebro do cachalote, o maior de todos, n\u00e3o tem muito mais de 5 bilh\u00f5es de neur\u00f4nios corticais, compar\u00e1veis ao c\u00f3rtex do elefante e logo abaixo do chimpanz\u00e9, com 6 a 7 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>    Colunas<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o de colunas da Folha<\/p>\n<p>Se o total de neur\u00f4nios dispon\u00edveis no c\u00f3rtex cerebral para cogni\u00e7\u00e3o flex\u00edvel serve de indica\u00e7\u00e3o de capacidade para intelig\u00eancia, ent\u00e3o as baleias est\u00e3o entre macacos e chimpanz\u00e9s: s\u00e3o, digamos, os babu\u00ednos do mar \u2013<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/animais\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">animais<\/a> comprovadamente capazes de articular planos, compl\u00f4s e colabora\u00e7\u00f5es em prol do que querem.<\/p>\n<p>Curiosamente, h\u00e1 algo sobrando e algo faltando no c\u00e9rebro da baleia-de-minke. Seu cerebelo \u00e9 desproporcionalmente grande, ainda que tenha o n\u00famero de neur\u00f4nios esperado para seu tamanho, enquanto faltam 2\/3 dos neur\u00f4nios esperados no tronco cerebral. Talvez a causa esteja no corpo peculiar das baleias, longo mas sem membros, que envia ao cerebelo um n\u00famero enorme de fibras proprioceptivas do seu eixo, mas cuja falta de membros musculosos acaba levando \u00e0 morte os neur\u00f4nios que em outros artiod\u00e1ctilos cuidariam das patas. Somente mais c\u00e9rebros de baleias dir\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p>Avelino-de-Souza K, Patzke N, Karlsson KA, Manger PR, Herculano-Houzel S (2025). <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/10.1002\/cne.70089\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Cellular composition of the brain of a Northern minke whale<\/a>. J Comp Neurol 533, e70089.<\/p>\n<p>Herculano-Houzel S (2023). <a href=\"https:\/\/onlinelibrary.wiley.com\/doi\/full\/10.1002\/cne.25453\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Theropod dinosaurs had primate-like numbers of telencephalic neurons<\/a>. J Comp Neurol 531, 962-974.<\/p>\n<p class=\"c-context__content\">&#13;<br \/>\n    <strong>LINK PRESENTE:<\/strong> Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.&#13;\n  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Elas s\u00e3o majestosas e vivem num outro mundo, longe de nossos olhares cotidianos. O c\u00e9rebro, que chega a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":114089,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[1353,9422,26805,219,4288,109,236,116,3536,32,33,117,3062],"class_list":{"0":"post-114088","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-animais","9":"tag-baleia","10":"tag-baleias","11":"tag-bichos","12":"tag-cerebro","13":"tag-ciencia","14":"tag-folha","15":"tag-health","16":"tag-pesquisa-cientifica","17":"tag-portugal","18":"tag-pt","19":"tag-saude","20":"tag-universidade"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114088","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=114088"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/114088\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114089"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=114088"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=114088"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=114088"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}